IMAGEM PODE NÃO SER NADA



O futebol é um jogo tão complexo, e as aparências enganam tanto, que cada vez mais é preciso reunir informações antes de formar opiniões. O trabalho de técnicos é quase sempre diretamente relacionado aos resultados, pois mesmo quem tem acesso à rotina de treinos por vezes ignora – por pura vontade ou falta de capacidade de compreender o que se passa – os métodos.

Mas às vezes, algo que pode ser mais difícil de detectar, os resultados do time são enganosos no sentido de fazer o técnico parecer melhor do que é. Provavelmente aí reside um dos maiores mistérios do jogo.

O que você lerá neste post é o caso de um time que melhorou tanto a imagem de seu técnico que jogadores que trabalharam com ele, antes e depois dos fatos, simplesmente não compreendem como aconteceu.

Não, não revelarei o nome do técnico (não tenho o menor interesse em prejudicar a reputação de alguém que não fez nada de errado – além, é claro, de treinos considerados “antiquados” pelos próprios jogadores).

Não, não revelarei o nome do time (seria simples descobrir o técnico).

E não – é claro que não – não revelarei quem me contou (seria uma deslealdade de minha parte).

Apenas direi que tudo aconteceu nos últimos anos, em um grande clube do futebol brasileiro.

(a propósito: se você “não concorda” com essas condições, ou entende que “isso não é jornalismo”, ou suspeita que “tudo pode ser uma invenção do blogueiro”, ou tem qualquer outra restrição a uma boa história contada sem a identificação dos envolvidos, pare aqui. Se decidir continuar, poupe o espaço de comentários de sua eventual indignação, ok? Talvez você tenha tempo para essas coisas. Eu não. Obrigado.)

A temporada corria bem, repleta de elogios. O único incômodo de alguns jogadores, digamos, mais exigentes, era a discordância em relação aos tipos de treinos aplicados. De fato, havia mais: alguns conceitos sobre como defender determinadas situações de jogo, por exemplo, não faziam parte do sistema utilizado, o que deixava esses jogadores perplexos. Os resultados escondiam as falhas de uma preparação desatualizada, motivo de preocupação e de conversas internas para encontrar uma forma de sugerir mudanças.

Mas o tipo de diálogo com a comissão técnica não permitia tais aberturas.

O que mais chamava a atenção dos jogadores era a “configuração padrão” das chamadas semanas cheias, em que a ausência de jogos às quartas ou quintas-feiras proporcionava tempo para trabalhos mais caprichados. Em vez disso, a programação chegava a ter três treinos coletivos em cinco dias.

Parêntese: o coletivo que simula um jogo, com onze contra onze, em campo inteiro, é um treino praticamente extinto. Métodos mais modernos privilegiam trabalhos específicos, com menos jogadores e menos espaço. A grosso modo, os treinamentos “diminuíram de tamanho”, passando a se concentrar em situações particulares de jogo. São treinos realizados utilizando áreas menores do campo, com propostas que duram menos tempo do que o antigo coletivo.

Um dia, em uma dessas semanas cheias, os jogadores estavam preparados para responder à ideia de mais um jogo simulado. Fizeram os exercícios de aquecimento normalmente e aguardaram as instruções. Ao primeiro sinal de divisão de titulares e reservas, sentaram-se todos no chão. Todos. E olharam para o técnico, em silêncio. Ele continuou falando, já notando que algo diferente acontecia. Ninguém se levantou, ou se mexeu. Foi quando o técnico deu mostras de rápida adaptação: “ok, vamos fazer um outro tipo de trabalho hoje”.

Então os jogadores finalmente ficaram em pé.

O treinador envolvido nessa história terá seu nome incluído na enorme maioria das listas dos “melhores técnicos do Brasil”, feitas por torcedores ou jornalistas, algo que continua a espantar jogadores que trabalharam e trabalham com ele.

Eventualmente, dizem, ele se encontrará em uma situação em que seu time deixará de esconder os defeitos de seus métodos, que permanecem os mesmos.

Alguns anos depois, no mesmo clube, um outro técnico – que já não desfruta de sua melhor imagem – recebeu a visita de um dos líderes do elenco em sua sala. O jogador tinha sido escolhido pelos companheiros para solicitar uma alteração na programação do dia: era um rachão, e os reservas, principalmente, queriam treinar mais.

A reação do comandante:

“As ordens aqui funcionam em outro sentido. É desse lado aqui, para esse aí, entendeu?”

O jogador tentou se fazer entender melhor, dizendo que não havia problema com o rachão, mas havia o desejo de, depois, treinar mais. O técnico se mostrou inflexível:

“Eu sei o que é melhor para hoje. A programação está feita. E as ordens aqui funcionam nesse sentido (fazendo um gesto com a mão, do próprio peito para a direção do interlocutor).”

Foi demitido poucas semanas depois.



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