COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

CREPÚSCULO

A entrevista de Alexandre Kalil ao repórter Martín Fernandez, publicada anteontem no globoesporte.com, é um compêndio de declarações significativas. Ao relatar a reunião realizada na CBF, no mesmo dia, o executivo-chefe da Liga Sul-Minas-Rio deixou claro o clima que permeou a conversa sobre a inclusão do torneio no calendário do próximo ano. Questionado se a competição seria realizada “de qualquer maneira”, a reposta de Kalil não poderia ser mais reveladora: “É claro que sim. Só queremos saber se são nossos amigos ou não”.

Conforme o que se escreveu neste espaço no início da semana, Kalil não foi à ex-sede José Maria Marin pedir o apoio da confederação a um torneio que é produto da insatisfação de clubes importantes. O ex-presidente do Atlético Mineiro esteve na CBF para informá-la sobre os planos da nova liga e saber se haveria rompimento por causa da realização da competição. Foi recebido com a diplomacia de quem tem consciência de que perderá toda e qualquer briga que se dê no ambiente da opinião pública, uma oportunidade que reúne o útil e o agradável para que os clubes ocupem o espaço que é deles por direito, mas nunca foi reclamado por submissão. Del Nero, o Marco Polo que não viaja e por isso não irá ao Chile acompanhar a Seleção Brasileira, pediu um prazo que se encerra hoje para responder oficialmente. Não se espera nada diferente de um ok à Sul-Minas-Rio.

Em outro trecho da entrevista, Kalil estima em três décadas a idade do vácuo organizacional do futebol no Brasil. “A CBF sucateou o futebol brasileiro para fazer aquele império. Não é hoje, não é agora. Faz trinta anos que ninguém cuida do futebol brasileiro”, declarou. A situação está claramente posta como questão de sobrevivência, com o devido mea culpa embutido por décadas de um comportamento cúmplice por parte dos clubes, e com todas as características de um ponto sem retorno. Ao cumprir a obrigação de ser sócios, os clubes aceitam a responsabilidade de se mobilizar para oferecer um produto melhor em todos os aspectos, um desafio para a classe dirigente do futebol brasileiro como sempre a conhecemos. Será a evolução da espécie, ou sua derrocada.

A propósito, as vozes do atraso já começaram a se erguer. O presidente da Federação de Futebol do Rio de Janeiro, Rubens Lopes, repetiu seu discurso apocalíptico em depoimento à CPI do Futebol, no qual qualificou a Sul-Minas-Rio como “um movimento separatista, de rebeldia, elitista, extremamente prejudicial ao futebol brasileiro como um todo”. Tal qual o cobrador de um ônibus sucateado e malcheiroso, amaldiçoando a inauguração de uma moderna estação de metrô que lhe tomará passageiros, Rubinho assume seu triste papel no debate sobre o progresso do futebol no Brasil. Para caracterizar figuras como o cartola carioca, Kalil recorreu à hematofagia: “Vão ficar mamando e chupando os clubes até morrer? A vampiragem tem limites”.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos determinou o ocaso do cartola-proprietário do futebol, encerrando décadas de um modo de vida explorador. Estamos assistindo ao desaparecimento de Joseph Blatter e seus clones espalhados pelo mundo. Alguns gostariam de poder simplesmente dizer adeus, mas é tarde.

NOVIDADE

A diretoria do Internacional, que contratou um técnico na véspera do Natal passado e cometeu o equívoco de substitui-lo no meio da temporada, inaugurou uma nova modalidade de desvio das próprias responsabilidades: bradar contra a arbitragem após um jogo em que seu time foi beneficiado. O exercício de auto-engano de culpar o apito é conveniente para cartolas incompetentes, uma vez que cheerleaders estão sempre dispostos a comprar e vender fantasias analgésicas. Mas é ridículo.

OUSADIA

Os jogadores do Corinthians, alguns com remuneração atrasada há meses, certamente aplaudiram a ideia – efêmera, é verdade – do diretor financeiro do clube de contratar Carlos Tevez no ano que vem. Ainda há quem creia nesse tipo de devaneio irresponsável.



  • José Henrique

    Grêmio, Inter, e Atlético, são habituais nessas desculpas. E o Kalil nessa liga, meelllll deooosss!!!!
    Curiosamente reclamam, quando em seus estados tem apenas 2 forças.
    Disputassem um Paulista, correriam sérios riscos de rebaixamento.

  • Kessya

    Caro André Kfouri

    Excelente coluna. Só peço uma ressalva: “Tal qual o cobrador de um ônibus sucateado e malcheiroso, amaldiçoando a inauguração de uma moderna estação de metrô que lhe tomará passageiros”.
    O cobrador de ônibus, trabalhador como nós, não tem culpa se o empresário (Rubinho) sucateou o ônibus(federação).

    Abraços

    AK: Ele não é o empresário. Um abraço.

    • José Henrique

      Kessia. Concordo com você. O cobrador no caso deveria ter sido poupado. Ficaria melhor “Tal qual o propritario de uma frota de ônibus vêlhos…..etc…etc”
      Agora André, comparar essa liga com uma moderna estação de metrô, foi muito.
      Sem Paulistas, me desculpe o sr Kalil, vai gerenciar um bonde novo, sem trilhos.
      Uma pergunta. Porque os paulistas não aderiram? E essa liga vai tocar qual hino nos seus jogos? No sul nós já sabemos qual será.

      • Paulo Pinheiro

        Espero que não toquem hino nenhum. O Hino Nacional não foi feito pra este tipo de ocasião. Sobre o tema em si: também não acho que o Kalil passe grandes esperanças de gestão profissional e transparente, em todo caso vale a tentativa. E não acho que os paulistas vão fazer tanta falta assim. É certo que estão ali disputando as 4 primeiras posições desta edição do campeonato, talz. Mas os clubes participantes da Liga já garantem um torneio de qualidade.

        • José Henrique

          Como pode um dirigente desses, reivindicar divisão igualitária de cotas de TV, quando seu time registra 6 pontos de audiência? Quer revogar na marra as leis de mercado no sistema capitalista? Oportunismo, é só.

    • Kessya

      Caro André Kfouri

      Eu não falei que o Rubinho é empresário, como você não disse que ele era cobrador. Apesar do belo texto, a sua comparação é que foi errônea. A sua comparação deveria ser com um empresário de empresa de ônibus e não com o pobre coitado do cobrador que ganha R$ 1.500,00.

      Resumindo, você deveria pedir desculpas a minha classe trabalhadora, que sou cobradora de um ônibus sucateado e malcheiroso e até amaldiçoaria a inauguração de uma moderna estação de metrô, não porque me tomaria passageiros e sim porque me tomaria o emprego.

      Trabalho numa empresa de ônibus sucateada e malcheirosa não é porque eu quero e sim por necessidade, como muitos que lá trabalham.

      AK: Lamento por sua interpretação equivocada.

      • Kessya

        Lamento que pedir desculpas por uma comparação equivocada, não faça parte da sua educação.
        “Tal qual o cobrador de um ônibus sucateado e malcheiroso, amaldiçoando a inauguração de uma moderna estação de metrô que lhe tomará passageiros”.
        O Senhor está parecendo o Sr. Felipe Scolari quando disse que “não quer pressão vai trabalhar no Banco do Brasil”
        Os senhores não respeitam a classe trabalhadora. Acham que somos a pátria de chuteiras, acham que tudo gira em torno do futebol.

  • Bruno Fernandes

    Assustadoras mesmo as declarações dos dirigentes do Internacional. Quando se acha que tudo está ruim piora. As entrevistas do presidente do Inter deveriam dar calafrios nos seus torcedores, de tantas atrocidades que esse cara fala.

    De fato, em termos administrativos, o Inter não está preparado para um técnico como o Aguirre, assim como o São Paulo não está para Osorio, assim como o Palmeiras não esteve e ainda não está preparado para um Ricardo Gareca.

    O discurso e a forma de enxergar futebol desses caras são evoluídos demais para o pré-histórico (fora de campo) futebol brasileiro. Por isso Argel é o técnico certo para o Inter atualmente…

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