COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

FUERZA, JUAN CARLOS

Os contatos entre a seleção mexicana e Juan Carlos Osorio não são novidade para quem acompanha o noticiário do São Paulo. Começaram no início de agosto, poucos dias depois que Miguel Herrera agrediu um jornalista no aeroporto da Filadélfia e perdeu o emprego. O aquecimento das conversas é conhecido desde o último domingo, quando John Sutcliffe, jornalista da ESPN no México, revelou que os dirigentes do país tinham escolhido Osorio.

Anteontem, uma nota neste sentido publicada por um site colombiano foi recebida com desconfiança instantânea aqui no Brasil, por uma estranha tendência a dispensar informações “que estão longe dos fatos”. Vivemos em uma era em que médicos conduzem cirurgias complexas à distância, por intermédio de robôs computadorizados, mas há quem queira impor restrições geográficas a notícias esportivas. Há, também, quem só creia em versões oficiais, o que pode tornar o mundo mais agradável, mas o afasta da realidade.

Enquanto a despedida precoce de Osorio se aproxima, ensaia-se um rascunho de indignação motivado pelo que seria “falta de ética” do técnico colombiano por não honrar seu contrato até o final, uma leitura comprometida dos fatos que certamente gera brindes nos gabinetes do Morumbi. Para que o debate se inicie com um mínimo de justiça, é imperativo que se chegue a um acordo em relação a qual contrato é esse que Osorio não respeitará. Um é o que lhe foi oferecido na Colômbia, em encontros sedutores que cumpriram o objetivo de convencê-lo a trazer sua família para o Brasil. O outro é a transformação que levou um dirigente do clube a declarar, em público, “falhamos com o Osorio”. De qual contrato estamos falando? Até pessoas sob hipnose mantém o nível de senso crítico suficiente para saber qual é a resposta.

Mas essa não é a questão mais importante. Quem encontra motivos para censurar Osorio por considerar, por enquanto, deixar o Brasil pela oportunidade de dirigir um país na Copa do Mundo, deveria refletir sobre a escala de responsabilidades que trouxe o São Paulo até aqui. Criticar o técnico significa dizer que o ônus pela manutenção de um trabalho implodido de cima para baixo pertence a quem foi sabotado. A lógica desse raciocínio não é apenas equivocada, ou confusa, ou injusta. É uma lógica vil, que lava as mãos da diretoria que construiu um castelo de areia e, ao mesmo tempo, entrega Osorio à irracionalidade do torcedor. Para usar um tom bem educado, é um salvo-conduto para dirigentes que não merecem confiança.

O atual comando são-paulino se comporta como um adolescente que se crê capaz de tudo, mas saliva quando é apresentado à obrigação de ser responsável. É um comando que vende modernidade, mas entrega nebulosidade; que cobiça o dinheiro de Abilio Diniz, mas não suas ideias; que diz que é vítima de uma campanha sórdida de desestabilização baseada em mentiras, mas é constantemente flagrado dizendo inverdades. Um comando, enfim, que pretende que você acredite – alô, cheerleaders – que contratou um jogador em uma operação misteriosa, SEM SABER onde esse jogador atuava. O cenário se aproxima perigosamente da lavagem cerebral.

Se a passagem de Juan Carlos Osorio pelo São Paulo está chegando ao fim, já é apropriado falar em legado, essa palavra tão desfigurada por aproveitadores cínicos quanto o trabalho do colombiano no Morumbi. Eis seu legado: esforçar-se para ser compreendido, não trabalhar para proteger seu emprego, aplicar conceitos modernos a um ambiente atrasado, e, finalmente, dizer à cartolagem brasileira o que ela precisa ouvir. Ainda que pareça contraditório, Osorio fará mal ao futebol no Brasil se aceitar limpar a sujeira daqueles que não se importam com ninguém além deles próprios.

FIM

O império de Joseph Blatter ruiu. O que Michel Platini e certos frequentadores da ex-sede José Maria Marin têm em comum: a terrível sensação de chegar atrasados.



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