COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

PEDIGREE FALSIFICADO

Há uma crítica que a CBF não merece: desvio de personalidade. As impressões digitais do anacronismo podem ser encontradas em todas as ideias, todas as ações, todas as manifestações. Ontem, dois dirigentes da confederação publicaram um artigo na Folha de S. Paulo. A peça representa a entidade à perfeição, do início ao fim. É mal escrita, ultrapassada, baseada em uma premissa falsa, e, acima de qualquer outro defeito, é dissimulada. (se você quiser desperdiçar alguns minutos de seu sábado, está aqui: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/233410-complexo-de-vira-lata-20.shtml).

O secretário-geral Walter Feldman, o aluno que faltou à aula de História em que o professor dissertou sobre o Brasil Império, assina o texto escrito a quatro mãos, junto com o diretor financeiro e de planejamento da CBF, Rogério Caboclo. Ambos pretendiam criticar “a mídia” por exercitar o que julgam ser “complexo de vira-latas”: a desvalorização do futebol brasileiro por conta de “um modo europeu de se analisar” o jogo. Falham miseravelmente, a começar por não identificar o alvo. De quem falam? De que conceitos? De que opiniões? Mesmo porque “a mídia” é algo que não existe, uma vez que cada jornalista tem nome e é responsável pelo que diz e escreve.

Também falham no único exemplo prático mencionado ao longo de linhas pretensamente intelectualizadas, ao evocar Mané Garrincha como intérprete de um jeito de jogar futebol que, hoje, seria “execrado pela imprensa por falta de objetividade”. Um devaneio mal escolhido e revelador de falta de atenção, pois Neymar, solitário jogador brasileiro atualmente capaz desses momentos de fantasia individual, é defendido com frequência por jornalistas brasileiros quando o censuram na Europa. Os dirigentes articulistas, ou quem digitou o artigo em nome deles, ainda ignoram que o Campeonato Brasileiro tem sido elogiado pelos jogos de bom nível e pela notável presença de público. O que não surpreende, pois não se deve esperar coerência de quem alcançou a façanha de comparar o atual presidente da CBF a Tancredo Neves.

O trecho mais desavergonhado do texto é esse primor: “Se a CBF conseguir conduzir a evolução que almeja (gestão, transparência, incentivo à formação…)”. Transparência? Qualquer manifestação da confederação que contiver essa palavra e não explicar, em detalhes, por que Del Nero é o Marco Polo que não viaja, será uma afronta à parcela da opinião pública que se preocupa com o futebol no Brasil. O presidente deveria ser a pessoa mais ansiosa para esclarecer a questão e distanciar seu nome do escândalo de corrupção na Fifa, que acaba de vitimar Jérôme Valcke, o chutador de traseiros que sempre recebeu tratamento de chefe de estado no Brasil, pela CBF de Teixeira, de Marin, de Del Nero e de Caboclo, que foi membro do COL da Copa de 2014. No entanto, quando perguntado sobre o assunto durante a última convocação da Seleção, Del Nero correu. Assim funcionam as coisas no futebol de Loretta Lynch, a procuradora-geral dos Estados Unidos: enquanto técnicos e jogadores se preocupam com o próximo jogo, há dirigentes preocupados com “a próxima rodada de prisões”.

A omissão dos destinatários e as confusões de conceitos são próprias de quem tem a intenção de falar sem dizer nada. Espuma, simulação. Sinais graves de despreparo, pois os que conseguem ludibriar por pelo menos algum tempo são os que possuem talento para se comunicar. Os que não vão além do estelionato retórico duram pouco. Novamente, nenhuma surpresa. No caso de Feldman, estamos diante de uma carreira política inteira marcada pela camaleônica incapacidade de se fazer compreender. E ainda que a crítica tivesse um mínimo de mérito, há coisas bem piores do que ser um vira-lata. Ter pedigree falsificado, por exemplo.



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