COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

PASSOS

A atual diretoria do Flamengo, de tantos acertos na gestão do clube do ponto de vista econômico e de posicionamento, fez mais um gol na semana passada, quando se manifestou sobre os equívocos da arbitragem no Campeonato Brasileiro. O dirigente que só reclama do apito quando é prejudicado demonstra que se interessa apenas pela lisura de seus jogos, o que está longe de solucionar os problemas de um campeonato com vinte participantes. A nota oficial do Flamengo, pedindo providências para melhorar o nível das arbitragens após uma rodada em que o time foi beneficiado, é um passo à frente em termos de conduta e um gesto a ser aplaudido.

Tite merece a mesma saudação por sua crítica ao calendário depois da vitória do Corinthians sobre o Joinville, no bem sucedido horário matinal dos domingos. Forçar um time a atuar às 21 horas de quinta-feira e às 11 horas do domingo seguinte, fora de casa, contra um adversário que jogou na noite de quarta-feira e permaneceu em sua cidade é um flagrante prejuízo à balança de forças do campeonato, como se pôde notar no desempenho físico dos jogadores do Joinville no encontro em Itaquera.

É interessante como curiosos em preparação física e fisiologia do esporte insistem em contrariar especialistas nessas áreas no debate sobre a necessidade de recuperar atletas no futebol de hoje. Argumentos constrangedores como “difícil é viver um mês com salário mínimo” e “na NBA os times jogam todas as noites” preenchem a programação de emissoras de rádio e televisão, desinformando a opinião pública e travando o avanço do esporte. Esses “conceitos” alimentam a resistência a propostas atualizadas – como o rodízio de atuações, tema que ainda pauta a discussão sobre o trabalho de Juan Carlos Osorio no São Paulo – e impedem o futebol brasileiro de enxergar a importância de valorizar a qualidade do jogo. Ponto para o técnico do Corinthians por chamar a atenção para um problema que beneficiou seu time na vigésima-quinta rodada, e não o contrário.

Tratar o prejuízo ao adversário como preocupação de todos e não como um motivo para gargalhadas é um sinal de amadurecimento. Um resultado da noção de que a justiça de um campeonato aumenta o mérito daquele que o vence. A indignação, quando não seletiva, levanta os pontos que precisam realmente ser discutidos e transmite a mensagem correta. Já as acusações vazias e a identificação de culpados convenientes mantém a conversa no nível rasteiro que nada resolve.

O futebol precisa ser menos cafajeste, um objetivo que só será atingido quando/se os clubes se unirem em torno do que é deles. E quando a reciclagem da classe dirigente nos apresentar figuras nas quais possamos confiar, e não, quando muito, intérpretes de discursos tão modernizadores quanto dissimulados. Nesse contexto, a recém-criada liga com clubes do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina acessa a primeira parte do problema, o que não é suficiente mas já representa um começo. Os clubes de São Paulo ficarão imóveis?

COMEDIANTE

Algumas declarações do comandante da arbitragem brasileira, Sérgio Corrêa da Silva, sugerem a impressão de ser propositalmente infantis. Corrêa da Silva disse ao jornalista Rodrigo Mattos, do UOL, que “quando o jogador erra o gol também interfere na tabela”. A conversa era sobre erros de árbitros que têm impacto em resultados de jogos. É possível que tal declaração seja séria? É aceitável que alguém que trabalha no futebol não perceba que o objetivo de jogadores é exatamente interferir na tabela, e o objetivo do arbitragem é o contrário? Sérgio Corrêa da Silva já defendeu o erro humano no futebol como necessário à natureza do jogo, o que ameaça a credibilidade do que diz, mas relacionar erros de árbitros a erros de jogadores mais parece uma provocação. Seja como for, ele já não deveria mais ocupar uma posição tão importante .



  • José Henrique

    Essa coluna, trata com muita propriedade a estatura moral das pessoas. André, Tite bem lá atrás, disse, ao ser questionado, que marcaria o pênalti do Uendel contra o S.paulo.
    No entanto essa sua declaração não teve a mesma repercussão que esta do dirigente do Flamengo, embora tenha sido no mesmo sentido. Alias parece quem nem foi notada.
    Acho ótimo quando pessoas de qualquer área, reconhecem seus equívocos, em uma época em que a maioria acha que são donos da única verdade.

  • Matheus Brito

    Caro AK,

    Por partes: Tenho minhas ressalvas quanto a conduta do presidente Flamenguista. Sem clubismos, os benefícios ao seu clubes estavam chegando a uma quantidade que começara a ficar difícil usar o “erro humano” como justificativa. Tomara este seja realmente o seu pensamento. Não acredito pois na final do Carioca em que seu clube venceu o Vasco com um gol irregular no último minuto ele justificou que o juiz errou para os dois lados.

    Quanto ao comediante da arbitragem, digo, comandante da arbitragem, bem não pode ser sério.
    Mas já vi vários jornalistas, por diversas vezes, usando justificativas parecidas. Tipo, “o juiz errou mas se fulano não tivesse perdido aqueles dois gols esse erro não iria interferir no resultado”. Pensamento equivocado, recheado de bairrismo ou até clubismo em alguns momentos.
    Mas uma declaração dessas vir do cara que devia estar preocupado em tirar seus comandados do noticiário fazendo-os melhorar suas performances, beira à provocação.

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