COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

 
REALISMO MÁGICO

Preste atenção na foto, e se prepare porque uma pergunta complexa está a caminho. Pronto? Aí vai: você acredita ser possível, em qualquer contexto, estabelecer uma relação entre o senhor à direita, de gravata avermelhada, e a figura de Tancredo Neves? Não, não se trata de um teste psicotécnico ou de um exemplo dessas respostas inacreditáveis que aparecem em provas de vestibular. É uma pergunta honesta, pois exatamente essa relação foi feita por Walter Feldman, secretário-geral da CBF. Sim, é sério. E acredite: comparar Marco Polo Del Nero a Tancredo NÃO FOI a maior atrocidade cometida por Feldman nesta semana.

Em um evento com empresários e gestores públicos do esporte, em São Paulo, o político convertido em aprendiz de cartola concebeu a seguinte preciosidade: “Como não houve uma disputa (para Del Nero assumir a presidência da CBF), passa a ideia de continuidade e de continuísmo. Mas nós temos uma lógica que eu chamo de anticíclica para mostrar que ele pode ser a grande evolução, como foi o Tancredo Neves”. Respire. Leia de novo. Por mais que você se corroa por dentro, torcendo para que um engano tenha sido cometido nestas linhas, saiba que as aspas estão corretas. E não houve tentativa de reformar a declaração, por intermédio de uma nota oficial com o tradicional “fui mal interpretado”.

Considere que Feldman trabalha para Del Nero, e como deve estar difícil assessorar o presidente da CBF nesta época de denúncias, prisões e CPIs. Vender a ideia de que a confederação está promovendo mudanças profundas no futebol brasileiro não é um objetivo simples e, como se diz em filmes, situações desesperadoras pedem medidas desesperadas. Ainda assim, a engenharia histórica e o transplante de personalidades promovido pelo secretário-geral beiram o insulto à memória de Tancredo Neves e até à capacidade da opinião pública de tolerar o intolerável.

Mas lembre: Feldman, médico por formação, não se intimida diante de causas impossíveis. Em 2011, Gilberto Kassab lhe entregou o dinâmico cargo de Secretário Especial de Articulação de Grandes Eventos na Prefeitura de São Paulo. E o destemido Feldman não se furtou a viver em Londres por alguns meses, para uma imersão em eventos esportivos de primeira linha como o torneio de Wimbledon, a Liga dos Campeões da Uefa e os Jogos Olímpicos. Ele pretende que você acredite que a rotina exaustiva na capital inglesa foi um valioso aprendizado, mesmo que a cidade de São Paulo não o tenha exibido a seus habitantes e que a Olimpíada de 2016 seja realizada no outro extremo da Ponte Aérea. As margens do Tâmisa podem até ter servido de inspiração para a ideia de transformar Del Nero em Tancredo.

No entanto, como você leu acima, houve mais. Provando que não existe tarefa que não esteja a seu alcance, no mesmo evento, Feldman reescreveu a história do Brasil. “(…) não tem processo de ruptura. A transição do Brasil Colônia para o Brasil República foi feita por aqueles que tiveram um papel no período colonial”, declarou. Para quem consegue suprimir dos livros os setenta e quatro anos em que o Brasil foi um reino, e depois um império, desaparecer com a carreira de cartola profissional de Del Nero para apresentá-lo como um agente de mudança é um truque corriqueiro.

Os políticos do esporte brasileiro vivem em um tipo de realismo mágico em que nada é suficientemente ultrajante para ser evitado. O episódio da morte de Tancredo Neves, em 1985, é significativo demais no contexto da transição democrática do Brasil para ser utilizado de forma tão desonesta. É só prestar atenção na foto, olhar para os dois senhores que nela aparecem, e responder: há diferença entre eles?



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