COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

MODELOS

Um interessante cabo de guerra em andamento nos bastidores do São Pauo é um exemplo prático da complexidade dos obstáculos que se colocam diante da modernização do futebol no Brasil. O resultado da “disputa” é menos importante do que a compreensão dos motivos que a alimentam, e sua discussão é primordial para o avanço. De um lado da corda está o presidente Carlos Miguel Aidar; do outro, o empresário Abílio Diniz.

Clubes de futebol são organismos essencialmente políticos. No que diz respeito à maneira como são administrados, estão tão distantes do que se vê no chamado mundo corporativo que as práticas próprias de cada ambiente são conflitantes. No mercado, quem pretende assumir o controle acionário de uma empresa o faz por meio de uma operação financeira. Nos clubes, o poder emana do processo eleitoral caracterizado pelo fisiologismo. O curioso é que esses ambientes tão distintos têm algo em comum: o dono.

Não é necessário explicar a figura do dono no mundo empresarial. Em clubes de futebol, no Brasil, o presidente não é um dono de direito pois o modelo não existe, mas age como proprietário de fato porque o regime lhe dá essa permissão. E com uma vantagem sensível: o presidente de um clube não precisa se preocupar com a saúde da “empresa” que comanda, porque o controle político da situação lhe confere a prerrogativa de operar sem ser fiscalizado. Não é por outro motivo que, apesar de trabalharem com orçamentos milionários, os clubes vivem em dificuldades financeiras e devem bilhões de reais à União.

Em manifestações públicas em seu blog no portal Uol, e em reuniões internas no São Paulo, Abílio Diniz tem expressado sua preocupação com futuro do clube do ponto de vista da viabilidade econômica. Não é uma postura de torcedor desinformado, uma vez que Diniz tem absoluto conhecimento das finanças do São Paulo. Por intermédio da sugestão da contratação do executivo Alexandre Bourgeois, e da experiência acumulada em sua vida profissional, Diniz enxerga um único caminho para a sustentabilidade do clube: a mudança do modelo de gestão, cujos primeiros passos estão delineados no plano de reestruturação formulado por Bourgeois.

A aproximação de um empresário da estatura de Abílio Diniz foi bem recebida em um primeiro momento, pois se acreditava que poderia ajudar o São Paulo na prospecção de “investidores”. Quando ficou evidente que a ideia de Diniz não era ser um fundo de emergência (se ele se dispusesse a pagar a dívida do clube, sozinho, seria canonizado pela torcida e teria seu nome anexado ao Morumbi. Mas faria mal ao São Paulo), passou a ser visto com temor. Aidar tem sido ouvido dizendo que “não podemos deixar o Abílio mandar aqui. O regime é presidencialista, ninguém de fora vai mexer com nossa estrutura de poder”.

Este é exatamente o ponto. No plano de gestão apresentado por Aidar na última sexta-feira, diversos mecanismos de profissionalização manterão intacto o poder do presidente. Na ideia de Abílio Diniz, seria criado um conselho de administração. A estrutura de poder compartilhado, fundamentalmente uma questão de conceito, é um dos aspectos que separam a maneira atual de fazer as coisas de um ambiente de gestão moderna. O cabo de guerra no São Paulo é uma discussão entre práticas antigas e novas que faria bem ao futebol brasileiro se fosse ampliada, já que está evidente que o modelo político de administração precisa ser reciclado.

Está claro, também, que da forma como as coisas estão postas, Aidar deve vencer. Salvo por força de lei, as reformas necessárias para encaminhar um clube ao ambiente corporativo dependem da visão e da grandeza de quem toma decisões. A trajetória do presidente são-paulino desde abril do ano passado indica outro cenário. Paralelamente, ao imaginar que o significado de sua participação no debate será suficiente para alterar o rumo da conversa, Abílio Diniz incorre em um engano de avaliação semelhante ao de quem acredita que a presença de chefes de estado influencia a eleição de sedes olímpicas. Como diz Carlos Nuzman, o COI é um mundo particular.



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