COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

ACÉFALO

Figuras sem cabeça assustam crianças, há séculos, em diversas culturas. Aparições de um cavaleiro decapitado são célebres no folclore britânico, alemão e americano, com diferenças de narrativa na literatura e no cinema, que respeitam o principal: são presenças assombradas, sempre portadoras de más notícias. A criatura folclórica brasileira correspondente é a mula sem cabeça, maldição que acomete as mulheres que seduzem padres. Elas passam a vagar por noites calmas, soltando chamas pelo pescoço e relinchando – sim, mesmo sem cabeça – para atormentar as almas intranquilas. A mula sem cabeça não sabe, mas o futebol brasileiro trabalha com obstinação para lhe tomar o lugar.

A avalanche de problemas dificulta a tarefa de quem pretende ver as coisas em perspectiva, mas o cenário é sombrio. Os últimos três presidentes da CBF vivem com restrições de liberdade: o ex-ex não pode usufruir da fortuna amealhada em mais de duas décadas de poder, ressabiado pelo risco de um passo em falso que resulte em uma abordagem surpresa de autoridades internacionais; o ex não retornou da Europa desde o mês de maio, após a viagem para a Suíça tomar um destino inesperado em termos de hospedagem; e o atual já começa a ficar sem explicações para não se ausentar do território nacional, apesar da importância de compromissos no exterior que justificam o cargo que ocupa. O bônus é uma pós-graduação em lei internacional e relações entre nações.

Enquanto isso, o principal campeonato de futebol do país, organizado e chancelado pela CBF, é assaltado por uma série de arbitragens desastrosas, que lhe ameaça a credibilidade e alimenta uma revolta – seletiva, por enquanto, o que também gera dúvidas sobre suas reais intenções – que saiu das arquibancadas e redes antissociais para chegar aos microfones oficiais de clubes que se sentem sistematicamente prejudicados. Ainda que seja irritante tratar das repercussões danosas de equívocos do apito (este espaço, há muitos anos, é um defensor insistente do uso dos recursos eletrônicos para proteger jogos e campeonatos da influência de arbitragens ruins e/ou desonestas), é cristalino que a diferença de pontos que separa o Corinthians de seus perseguidores é maior do que deveria.

Apesar da necessidade urgente de representação, nem que seja apenas para reconhecer o estado dramático das coisas e conclamar a indústria a se dar as mãos e ajudar, o que emana dos gabinetes que lideram o futebol brasileiro é um terrível silêncio. Sérgio Corrêa da Silva foi flagrado por uma câmera da ESPN Brasil, na quinta-feira, na ex-sede José Maria Marin. A atitude – simbólica, talvez até mesmo apropriada, mas inaceitável – do homem que comanda a arbitragem no Brasil foi fugir. Como se o momento não exigisse uma satisfação a quem é a razão de ser do esporte no qual Corrêa desempenha um papel tão importante. E como se a decisão tomada diante dos últimos eventos, o afastamento de um árbitro e cinco assistentes, fosse o suficiente. Além de inócua, a medida é injusta.

A CBF também se cala, fingindo que o campeonato não é dela, que a comissão de arbitragem não responde a ela, que os prejuízos não lhe dizem respeito. Nenhuma declaração, nenhum posicionamento, nenhuma reação. O folclore brasileiro está sendo reescrito pelo surgimento de uma nova criatura sem cabeça, que não assusta apenas as crianças.

POMPOM

O ridículo e constrangedor papel de cheerleaders de cartolas, um subproduto da rivalidade exacerbada e da relação miserável de tanta gente com o futebol, é alimentado pela ilusão. Alguns incautos se prestam a ele por ilusão gratuita. Outros, os que se julgam espertos, o fazem por ilusão alugada. O amor por uma camisa não pode privar ninguém de senso crítico, ou cegá-lo por vantagens inconfessáveis. Só dessa forma quem torce pode dizer que não compactua com dirigentes que exploram clubes, em vez de administrá-los com seriedade e competência.



  • José Henrique

    Esperava ver no Diego Souza, nos jogadores tecnico do Sport a mesma contundência de reclamações como no jogo do Corinthians. Acontece que, o mantra agora é, para o Corinthians é “favorecimento” e para os outros é casualidade.
    E, se por ventura (para eles) o Timão sair da ponta, o campeonato não estará mais “manchado”.
    Simplesmente uma cusparada passageira.

    • Alisson Sbrana

      O problema também é agravado por nossa causa, nós torcedores que só olhamos para o nosso clube, o que o ajuda ou o que o prejudica. Como somos maioria, a dona CBF vai continuar nos tratando como crianças, dando “porque sim” porque não”. E pobre da mulher do padre.

  • José Henruque

    André. Seria ótimo o uso da tecnologia no futebol, porém é preciso aplicá-la em todas as divisões. Isso é um grande complicador. Como você imagina deva ser?

    • Rodrigo-CPQ

      José Henrique, permita-me discordar. No caso do tênis, a tecnologia que permite o desafio (“olho do falcão”, ou coisa parecida) só existe nos principais torneios e, ainda assim, apenas nas principais quadras desses torneios. Nem por isso é questionada ou deixada de lado. []s

  • RENATO77

    Erros de arbitragem ou premeditação e má fé?
    Depende de quem se beneficia. Uma hora são erros, outra são “esquemas”.
    Outro sofisma usado é o intervalo de tempo com que se analisa tais eventos, os “erros”. No caso do BR15, parece que Deus criou o mundo e em seguida houve o penalti não dado a favor do SPFC, contra o SCCP. Nada mais houve antes daquele momento, a rodada 17. Repito…rodada 17.
    De lá pra cá, lances que dão sentido às teorias conspiratórias são repetidos “ad nauseam”. Os que não se encaixam na tese, são desprezados…como se não tivessem acontecido.
    Mais do mesmo. A temperatura da cobertura da imprensa subindo na razão diretamente proporcional à colocação do SCCP na tabela. Filme velho, de mau gosto. Do gosto dos hipócritas. Do cultivo ao ódio, a nova moda deste país.
    Os clubes que tiveram menos penaltis contra? Avaí e Corinthians…esquece-se do Avai, pois não se encaixa na tese…o outro, repete-se esse fato até que a bába escorra pela boca dos rivais.
    Erros grosseiros no jogo entre P.P. e Cruzeiro, também não entra na grade da mídia. Erros bizarros entre Avai e Inter. Também não deu Ibope. O mesmo aconteceu no jogo entre Figueirense e SPFC, rodada 18. Penalti de mão na bola, bola na mão a favor do SPFC. Não consegui ver o replay, pois pouco ou nada foi discutido naquele lance.

    Temos mania de perseguição. Vitimismo da gambazada.

    Ví a entrevista de L.Culpi dia após o jogo contra o Vasco. Praticamente admitiu que está fazendo o jogo de cena, visando tirar vantagem da pressão sobre os arbitros. Disse que é tão “humano” quanto os jornalistas que o indagavam, que é da natureza humana querer tirar vantagem da situação, que o “lado de lá” faria o mesmo. Admitiu que passou da medida e logo em seguida acusa a organização do BR15 de beneficiar o SCCP por este não jogar no horario das 11 da manhã, com um calor insuportável, mesmo sendo inverno neste hemisfério. Deve haver complô do aquecimento global, sempre a favor “daquele” time. Isso nem foi rebatido pelos ilustres jornalistas, mesmo sabendo que o SCCP peiteia jogar nesse horário devido ao grande público sempre presente nesse novo horário.
    Parei.
    Quem acha que está tudo comprado deveria parar de acompanhar o campeonato, afinal qual a graça de ver algo que já está definido nos bastidores sujos da CBF. Mas não o faz. É preciso desqualificar “aquele” clube. O mesmo que no ranking de títulos deste futebol, a quinta colocação. É preciso massagear o ódio.
    Campeonato “manchado”.
    Até que o CAM passe para a primeira colocação, aí, depois das prováveis “entregadas” de SFC, SPFC, Inter e Gremio tudo terá sido passado no alvejante e o imaculado título irá para as mãos dos mineiros e não “daquele” clube.
    Parabéns à toda a imprensa “especializada”, o segmento que consegue ser mais calhorda do que a classe política deste pais.
    Os que quiserem continuar presos à essa mediocridade e culto ao ódio que se f…
    https://www.youtube.com/watch?v=9V1sbO857qY

    O termo “cristalino” foi mal escolhido, fato raro nesse blogue.
    Abraço.

    • Rodrigo-CPQ

      Perfeita sua colocação. Só pra não fugir do jogo em questão, me lembro claramente de uma imagem aérea, captada pela ESPN Brasil, do pênalti do Evair. Ele vem abraçando o atacante do Corinthians desde antes deste cair. Foi muito, mas muito claro. Não entendo porque isso não é repetido à exaustão. Deve ser porque a Lusa é santa (nunca subornaram goleiro adversário, por exemplo). E assim caminha a humanidade: visão seletiva, memória seletiva e julgamento seletivo. []s

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