NÃO HOUVE, NÃO HÁ, NÃO HAVERÁ



O torcedor são-paulino que passou os últimos dias preocupado com a possibilidade de Alexandre Pato deixar o clube, perdeu seu tempo. Não porque Pato ficou, mas porque não houve nenhuma proposta por ele, de modo que não era necessário sequer pensar no assunto.

O que houve foi uma tentativa, bem sucedida, de desviar a narrativa da cobertura do clube, retirando atenção do que era verdadeiramente importante (a discussão do plano de reestruturação da gestão) para o que não tinha valor algum (a “saída” de Pato).

O ambiente político de clubes de futebol, independentemente do tamanho, é baseado na manutenção e na perspectiva de poder. Este é o contexto que prevalece na tomada de decisões, em todos os níveis e sobre todos os assuntos. Você pode levar Lionel Messi a qualquer clube brasileiro e dizer que o gênio argentino não custará um centavo e permanecerá por três anos, e mesmo assim não o deixarão trocar de roupa antes de uma análise sobre como a novidade influenciará o balanço de forças nos gabinetes.

Por isso, certamente haveria quem dissesse não à oportunidade de ter o melhor jogador do mundo por três temporadas, sem custo. Porque nos movimentos do jogo político que domina mentes, mãos e canetas, nem sempre conta o que é melhor para o clube. Há lugares em que o “nem sempre” pode ser substituído por “quase nunca”.

A falsa expectativa sobre um negócio iminente envolvendo Alexandre Pato serviu àqueles que não pretendem discutir, com a profundidade que o tema merece, as mudanças de governança sugeridas pelo executivo Alexandre Bourgeois. O plano deveria ter sido analisado em uma reunião do Conselho Consultivo do São Paulo, na última sexta-feira, de forma a resultar em um cronograma de medidas práticas.

A reunião protelou o assunto, como se não fosse suficientemente urgente.

E sob o argumento de que tal conselho é formado apenas por ex-presidentes, o empresário Abílio Diniz – que indicou a contratação de Bourgeois e há tempos alerta os conselheiros do São Paulo a respeito da necessidade de mudar a forma como o clube é administrado – não foi convidado para a reunião.

O plano de reestruturação de gestão obviamente altera a forma como o poder é dividido no São Paulo, um cenário que não interessa a muitas figuras que se agarram às suas cotas e/ou pretendem aumentá-las. Em momentos como esse, até adversários que não se falam há décadas formam alianças repentinas contra um “inimigo comum”.

A reação ao envolvimento de Diniz demonstra o mesmo receio, o que é revelador sobre a mentalidade que impera. A aproximação de um empresário desta estatura foi bem vista, inicialmente, como possível solução para os problemas financeiros do São Paulo. Mas quando ficou evidente que a intenção de Diniz é ser uma influência transformadora na maneira como o clube é dirigido, e não um saldador de dívidas, o interesse arrefeceu.

Veja: a experiência administrativa e as ideias de alguém como Abílio Diniz, oferecidas de graça e com a boa vontade que caracteriza um torcedor como ele, não são valorizadas pelo comando do São Paulo. A simples menção ao nome do empresário faz gelar certas espinhas intranquilas, temerosas de que o real objetivo de Diniz seja se tornar presidente do clube.

Como se fosse possível evitar tal realidade, se Abílio Diniz realmente desejasse o posto.

O fato é que essa discussão “não interessa”. Assim, uma história precisava se apoderar da ordem do dia no São Paulo, e, apesar de tudo se resumir a apenas uma sondagem do Olympique de Marselha (descartada quando os franceses informaram quanto estariam dispostos a desembolsar), uma invenção denominada “Pato pode sair até o final da janela europeia” ganhou asas.

Não voou, claro, mas cumpriu seu papel.

Enquanto isso, o clube tem recursos para honrar seus compromissos até, no máximo, o final do mês de setembro. Para o restante do ano, conta com as luvas do contrato de televisão do Campeonato Paulista de 2016, que, de acordo com fontes bem informadas, não chegarão tão cedo.

Mas este cenário tenebroso é tratado com desdém pelas pessoas que deveriam estar empenhadas em não apenas evitá-lo momentaneamente, mas garantir que não voltará a se apresentar. Nos corredores, prefere-se fofocar sobre a mensagem de WhatsApp enviada para o celular de Juan Carlos Osorio, após a derrota para o Ceará. O autor e o teor do recado levaram o técnico colombiano e decidir pedir demissão. Milton Cruz e Ataíde Gil Guerreiro o convenceram a ficar.

A autoria da mensagem é conhecida por todos no departamento de futebol. A caracterização oferecida por Osorio, durante entrevista coletiva naquela noite de quinta-feira, sugere um raciocínio direto que se afasta da verdade. A verdade é surpreendente.



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