COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

MAL ESTAR

Horas após as prisões de maio no hotel Baur Au Lac, Marco Polo Del Nero arrumou as malas e foi para o aeroporto de Zurique. O presidente da CBF lidava com a urgência de voltar para casa, sensação que se sobrepôs às responsabilidades como membro do comitê executivo da Fifa. Del Nero também era movido por um repentino surto de sinceridade, um desejo irresistível de oferecer satisfações públicas em nome da confederação, uma das protagonistas do escândalo revelado pela polícia federal dos Estados Unidos.

Essa caracterização não é uma impressão. Foi o próprio Del Nero – apesar da expressão tensa e do tom pouco convincente – quem explicou o motivo pelo qual retornou ao Brasil, durante uma entrevista coletiva na ex-sede José Maria Marin, no dia 29 de maio: “É um momento difícil para a CBF. Uma vez que nós estivemos envolvidos com um ex-presidente e o atual vice-presidente. Face a (sic) esse momento difícil, resolvi partir da Suíça para o Rio de Janeiro para poder de forma positiva, de forma correta, cumprir e dar as explicações necessárias não só às autoridades, mas à imprensa do Brasil”. Mais adiante, o cartola repetiu sua intenção, de maneira mais elaborada: “Conversei com o presidente da Conmebol e outros dirigentes sobre a necessidade de voltar ao país para comandar as explicações seja onde for. No Ministério da Justiça, na Polícia Federal, na procuradoria, enfim, em todos os setores que necessitarem de explicações, vamos lá. Por isso, estamos presentes”.

Exatos três meses depois, a diferença entre o discurso e a postura de Del Nero é maior, bem maior, do que a distância que separa Zurique do Rio de Janeiro. Os trabalhos da CPI do Futebol chamaram o dirigente (e a CBF) a honrar as declarações que deu, mas, estranhamente, sua conduta indica uma reversão de rumo tão radical que parece que a ideia é voltar ao aeroporto e embarcar em um avião sem destino. Ocorre que, como sabemos, essa possibilidade está fora de questão. A fobia de voar é uma condição séria e assim deve ser tratada.

Del Nero resolveu ir à Justiça contra a decisão da CPI de quebrar seus sigilos bancário e fiscal. Em um país que produz corruptos em maior escala do que jogadores de futebol – a relação é cruel com o futebol nos últimos anos, é verdade -, a abertura de sigilos é uma ocorrência quase banal. É comum vermos pilantras certificados, diante de evidências mais do que suficientes para que se dirijam voluntariamente à delegacia mais próxima, declararem que suas informações estão à disposição das autoridades. O rastro, obviamente, não está documentado. Mas Del Nero, que sustenta nada dever, pretendia que o Supremo Tribunal Federal impedisse a CPI do Futebol de verificar seus dados. Não deu certo. Em decisão divulgada ontem, o Supremo indeferiu o pedido dos advogados do cartola.

A CBF acompanhou a postura de transparência zero de seu presidente. A entidade também quer que o STF não permita que a CPI conheça a distribuição de dinheiro para as federações estaduais, assim como os contratos de direitos de televisão e de exploração da Seleção Brasileira. O surto de sinceridade do comando do futebol brasileiro foi um mal estar passageiro. Ou um “posicionamento” sugerido pelos sábios que habitam os gabinetes e se consideram estrategistas de comunicação. O FBI está próximo, a batalha pela opinião pública está perdida, resta apelar às conexões políticas que transformaram o Brasil no paraíso dos malandros.

À FORÇA

Os cortes de Oscar e Ramires levaram Rafinha Alcântara e Philippe Coutinho à Seleção Brasileira, para os próximos amistosos. O futebol às vezes opera em condições de emergência, mas opera. Uma Seleção sem Coutinho, com as carências flagrantes dos tempos atuais, é uma provocação deliberada ao jogo.

ERA DE OURO

Lionel Messi, Roger Federer, Michael Phelps, Usain Bolt… que época privilegiada para quem gosta de esportes.



  • José Henrique

    Falando sobre transparência, excelente artigo de Mauro Cezar Pereira, sob o titulo “Refugiados”.
    Pela primeira vez (desculpe se outros já leram), li algo contundente sobre os “refugiados” ricos que foram aceitos de braços abertos pela Inglaterra, e que compraram o futebol do país.
    Depois dessa, quem sabe talvez as Tvs parem de comprar os direitos de transmitir jogos de lá.
    Chega de ver mais camisas de times de lá vendidas por aqui, do que dos nossos clubes.

  • Cesar

    caro

    ja viu que o filho do marco polo trabalha na mowa? e a mowa tem como um dos donos o mesmo dono da agencia de viagens, wagner abrahao- e ao mesmo tempo o genro é sócio?

    AK: Isso é público desde 2012.

  • Silva

    Caro André,

    Aguardo sua análise sobre o time do Bayern escalado pelo Guardiola no último sábado.

    Abraços.

    Silva

    AK: Três laterais, três meio-campistas e quatro atacantes. Solução própria de um técnico inventivo, que monta elencos pensando em funções. Um abraço

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