COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

A CEGUEIRA VOLUNTÁRIA

Quando o Bayern de Munique decidiu fazer um cheque de 30 milhões de euros para contratar Douglas Costa, o atacante brasileiro estava a serviço da Seleção, na Copa América do Chile. Os especialistas que não compreenderam a convocação do ex-jogador do Grêmio raciocinaram rápido: marcaram a transferência com o carimbo das negociações intrigantes que costumam envolver atletas brasileiros menos conhecidos, logo após – ou, como vimos, durante – passagens pelo time nacional.

Durante a pré-temporada do Bayern, Pep Guardiola comentou a colaboração que esperava de Douglas, com uma declaração que mencionava sua capacidade de causar danos pelos dois lados do campo. Guardiola – que deve saber uma coisa ou outra sobre futebol ofensivo – também argumentou que as características do brasileiro fariam de seus companheiros de ataque jogadores ainda melhores. Os elogios caíram em certos estômagos como essas bistecas de 600 gramas, brutas para digerir.

Nas ondas matinais de uma emissora de rádio paulistana, as palavras do técnico catalão soaram como um insulto ao orgulho do país pentacampeão do mundo, ainda que a eliminação nos gramados chilenos por obra da potente seleção paraguaia estivesse morna. A voz de um expert em futebol internacional carregou-se de tom jocoso ao perguntar a colegas de estúdio, e ouvintes, se Guardiola se referia a Garrincha ou Pelé. Risos se seguiram em concordância, acompanhados de murmúrios sobre o estado de saúde do futebol brasileiro.

A fase ucraniana da carreira de Douglas Costa não teve exposição semelhante à dos nomes mais comentados de jogadores brasileiros na Europa. Ele disputou cinco temporadas em uma liga escondida, mas jogou em um time que tem sido destino de muitos compatriotas nos anos recentes. O Shakhtar Donestk também é uma presença constante na Liga dos Campeões da Uefa, um torneio que pode ser encontrado na televisão sem muito esforço. Sem dizer que, no mundo que conhecemos hoje, a internet é capaz de nos levar a absolutamente todos os lugares aonde desejamos ir. De modo que, se Douglas não tinha a visibilidade de Neymar, é um flagrante exagero compará-lo ao Pé Grande. Em trinta e oito atuações por competiçõs europeias, ele marcou seis gols.

Pecado mais grave, ao que parece, é desconsiderar um comentário técnico de um treinador como Pep Guardiola. Como se ele tivesse obrigação de satisfazer a curiosidade nacional a respeito do investimento que o Bayern fez. Em duas partidas pelo Campeonato Alemão, Douglas manteve o nível que mostrou na pré-temporada, revelando-se – como Guardiola sugeriu – um perigo nos extremos do gramado e um assistente dos atacantes do Bayern. Os dois gols da vitória de sábado sobre o Hoffenheim foram criados por ele em jogadas pelas pontas, uma pela esquerda e outra pela direita.

Há quem diga, talvez com exagero, que em breve a torcida do Bayern não sentirá a falta de Arjen Robben e Franck Ribéry. Incensar um jogador promissor é tão errado quanto dispensá-lo. A diferença é que aqueles que o elogiam ao menos o veem jogar.

TRATAMENTO

Jogadores como Douglas Costa, bem utilizados em clubes da Europa, desafiam a falácia de que o maior problema da Seleção Brasileira é a falta de talento disponível. Defensores dessa tese jogam o jogo dos dirigentes que permitiram que o símbolo do futebol brasileiro chegasse ao ponto em que se encontra. O que falta é tratar a Seleção como um time, e não como um outdoor ambulante.

“NO ECZISTE”

Outra falácia é que diz que existem jogadores que só têm bom desempenho em clubes, mas não na seleção. Uma fantasia equivalente à crença na existência do lobisomem. Quem acredita nessa diferenciação faz pouca ideia do funcionamento do jogo de futebol, e deve procurar o Padre Quevedo.

FAÇANHA

Juan Carlos Osorio revelou que recebeu uma mensagem de um diretor do São Paulo, após a derrota para o Ceará, que o deixou “muito surpreso”. A gestão são-paulina tem conseguido feitos incríveis.



  • José Henrique

    Uma pena que diversos fatores, que nem cabe aqui elencar, contribuíram para o desencanto do torcedor com a seleção nacional. Hoje, o torcedor, aquele que vive o esporte, tem mais preocupação com o clube que torce, e pouco se importa com a seleção.
    Aquela empolgação com a “amarelinha” e o orgulho patriótico foram praticamente destruídos.
    Como? Tema para análise dos “estudiosos” que vivem do futebol, para descobrirem os causadores desse desencanto.

  • RENATO77

    Sobre Osório não, mas sobre o que escuto os jornalistas dizerem sobre seu trabalho…até porque não acompanho de perto. Sobre conceitos e sobre o que acho que se deve cobrar de um treinador.

    Um treinador tem a obrigação de saber organizar um time, jogando para o ataque ou sendo uma equipe mais defensiva, dependendo do elenco que tenha nas mãos. E claro, dos adversários. Não existe essa de “meu time joga pra frente”. Jogue pra frente se teu elenco tiver a característica que permita isso.
    Treinador bom é aquele que sabe trabalhar com aquilo que tem e tira o melhor do elenco que lhe dão.

    Daqui a pouco um treinador, que adore o jogo aéreo, chega num clube em que o elenco tem baixa estatura e insiste em praticar sua preferência. E o pior, os “especialistas” acharem que ele está certo e que o clube é que contratou o técnico errado.

    Não sei se é o que acontece com Osório, mas tenho a impressão…só a impressão de que, para defender a tese de manutenção de treinador no cargo por mais tempo, os jornalistas estão defendendo o indefensável…uma equipe desequilibrada entre os setores.
    No pouco que tenho visto do SPFC, a questão do rodízio é irrelevante diante do desequilíbrio, da desorganização e de uma defesa tecnicamente ruim que insiste em ficar desprotegida. Claro que o time cria chances, afinal o elenco não é um “lixo” e é obviamente superior individualmente a equipes como a do Goias ou do Ceará. Criar várias chances de gol é pouco, se o adversário também crias tantas outras com um elenco pior.

    Osório que arrume, organize o time com o que tem agora em mãos e, se continuar em 2016 que participe da montagem do elenco para a próxima temporada e aí sim, implantar o modelo de jogo de sua preferência.

    Ainda sobre os ecos do 7×1.
    Ouvi muitos dizerem que Felipão jogou “aberto demais” contra a Alemanha. Também que, quando a derrota era iminente, deveria ter “fechado a casinha” e, quem sabe, arrumar um golzinho em bola parada ou contra ataque…

    Capacidade de adaptação, diversidade de conhecimentos e como/quando aplicá-los são requisitos básicos para qualquer treinador que se diga “de ponta”.

    Os sampaulinos é que sabem do SPFC, mas me parece que poupar o treinador de criticas não é necessariamente uma obrigação.
    Abraço.

  • Ricardo

    Nenhum treinador é maior que a instituição em que trabalha, mas no momento, o SP precisa muito mais de Osorio, do que ele do SP.

  • Bruno Fernandes

    Essa questão do Douglas no Bayern, e a maneira como alguns jornalistas e o público de futebol em geral tratam coisas assim, os torna tão inteligentes quanto o técnico da seleção que desiste de um jogador como Phillipe Coutinho, por algumas más atuações em amistosos inúteis em que o treinador se preocupa mais em ganhar do que em formar um time, e também numa Copa América em que a seleção jogou tão bem a ponto de ser BI-eliminado pelo Paraguai.

    Ontem vimos mais uma pequena amostra do que Coutinho pode entregar a seleção, enquanto que seu treinador já sabemos bem…e o talento segue levando a culpa…triste…

  • Paulo Pinheiro

    André, você não acredita que o peso da responsabilidade de vestir a camisa de uma seleção nacional possa inibir o desempenho de um jogador que brilha por um clube?

    AK: Eu penso que, para crer nisso, é preciso primeiro acreditar que essa é a única diferença entre as duas situações. E isso não é verdade.

MaisRecentes

Invasões bárbaras



Continue Lendo

Flamengo 1 x 1 Independiente



Continue Lendo

Relíquia



Continue Lendo