COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

RASCUNHOS

Do ponto de vista estritamente esportivo, demitir um técnico após dezoito jogos nada mais é do que uma confissão de incompetência generalizada. Todas as maquiagens geralmente expostas por quem tomou a decisão – “fato novo”, “correção de rumo” e especialmente expressões que comprovam a falta de nível da classe dirigente do futebol brasileiro, como “não deu liga” – devem ser tomadas pelo valor que têm: nenhum. Zero.

Aqueles que acreditam ser capazes de avaliar o trabalho (repetindo: o trabalho) de um treinador em um período que não alcançou três meses completos não deveriam estar em posições tão importantes, pois não dominam o processo que deveriam proteger. Se menos de noventa dias são suficientes para concluir que um técnico de futebol não serve, o que dizer sobre quem o procurou, o ouviu, o analisou, ponderou sobre a contratação e a concretizou? Tudo isso em tese, claro, porque não se pode garantir que o equívoco foi cometido com esse grau de diligência.

A decisão da diretoria do Flamengo de dispensar Cristóvão Borges confirmou a sensação de que ele não era a escolha certa para substituir Vanderlei Luxemburgo, que não era a escolha certa para substituir Ney Franco, que não era a escolha certa para substituir Mano Menezes. Mano deixou o clube por conta própria, mas seu sucessor foi demitido de forma desrespeitosa, um erro assumido pelo presidente Eduardo Bandeira de Mello. Quem entendeu como correta a troca de Jayme de Almeida por Ney, em maio do ano passado, hoje contabiliza a terceira mudança de comando desde então. É absolutamente impossível montar um time nessas condições.

O futebol brasileiro trata treinadores como provisórios, o que significa tratar times como rascunhos. É um comportamento infantil, como pegar um caderno com a ideia de fazer um desenho e rasgar as páginas ao menor sinal de descontentamento com os próprios rabiscos. Cada espaço em branco é um novo começo, mas o resultado não será diferente enquanto a criança não aprender a desenhar. Nesse contexto, Oswaldo de Oliveira é a próxima página a ser rasgada. Que chance ele tem?

A história da demissão de Cristóvão fica ainda mais feia quando lembramos do abuso que ele recebeu não só por ser negro, mas por não sofrer em silêncio. Os exemplos de preconceito que inundaram as redes antissociais não carecem de interpretação: são provas de “pensamento” primitivo estimulado pela valentia que se apodera de mentes irrecuperáveis. O problema não é a crítica, é o tom, o ataque, o veneno que ele carrega por levar em conta um aspecto que não faz parte do debate. E ainda há quem não compreenda. Repugnante.

A repercussão, especialmente online, da entrevista (à ESPN Brasil) em que Cristóvão tocou no assunto foi marcada por preciosidaes do tipo “que hipocrisia! O fato de ser negro não pode impedir alguém de ser criticado”. Como se a sinceridade do ex-técnico do Flamengo fosse uma estratégia para ser poupado pela compaixão de quem lhe detesta. Como se as ofensas lhe prestassem um serviço de imagem. Que bom seria se o principal problema de Cristóvão fosse ter perdido o emprego por decisão de quem não compreende seu trabalho.

ESPERANDO A VOLTA

O líder do Campeonato Brasileiro (que não ganha clássicos) perdeu na Vila Belmiro por um placar difícil de recuperar. O lanterna do Campeonato Brasileiro (que não perde clássicos) ganhou do maior rival no Maracanã. E o lanterna do Campeonato Brasileiro da Série B – com um time todo alterado – venceu o São Paulo no Morumbi. Sabemos que o mata-mata tem dessas coisas e que a Copa do Brasil é interessante por isso, mas os jogos de ida das oitavas de final já apresentaram um cartão de visitas que é um convite a continuar acompanhando.

VER E HAVER

Frases entre as quais só há palavra de diferença, mas uma enorme distância: “não há nada de novo no trabalho desse técnico” e “não vi nada de novo no trabalho desse técnico”.



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