COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

JOGAR E GANHAR

Doze pontos separam São Paulo e Goiás na classificação do Campeonato Brasileiro. Há dez times no espaço entre eles, uma prova inescapável da distância de desempenho que os posiciona em setores opostos da tabela. Se as mais de 25 mil pessoas que foram ao Morumbi na noite de sábado ouvissem um paranormal prever que o resultado do jogo seria 3 x 0, jamais imaginariam que fosse a favor do Goiás. Jamais. Nem os torcedores do Goiás.

A explicação para a vitória do time goiano reside na imprevisibilidade do futebol, mas encerrarmos a conversa aqui seria simplista demais. O São Paulo perdeu, e feio, para um time consideravelmente inferior porque, no futebol, existem várias formas de ganhar, mas só uma forma de jogar. O São Paulo quer jogar, porque é assim que seu técnico entende que deve ser, conforme conceitos que fazem todo o sentido, mas que demoram a ser convertidos em um conjunto confiável.

Há poucos times no mundo que se propõem a controlar partidas por intermédio da posse. Tal ideia não se limita a ter a bola por mais tempo do que o adversário, ainda que os percentuais sejam bons indicativos da intenção de uma equipe. A circulação da bola não é uma filosofia, mas uma ferramenta, e como tal, não levará ninguém a lugar algum se não for bem utilizada. O plano é trocar passes para se posicionar em campo, provocar situações de superioridade, induzir o oponente ao erro e criar ocasiões ofensivas. O processo para executá-lo de forma produtiva é longo, e, como o torcedor são-paulino pode atestar, arriscado.

Ainda é um exagero falar sobre “times de posse” no Brasil. Os líderes das medições no Campeonato Brasileiro estão abaixo dos 55% de controle da bola, em média. Um número insuficiente para estabelecer um caráter a ser exibido a cada rodada. Mas o São Paulo rondou os 60% de posse em sete das dezenove partidas do primeiro turno, o que sem dúvida revela uma estratégia. Adiantar linhas e levar o jogo a ser disputado no campo do adversário é uma proposta ousada. Quando bem aplicada, desequilibra encontros pela forma mais bela de domínio técnico que o futebol oferece. Quando falha, gera derrotas constrangedoras como a que o São Paulo sofreu no sábado.

É muito menos complexo preparar um time para se aproveitar dos equívocos de quem tenta jogar mas não é competente, ou ainda não está pronto. São os proponentes da tese de que quem tem a bola comete mais erros e que a disputa favorece a quem erra menos. Usando números da temporada passada na Premier League inglesa, equipes que tiveram mais posse de bola venceram 41% das partidas, um indício favorável ao plano de jogo “oportunista” de quem se considera tecnicamente inferior. E que confirma que tempo de posse não equivale a sucesso.

Jogar é mais difícil do que ganhar. Contra o Goiás, o São Paulo ficou com a bola por 63,3% do tempo e trocou 544 passes, mais do que o dobro do rival (números da Footstats). Perdeu por 3 x 0. Um dia antes, um time europeu teve quase 75% de posse, com 711 passes, quase o triplo do adversário. Perdeu por 4 x 0. Foi o Barcelona.

SORRISO​

Permanece a impressão de que há mais times dispostos a encarar os jogos do Campeonato Brasileiro com uma postura mais aberta, menos preocupada. A vitória do Palmeiras sobre o Flamengo, ontem pela manhã, confirmou a sensação que deu o ar de sua graça há algumas rodadas. Se essa propensão a correr mais riscos é uma herança da Copa do Mundo, só os técnicos podem dizer. O fato, claro, é mais significativo do que as razões. Além de partidas equilibradas e disputadas, o campeonato tem apresentado jogos realmente bons.

O QUE VEM AÍ

Ao final do primeiro turno do BR-15, a diferença do líder para o quarto colocado é de seis pontos. Do terceiro para o sétimo, apenas dois. A proximidade entre os times na classificação, e, mais importante, entre suas capacidades, é um prenúncio de boa disputa na segunda metade do campeonato.



  • Ricardo

    Ontem numa rádio um ouvinte “torcedor” do SP criticou o método de trabalho de Juan Carlos e toda a imprensa, dizendo que estão fazendo dele um revolucionário e que seu trabalho não apresenta nada demais, que essa conversa de jogar bem é balela e o que interessa são os 3 pontos. Enquanto existir pessoas que pensam apenas assim, nossos técnicos continuarão pensando apenas nos 3 pontos seguintes para manter seus empregos, não evoluiremos nada e o futebol brasileiro continuará descendo ladeira abaixo. Os bons jogos das últimas rodadas, e incluo meu SP nisso, têm sido um bom prenúncio, esperançoso, no mínimo.
    Ainda bem que Osorio disse não negociar seus princípios e ideias. Já sou fã de seu trabalho, independente do resultado final, espero que os jogadores também acreditem nele.

    AK: A oferta de ignorância sempre será ilimitada. Um abraço.

    • Carlos Futino

      Concordo com você. O trabalho que o Osorio tem feito é ótimo, e vai dar frutos a médio e longo prazo. Só espero que a torcida e, principalmente, a diretoria tenham a paciência necessária a um trabalho desse tipo.

    • Matheus Brito

      Pior que técnicos que só pensam em 3 pontos e botam o time pra jogar e conseguir esse resultado, são aqueles que só pensam nos 3 pontos e não fazem a mínima ideia de como conseguir isso no futebol atual (CELSO ROTH).
      Estamos passando por um momento onde os técnicos não vão mudar de estilo, o estilo está se impondo, seja pela impaciência da torcida com o jogo feio, seja pelos próprios jogadores que não aguentam mais jogar 90 minutos no campo de defesa, seja pelos constantes vexames de nossa seleção jogando esse futebol de 3 pontos.
      As coisas me parecem que irão mudar na base da auto-imposição, não sei se expliquei bem meu ponto de vista.

  • Michel Soares

    Uma das análises mais sensatas que já li sobre o assunto. Também espero que a torcida e diretoria do SPFC tenham paciência com Osório que já se mostrou um excelente profissional. Já sou fã do seu trabalho no SPFC e torço para que tenha sucesso.

  • Tiago

    Osório é o ponto fora da curva do futebol modorrento desses técnicos retranqueiros que visam só o resultado e não o bom futebol (São Paulo ganhou 3 brasileiros assim). Espero que a torcida, a diretoria e principalmente esses jogadores mimados que tem no elenco do tricolor abracem a ideia de Osório que a longo prazo vamos colher frutos com certeza.

    • Ricardo

      Tiago, acredito que “a curva do futebol modorrento desses técnicos retranqueiros que visam só o resultado e não o bom futebol” é apenas fruto do que nossos dirigentes plantam, a causa raiz está bem mais abaixo. Enquanto o emprego estiver em risco a cada sequencia negativa, o principal objetivo sempre será os 3 pontos seguintes. Como lemos, jogar é mais difícil do que ganhar.

  • José H

    Copiar o Barcelona é a moda agora. Claro que é correto copiar o que tem sucesso.
    Porém, se a qualidade dos jogadores não for pelo menos semelhante, ou próxima de um Iniessa, Messi, e cia, sinto muito, mas isso se resume apenas ao desejo. Comparar o S.paulo ao Barcelona (3×0 , 4×0) pode servir de consolo, mas nunca justificativa.
    O treinador do S.Paulo na minha opinião lembra o Adilson Batista, que também é um treinador que gosta de jogar ofensivamente, mas no Brasil para ter sucesso assim, é preciso combinar com os…..adversários.

    • Ricardo

      Não acho que seja moda copiar o Barcelona, o Bayern de Munique não me parece seguir algum tipo de moda ao treinar um estilo de jogo, muito menos o Grêmio, nem o Atlético, nem o Corinthians do primeiro semestre (elevado ao nível UCL). Acredito ser uma questão de ideias e princípios… Leu essa coluna? http://blogs.lancenet.com.br/andrekfouri/2015/08/16/coluna-dominical-313/

      • José Henrique

        Depois do 7×1, o mantra era “precisamos repensar tudo”. Vamos começar então trazendo um treinador estrangeiro. Trouxeram. Então vamos apoiar não é? Afinal é preciso comprovar que tínhamos razão. Se fracassar, qual será a próxima?
        Por falar nisso, ontem o Trajano disse ficar “angustiado” com o rodízio do Ossorio, e que precisa “se acostumar” com isso. Eu como Corinthiano fico “angustiado” com o técnico do meu time, o Tite, e entendo bem como deve ser a angústia dele em torcer para o S.Paulo. É compreensível.

        • Ricardo

          Cada um tem a angústia que seu nível de ignorância permite. Trajano não precisa se acostumar com nada, ele é jornalista, tem que transmitir notícia e dar opinião quando aplicável. Então, não acho que você realmente entenda a angústia dele.

          • José Henrique

            Entendo sua observação de que Trajano não precisa se acostumar com nada, mas foi o que ele disse. Ou não disse?
            Aliás ele disse também que não entende como um time como o Corinthians com um “futebolzinho murrinho??”, pode estar 4 pontos a frente do Atlético.
            Nesse caso, eu que preciso estar angustiado. Entendeu?

            • Ricardo

              É um futebol eficiente, que vem dando resultado. Ele prefere chamar dessa forma aí…
              O Corinthians fez por merecer estar onde está, mas se encaixa na frase do AK, é mais difícil jogar do que ganhar.

        • Ricardo

          Mas meu comentário e o link foram apenas para exemplificar que não precisamos de Xavis, Iniestas e Mesiss para produzir um jogo bem jogado. Basta treinar com esse propósito. Até o Tite já te mostrou isso.

    • Michel Soares

      Meuuuuuu Deussss. Comparar Adilson com Osório. Desisto.

    • Rogério

      Se vc é a mesma pessoa que o José Henrique…. Meu Deus…. Nunca li um comentário seu que mostrasse que vc entendeu a postagem. A postagem não é sobre copiar o Barcelona, é sobre maneiras de jogar futebol.

      • José Henrique

        “Um dia antes, um time europeu teve quase 75% de posse, com 711 passes, quase o triplo do adversário. Perdeu por 4 x 0. Foi o Barcelona.”

        • Rogério

          Eu sabia que era vc…. Isso tem nome: incapacidade de interpretação. Meeeeeeu Deeeeeeeus.

          • José Henrique

            Não vou conseguir dormir em razão de sua opinião.

          • Juliano

            Rogério, ele pode ler mil vezes e não vai entender. Isso tem nome: analfabeto funcional.
            Fiquemos com o comentário do AK logo acima (seria uma previsão?): “A oferta de ignorância sempre será ilimitada”.

            Engraçado é que, o “sapiente”, mais abaixo eleva sua inteligência como mediana.

            Abraço!

            • José Henrique

              Agradeço a sua posição como moderador do blog do A.K., porém ressalto que ele não pauta seus leitores. E além do mais, meus comentários foram baseados em um trecho do post, e com minha exclusiva e particular opinião.
              Em nenhum instante questionei a excelência da postagem.
              Você se doeu a toa.

            • José Henrique

              Sobre esse elogio a minha pessoa como analfabeto funcional, te envio uma citação de jornalista:
              “A Internet é esse mundo estranho onde os fatos são considerados opiniões, as opiniões são tratadas como fatos e onde todo mundo afirma ser o dono da verdade.” Stephane Giroux, Jornalista.

  • Guilherme Gios

    Em relação aos times e jogos mais abertos, entendo que isso decorre não só da Copa do Mundo, mas muito mais da melhora e na velocidade dos gramados, especialmente nas arenas, que não facilitam o jogo pra quem ficava se defendendo e dando bicões em gramados esburacados.
    Além de que a proximidade da arquibancada no campo, com estádios cheios, cria outro clima pro jogo. Jogos chatos, em que nada acontece, tendem a diminuir. Sempre foi assim na Vila Belmiro, por exemplo, em que o gramado é bom, os times do Santos geralmente ofensivos e a torcida próxima.

    Abraços

  • Kessya

    “O importante não é vencer, mas competir. E com dignidade”. A autoria dessa frase, até hoje, é uma polêmica. Alguns dizem que ela foi proferida pelo Barão de Coubertin, o grande responsável pela volta dos Jogos Olímpicos, em 1896, em Atenas, na Grécia. Outros garantem que a afirmação pertence ao bispo norte-americano Ethelbert Talbot e foi feita pouco antes da Olimpíada de 1908, em Londres.
    Ainda nesta mesma linha de raciocínio, o credo olímpico diz o seguinte: “O mais importante na vida não é o triunfo, mas a luta. O essencial não é ter ganho, mas ter lutado bem”.
    O futebol depois do profissionalismo está muito longe dos ideiais olímpicos, pois diferente da maioria dos esportes nem sempre o melhor vencer, se não vence, ganha títulos, se não titulos, não é um vencedor.
    Para nós amantes de um futebol bonito, com troca de passes, gols espetaculares, dribles desconcertantes e conscientes, o futebol é uma arte.
    Guardiola ganhou tudo com Messi e Cia, hoje o Campeonato Alemão de pontos corridos é o seu forte, mas não pode dizer o mesmo da Copa da Alemanha, da Champions, da Super Copa Alemã.
    Mourinho ainda é idolatrado por ser “vencer ou vencer”.
    No Brasil, temos o Muricy, Tite e vários outros com o mesmo pensamento de Mourinho.
    A seleção de 82 (Zico, Sócrates, Cerezo e Falcão) foi um brilho, mas a campeã foi a Itália. A seleção de 86 ( Elzo, Alemão, Sócrates e Júnior) foi completamente diferente, a qual teve o seu brilho todo em cima do Zico machucado, vide o pênalti por ele perdido, “Não, vai lá, bate lá.”Sócrates para Zico, instantes antes da cobrança do pênalti contra a França.

    Pergunta para o AK:
    Quem deveria bater o pênalti em na copa de 86 contra França?
    Se você fosse treinador, deixaria a profissão por não ter jogador de categoria para jogar bonito ou insistiria até realizar os seus sonhos?

  • José Henrique

    A incapacidade de reconhecer que torcedor torce por vitórias e não por esquemas, ou pessoas é simplesmente incompreensível para uma inteligência mediana, como a minha por exemplo.

    • Ricardo

      É um pouco óbvio que torcemos por vitórias e não por esquemas (em alguns momentos você força a barra), mas é tão óbvio quanto, que (todos, se pudermos) preferimos ganhar o jogo jogando bem, bonito. Ainda mais quando se treina e se busca isso, pois também pode acontecer por acaso, por um dia inspirado da dupla de atacantes ou do meia habilidoso. O que fica claro, principalmente pelo post anterior (referenciado no link acima), é que qualquer time pode fazer isso.

      E se falarmos de futebol como um todo, é gratificante, é bom. Não sei porque você tenta quebrar ou diminuir isso. Isso existe, é fato.

      • Marcelo Santos

        Sem querer ser mediador do blog nem nada, parece-me que alguns comentários procuram distorcer a mensagem do texto para adequá-lo a um clube e uma realidade em particular, enquanto outros analisam em perspectiva, considerando a conjuntura do esporte futebol como um todo.

        • José Henrique

          Concordo integralmente com sua opinião. Interessante os caminhos que levam aos comentários do esporte como um todo, a partir de um post sobre São Paulo e Goiás, e Ossório.

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