COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

FATO VELHO

A classe dirigente do futebol brasileiro não tem salvação. A demissão de Diego Aguirre a três dias do Gre-Nal 407 é mais uma evidência da incapacidade administrativa que há gerações assola os clubes, baseada, entre outras crenças, na profecia autorrealizável do prazo de validade de trabalhos. Técnicos são contratados já como fatalidades potenciais da “cultura do nosso futebol”, e dela se tornam marionetes, porque – nas sábias palavras do Capitão Nascimento, na cena final de “Tropa de Elite 2” – o sistema entrega a mão para salvar o braço.

O Internacional devolveu ao mercado o técnico que o levou às semifinais da Copa Libertadores, em síntese porque o presidente do clube entende que o time pode jogar mais e Aguirre não tem capacidade de recuperá-lo. Vitório Píffero imagina conhecer o potencial dos jogadores do Inter com mais profundidade do que o técnico que os comandava, e acha que os torcedores do clube – aqueles que possuem senso crítico e opiniões próprias, não as pobres cheerleaders de cartolas – não notaram a coleção de contradições apresentadas como explicações para a demissão.

Foi o mesmo Píffero quem disse que o resultado alcançado na Libertadores o surpreendeu, pois Aguirre, o plano E do clube, tinha sido contratado no final de dezembro do ano passado e “não se faz um time de uma hora para outra”. Só quem compra o profissionalismo selvagem vendido pela cartolagem é capaz de crer que, em tão pouco tempo, Aguirre se converteu de criador em vítima da própria criatura. Para piorar, as iscas de consumo rápido têm menos eficiência, pois não há como apelar à perda do suporte dos jogadores por causa de “problemas de vestiário”. As principais figuras do Inter revelaram apoio ao técnico uruguaio, até com críticas abertas à mudança no comando, como as feitas pelo zagueiro Juan.

O fato é que a Libertadores maquiava a rotina de problemas financeiros e estruturais instalada em quase todos os clubes do país, outro indício de previsão que se autorrealiza. Inicia-se a temporada com compromissos que não podem ser honrados, à espera do capanga armado e impaciente, portador do aviso de que o prazo acabou. É quando o sistema se mutila para seguir no controle. Na conversa em que foi comunicado que o time não era mais dele, Aguirre deve ter se sentido como o personagem de Michael Douglas em “The Game” (filmaço de 1997, dirigido por David Fincher), ao invadir o escritório moderno em que esteve no início da trama e descobrir que o local era, de fato, um refeitório mal conservado.

Pense em uma liga de clubes composta pelos dirigentes que aí estão. Um movimento estimulado pelo instinto de sobrevivência, como um conchavo de bastidores cujo único objetivo é a manutenção das respectivas áreas de influência. As mesmas ideias e práticas, envolvidas por uma embalagem diferente, para simular o avanço que só será possível no dia em que outros tipos de interesses determinarem o caminho. Você consegue acreditar em uma classe dirigente simbolizada pelos três últimos presidentes da CBF?

FLUXO

“Fato novo no Brasil é que um técnico tenha continuidade”, disse Diego Aguirre, em avaliação precisa do que se passa por aqui. É incrível que seja verdade, dadas as conhecidas experiências bem sucedidas que se verificaram quando dirigentes desafiaram a profecia.

JORNADA DUPLA

O “futebol de quarta e domingo” – expressão repetida por quem julga saber mais sobre fisiologia e preparação física do que os especialistas nessas áreas – tomará conta do Campeonato Brasileiro nas próximas semanas. A competição dificilmente sustentará o bom momento técnico e de público das últimas rodadas, porque o bolso de quem vai ao estádio e o organismo de quem joga não suportarão a exigência. As semanas com dois jogos também prometem reorganizar a classificação do campeonato, como um teste de esforço que reprova os candidatos menos preparados.



  • Klaus

    Aplicar um vírus num doente, esperando que ele comece a ter mais disposição – no futebol brasileiro a coisa é assim: o meio começa de trás para frente.
    Demitir um técnico apenas pelo efeito de gerar um novo estímulo aos jogadores é tão estúpido quanto amador. É uma ótima metáfora da incapacidade gerencial em nível profissional dos “dirigentes” (péssimos em baliza) brasileiros. Deprimente.

    “Cheerleaders de cartolas” foi sensacional!
    Um abraço!

  • Klaus

    A propósito, Feliz Dia dos Pais!!

  • José Henrique

    A Libertadores, aqui no Brasil, só teve a sua importância aumentada enquanto o Corinthians não havia vencido a competição. Só para exemplificar, além de todas as barbaridades que a competição revelava, escanteios protegidos por escudos de policiais, sinalizadores, gás de pimenta, e outros horrores, remunera os clubes bem abaixo de uma final de videogame.
    Interessante observarmos no estádio do Palmeiras, 12 mil pessoas nesse evento, enquanto o glorioso e famoso mundialmente Santos de Pelé, mal chega a uma média de 8.000 pessoas.

MaisRecentes

Dilema



Continue Lendo

No banco



Continue Lendo

É do Carille



Continue Lendo