COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

ORGANISMOS

Pouco antes de marcar um dos gols mais bonitos da rodada, Lucas Lima atacou o espaço oferecido pelo lado esquerdo da defesa do Flamengo e foi derrubado a um passo da grande área. Foi um desses lances que acionam o alarme interno de todos nós que gostamos de futebol, aprisionando a atenção e fazendo soar expressões de espanto. Não é sempre que vemos um jogador operar tão acima da capacidade de acompanhamento de seus rivais.

Uma falta – que custou um bem aplicado cartão amarelo a Wallace – interrompeu a evolução do meia santista, e a cobrança que ele mesmo fez terminou nas mãos de Paulo Victor. O instante de brilho individual teria sido a única ocasião de interferência de Lucas Lima no jogo do Maracanã, se minutos mais tarde sua talentosa perna esquerda não tivesse endereçado a bola ao ângulo direito do gol do Flamengo (alguém certamente argumentará que foi Lucas quem bateu o escanteio para o gol de Ricardo Oliveira, uma jogada em que nada teve papel mais importante do que a falha defensiva rubro-negra).

Lucas Lima faz parte da classe de jogadores que nos estimulam a esperar o melhor. A exigência é proporcional à qualidade, o que quase sempre os deixa em dívida: queremos deles sempre mais, como se o impacto de um jogador em uma partida de futebol dependesse apenas da própria atuação e de conceitos subjetivos como disposição ou esforço. É evidente que o Santos seria um time mais perigoso se Lucas Lima criasse uma oportunidade de gol a cada vez que tocasse na bola. A questão é que essa é uma hipótese irreal e apresentar a ele a cobrança para ser “mais participativo” – algo que todo jogador talentoso ouve quando o time não atua bem – é tentar resolver o problema da maneira errada.

Um dos maiores defeitos do futebol brasileiro é a crença no individualismo. Espera-se que os mais dotados resolvam jogos e campeonatos, uma ideia que dispensa a capacidade do adversário e ignora que este jogo foi feito para ser desenvolvido coletivamente. Quando a profecia não se realiza, joga-se a culpa no colo dos que receberam a incumbência de nos brindar com magia, como se tivessem negado o próprio destino. A visão do jogador brasileiro como o guardião do drible e do improviso gera uma expectativa que não é compatível com a natureza do jogo.

O brilho individual sempre será decisivo no futebol, mas só quando for acionado em condições de representar a diferença. Simplesmente entregar às habilidades de um jogador superior a missão de levar seu time à vitória é a quimera dos que enxergam o futebol de forma unidimensional. Equipes bem sucedidas são aquelas que vencem como resultado do jogo que geram, o que é muito mais trabalhoso do que proteger a própria área e torcer por um momento de felicidade ou sorte. Os melhores jogadores de times que praticam futebol coletivo não brilham porque são os melhores, mas porque jogam em bons times.

TIMES

A conversa sempre chegará ao tempo de formação dos times, no suporte aos técnicos, na manutenção de bases temporada após temporada. Levir Culpi está correto quando diz que “não existe nenhum bom time no Brasil atualmente”. O técnico do Atlético Mineiro se refere exatamente ao futebol coletivo que não se alcança sem o amadurecimento das equipes. O time dele lidera o Campeonato Brasileiro justamente por ser um trabalho um pouco mais longo do que os demais.

QUESTÕES

A estreia de Ronaldinho Gaúcho no Fluminense foi positiva por ter jogado a partida inteira e por ter colaborado, mesmo sem o protagonismo do qual é capaz. O sucesso da contratação dependerá de como o Fluminense se comportará com dois jogadores que não participam ativamente da fase defensiva e das condições de Ronaldinho para superar marcações competentes.



  • José Henrique

    Lucas Lima, se estivesse hoje, no meio de campo em um dos times nas primeiras posições da tabela seria quase uma certeza de título. Joga muito.

  • Fabio Hideki

    “não existe nenhum bom time no Brasil atualmente”.
    Nos últimos 10 campeonatos brasileiros, quantos times eram bons ? Ou pelo menos tinham uma proposta de jogo definida ?

    AK: O São Paulo tricampeão, o Corinthians 11/12 e o Cruzeiro bicampeão. Um abraço.

    • Fabio Hideki

      Isso mesmo, menos de 10 times, no meio de 200(10 anos x 20 times)

    • Danilo

      Além do Internacional campeão da Libertadores em 2006 André.

  • Fabio Hideki

    As vezes penso em uma ideia um pouco absurda. Usar a temporada atual para montar um time para o próximo ano.
    No mínimo teria uma proposta bem definida e entrosamento, com uma “pré-temporada” de um ano.
    O que seria quase impossível seria não ceder à pressão da torcida e da imprensa .

    • RENATO77

      A regra para rebaixamento nos moldes do que é na Argentina, a média dos 3 últimos anos, ajudaria os clubes a terem mais “coragem” para inovar.
      Do jeito que é hoje, o clube que bobear, briga pra não cair. Tivemos exemplos recentes de clubes com boa colocação num ano, ficarem nas ultimas posições no ano seguinte.
      Abraço.

    • Marcelo

      Para que fazer isso? É só abandonar o inútil campeonato estadual e fazer uma pré temporada decente igual qualquer time europeu!

      Aliás, o Atlético paranaense faz isso há anos. Não a toa sempre ocupa bons lugares na classificação do brasileiro mesmo com um time sem estrelas, com muitos jovens e pouco investimento.

      • RENATO77

        O AT/PR é um bom exemplo sim. O único clube que ousa inovar no planejamento, é verdade. Suas contas também são exemplo para os demais, quase sem dividas. Mas no ultimo ou penultimo estadual, brigou pra não cair, ou estou enganado?
        Abraço.

  • Juliano

    Excelente, AK.

    Ver o que Lucas Lima vem jogando me leva à uma inevitável comparação: chegou ao Santos junto com Leandro Damião, com investimentos muito distintos e o que cada jogador entregou/entrega ao clube é ainda mais distinto. Cobrar um empregador mal pagador é justo, mas como demitir um funcionário por justa causa (incompetência) nesse mundo do futebol?

    Nunca acreditei no Damião e estava certo. Tinha dúvidas quanto a Lucas Lima e me enganei. A última frase do texto é definitiva e, apesar disso, que Lucas Lima continue crescendo. Em breve jogará na Europa em um bom time, coisa que PHG nunca conseguirá – não torço contra, mas já não acredito.

    Se a diretoria anterior errou ao gastar os tubos com um jogador que entregou nada em campo e colocou o clube na justiça, a diretoria atual acertou nos moldes de contrato de Ricardo Oliveira, que vem entregando à altura o que dele se espera, mesmo aos 35 anos. Hoje entrega mais que outros camisas 9 mais badalados no campeonato nacional.

    Um elenco com Lucas Lima, Geuvânio, Gabriel e R Oliveira não era pra estar flertando tanto tempo com o rebaixamento. A qualidade dianteira é compensada pela falta dela nas figuras de David Braz e Werley. Não deve ser fácil ser goleiro nesse time.

    Abraço!

  • João Henrique Levada

    Fico curioso, ou perplexo, quando vejo alguns comentaristas, e alguns ex-jogadores, dizendo que temos de recuperar a nossa identidade, pra reencontrar o caminho das vitórias.

    Imagino que estejam falando de vitórias consistentes. Equipes fortes que joguem e convençam, mesmo quando não encontram a vitória no placar.

    O que me preocupa, entretanto, é supor o que se passa na cabeça de quem profere tal tipo de comentário.

    Estariam ainda presos ao tempo do futebol resolvido na base da individualidade?

  • Bruno Barbosa

    André,

    Usarei um trecho do seu texto para expor uma ideia minha.

    “Os melhores jogadores de times que praticam futebol coletivo não brilham porque são os melhores, mas porque jogam em bons times”.

    Esta sua análise faz muito sentido naqueles momentos em que um time contrata um jogador diferenciado (São Paulo contratando PH Ganso, por exemplo), com base no ótimo futebol que este jogador apresentou em um time içado à glória simplesmente pelo ótimo coletivo, como o bom Santos de 2010, que tinha Neymar, Arouca, André, Wesley, Robinho e o próprio Ganso, e depois reclama porque o atleta não é mais o mesmo “diferenciado” de antes. Acho que as pessoas esquecem que, como você escreveu, é errado colocar nas costas de um jogador de nível mais elevado a responsabilidade por um título ou até mesmo uma vitória. Esse pensamento iria, como você bem lembrou, de encontro à natureza do futebol, um esporte praticado coletivamente.

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