COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

MASTERCHEF

Futebol e culinária podem ter muito em comum. Se pensarmos em técnicos como chefs de cozinha e jogadores como ingredientes, equipes são pratos de diferentes concepções, complexidades e, claro, sabores. O custo é parte da equação, mas não a mais importante, pois a análise sempre sofrerá o impacto de gostos pessoais e da compreensão – o que depende de conhecimento, não apenas de resultado – da intenção por trás do que se oferece ao consumo público.

Consideremos os melhores times do mundo. São exemplos de alta gastronomia, restaurantes estrelados comandados por chefs de renome internacional, responsáveis por cozinhas autorais. Entre eles, o creme do creme, aqueles onde só há mesas disponíveis para o ano seguinte, são os que não servem apenas comida, mas encantamento. No futebol, são os raros times que não se contentam em vencer. Aqueles que valorizam identidade de jogo, um conjunto de conceitos que permite detectar o trabalho do técnico e a forma como ele pretende conduzir seu time às vitórias. Equipes de futebol que marcam épocas e alimentam a alma.

Neste cenário, o futebol brasileiro é a terra do fast-food. Treinadores que trabalham no mercado nacional são sobreviventes condicionados a enxergar apenas a rodada seguinte. Constantemente pressionados a apresentar resultados o quanto antes, eles se veem obrigados a montar times pela via que demanda menos tempo. É como o Big Mac – o mais “resultadista” dos sanduíches – que viaja da cozinha ao balcão em trinta segundos e sacia a fome em pouco mais do que isso. Solidez defensiva, transição em velocidade e eficiência no ataque compõem a receita básica dos chefs da prancheta. Times de cozinha rápida se tornam competitivos antes daqueles que pretendem praticar “futebol autoral”. A manutenção de empregos e ambientes se impõe com crueldade.

De vez em quando surge um prato diferente. Um saboroso kebab, idealizado por um chef criativo e resultado de uma inteligente combinação de ingredientes. Tem bom valor nutricional e não provoca arrependimentos. Uma refeição que não pretende gerar suspiros, mesmo porque está enquadrada na mesma categoria (satisfação imediata) de outros cardápios menos cotados. Mas faz o suficiente para obter avaliações positivas de público e crítica, pois se mostra em um estágio levemente superior ao que se encontra em outras mesas ou balcões. No atual Campeonato Brasileiro, por enquanto, é o Atlético Mineiro.

Levir Culpi montou um legítimo representante do que o holandês Louis Van Gaal chama de “futebol reativo”, um time concebido para ser implacável na capitalização de erros do adversário. A vitória sobre o São Paulo, na quarta-feira, foi uma aula gratuita dessa estratégia de punir a vontade do oponente de vencer o jogo. Frieza e execução, plano facilitado pelos problemas frequentes em equipes que querem jogar com elaboração, mas ainda não estão maduras. O Mineirão viu uma valiosa demonstração do que faz o sucesso do fast-food em nossos gramados.

De novo, o valor do prato não é o ponto principal. Pois comida cara, de fato, é comida ruim. Aquele cachorro-quente de cinco reais que causa dores abdominais por dias pode terminar se revelando mais caro do que um obsceno risoto de camarão que também permanecerá na memória, mas causará nostalgia. Se quisermos um futebol que faça mais do que matar a fome, devemos deixar nossos melhores chefs trabalharem em paz.

CONFECÇÃO

Juan Carlos Osorio caminha no sentido contrário da preferência por comida rápida. O São Paulo que ele planeja tenta ser uma equipe mais trabalhada, motivo pelo qual, hoje, é irregular e vulnerável. Seria mais fácil começar de trás para frente e jogar para não sofrer gols, mas isso faria do São Paulo mais um time como os outros. A noção de que o problema atual está na defesa é um equívoco.

PACIÊNCIA

Para pensar: Vágner Love é um bom jogador do ponto de vista técnico? Parece claro que sim. Há algum motivo (idade, declínio físico ou lesões sérias) para duvidar de que, uma vez recuperado o ritmo que perdeu no futebol chinês, Love jogará em alto nível? Não. É só lembrar do que houve com Elias, criticado no ano passado como se tivesse esquecido de jogar futebol.



  • Excelente, Chef André! Da montagem ao sabor, passando pela harmonização com Mais Gelo, o prato tem essência cítrica que remete à adolescência futebolística do nosso país, mas flerta com o agridoce pela inclusão de notas da sapiência européia, especialmente ingredientes característicos da região da Catalunha.

    Mais uma especialidade da cozinha kfouriana “Plus de Glace” – evidente trocadilho com “classe”.

    Merci!

    Um abraçô.

  • José Henrique

    Fico imaginando se o Corinthians tivesse contratado 40 jogadores numa temporada, e perdesse em casa para o Atlético Paranaense, perante 39 mil torcedores, como seria esta semana para Vagner Love, e para os programas esportivos.

  • Carlos Futino

    O “problema” de Juan Carlos Osorio no São Paulo é o costume brasileiro de se esperar resultado imediato em tudo. O técnico colombiano está montando um time com concepções corretas, mas esse time não vai estar funcionando do jeito que ele quer até o final do ano. Supondo que o desmanche não seja grande, ano que vem o Tricolor estará brigando por alguma coisa de verdade. Esse ano, temos mais é que comemorar se a vaga na Libertadores vier…

  • Marcel de Souza

    Faz tempo que não comento, mas hoje faço questão! Que belo texto! Me lembrou o saudoso (?) “Mais Gelo”! Não perco esperança que um dia você resolva agrupar todos esses textos bacanas num livro. Abraço, boa semana!!

  • Teobaldo

    Walter teria comido “o sonho” do Palmeiras em permanecer no G-4?

  • Bom dia.
    Com certeza um texto brilhante na comparação entre culinária e futebol. A questão do “fast food” foi muito boa.
    E quanto ao Vágner Love, não poderia ser mais acertado. Ele só precisa de tempo e preparação adequada. Fez muitos gols por Palmeiras e Flamengo, tenho certeza que não desaprendeu. Tem força, chuta bem e sabe tocar a bola quando tem companheiro em posição de marcar o gol.
    Mas o imediatismo e talvez o “clubismo” vem ocasionando críticas descabidas.
    Tenho certeza que fará muitos gols pelo Timão.
    Abraço.
    Att.

  • João

    Faltou o trocadilho de prato com Pratto 🙂

  • José Henrique

    A “comparação entre culinária e futebol”, considerando que o fato da rodada foi o Walter, foi de uma sutileza brilhante.

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