COLUNA DA TERÇA



(Publicada ontem, no Lance!)

INSTAGRAM

Aaron Davidson pode ser considerado peixe pequeno no escândalo de corrupção na FIFA. O executivo americano de 44 anos, presidente da Traffic Sports USA, foi o primeiro indiciado no episódio – após as prisões em Zurique – a se entregar às autoridades americanas. Davidson depositou fiança de 5 milhões de dólares no final de maio, valor garantido pelo apartamento onde vive em Miami, além de bens em nome de seus pais na Flórida e no Texas.

A rotina atual do executivo habituado a constantes viagens em jatos particulares está restrita ao endereço onde mora, do qual só pode sair com autorização prévia do FBI, para suas obrigações com a lei, consultas médicas e atividades religiosas. Davidson não pode nem mesmo frequentar a academia de ginástica de seu condomínio se a tornozeleira eletrônica que monitora sua localização não funcionar no local.

Pessoas como Aaron Davidson – e como o brasileiro José Hawilla, posicionado bem acima do americano na cadeia alimentar – estão de um lado do esquema de pagamento de propina que assegurou direitos de exploração e transmissão de eventos esportivos por décadas. Do outro lado aparecem os dirigentes que agiam como catracas remuneradas para selecionar os acessos e os privilégios. Se para cada ato de corrupção é preciso haver corruptores e corrompidos, neste caso os papeis estão bem definidos e evidentes.

Os valores impressionam, especialmente entre os que traficaram influência apoderando-se de algo que não lhes pertence. Os abnegados cartolas do futebol mundial, esses benfeitores que por gerações abdicaram da vida familiar e dos próprios negócios em nome do desenvolvimento do esporte, foram forçados pela polícia federal dos Estados Unidos a revelar um estilo de vida que faz inveja a herdeiros que jamais trabalharam e passam o tempo exibindo-se no Instagram.

Tomemos o caso de Jeffrey Webb, presidente da CONCACAF e vice-presidente da FIFA até ser banido de suas posições por causa do escândalo. O cartola das Ilhas Cayman foi o primeiro, e até o momento, o único, dos sete presos no Baur Au Lac a concordar em ser extraditado para os Estados Unidos. Em uma corte nova-iorquina, anteontem, Webb pagou fiança de 10 milhões de dólares para ter o direito de aguardar o processo em prisão domiciliar. Seu “pacote de soltura” consiste em dez imóveis em seu nome e de familiares, três carros, jóias e relógios de alto valor.

Além de entregar seu passaporte às autoridades, Webb foi obrigado a vestir as tornozeleiras da realidade e está proibido de residir a mais de vinte milhas de distância de uma corte no Brooklyn, em Nova York. Ele não pode manter qualquer tipo de contato com uma relação de pessoas investigadas no caso, enquanto aguarda sua próxima aparição diante do juiz, em agosto. Repentinamente, o Instagram perdeu a graça e os resorts caribenhos à beira-mar parecem distantes.

O mesmo vale para a estonteante coleção de arte de um conhecido político do esporte brasileiro, que por enquanto prefere sua cela nos arredores de Zurique a um voo escoltado aos Estados Unidos, onde a vida sob as regras da Justiça seria um pouco mais confortável, mas certamente mais humilhante.

RAÇA?

Quando deixaremos de analisar atuações com base na quantidade de “vontade” demonstrada por uma equipe ou um jogador? Passa pela cabeça de alguém que um profissional do futebol não queira vencer, que opte pelo resultado que não lhe interessa? Ao nos concentrarmos no esforço aparente, supervalorizamos uma demonstração e ignoramos os aspectos verdadeiramente importantes. Além de criarmos “modelos de desempenho” baseados em premissas erradas. Quem reclama de falta de vontade não pode reclamar de falta de futebol.

HIERARQUIA

Nielson Nogueira Dias trabalhou como quarto-árbitro na merecida vitória do Sport sobre o São Paulo. Pouco depois da expulsão de Juan Carlos Osorio, Dias se esquivou para evitar ser tocado pelo técnico colombiano, que tentava lhe dizer algo. Um gesto antipático ao extremo, típico de quem se considera superior. Dias é capitão da Polícia Militar de Pernambuco.



  • João Henrique Levada

    Lembra quando o Roger Flores bateu o pênalti pra longe do gol, visando prejudicar o Passarela?

    Por minha cabeça passa sim, casos onde o jogador esteja buscando o resultado que não lhe interessa.

    Estava aqui pensando, se pode existir bom futebol, sem que haja empenho?

    Boa vontade, sem futebol (sem qualidade técnica) entendo que é perfeitamente possível. Estou tentando imaginar se o contrário pode ser verdadeiro.

    Talvez uma saída custosa, mas absolutamente necessária, seja treinar um time pra que jogue bem, naturalmente.

    Como um músico que já não se esforça pra dominar o instrumento que toca.

    AK: Eu me refiro à impressão de quem um jogador não se esforça, tomada como verdade. É uma conclusão baseada em aparência. Um abraço.

  • Erivelto

    André, na verdade, gosto muito de seu pai. Da grande história dele. Quando ele diz jocosamente que você é uma prova da evolução da espécie, acerta mesmo. Parabéns ao pai e ao filho! A seguir uma observação minha sobre o que escreve.
    Algumas genialidades assim foram constatadas apenas depois de algumas décadas. Outras, depois de séculos: Van Ghog, Beethoven, Einstein, Machado de Assis…
    Apesar do talento de Federer e Messi ser evidente, palpável, é emocionante ler textos que conseguem trazer o gênio pra fora das quatro linhas.
    O que André Kfouri também consegue com Messi e seu gol antológico, contra o Bayern de Munique, pela Liga dos Campeões em 2015.
    Não é necessário gostar de futebol para se deleitar com o texto. Melhor até que não goste.
    A poesia da descrição do obra é tamanha, que basta o comentário de um leitor: “Não vi o lance ainda. Nem sei se quero ver.”

    AK: Muito obrigado. Um abraço.

    • Klaus

      Irretocável, Erivelto! Concordo plenamente!
      Só não faço minhas as suas palavras porque seria plágio.

      Um abraço!

      • Fernando Itirapuã/SP

        Irretocável mesmo Klaus. Incrível!

  • José Henrique

    “Valores que impressionam” . Na verdade é difícil explicar até onde vai a ganância dessas pessoas. Já bem sucedidas, com padrão de vida elevado, com recursos para se aposentarem, e continuam numa busca frenética pelo vil metal, e nesse mister usando todos os meios ilícitos possíveis. Olhando uma figura dessas, da pra desanimar de tudo. A espécie humana involui.

  • José Henrique

    Realmente não passa pela cabeça de ninguém que jogador não queira vencer. Só tem valor aquele que dá carrinho, “rala a bunda no chão” , muitas vezes só jogando pra torcida.
    Hoje em dia, com a evolução física dos jogadores, e a consequente diminuição dos espaços com a velocidade imprimida, aquele jogador mais técnico ou cerebral, tem que aceitar que do outro lado, está alguém que sabe da própria inferioridade técnica, e tem a humildade, em reconhecendo isso, de se armar para igualar as oportunidades.
    Não gosto nem um pouco de ouvir certos comentaristas criticando a voluntariedade de um time de futebol, e que ignoram a humildade que tem em reconhecer a sua inferioridade frente a uma equipe superior.
    Normalmente exaltam aquela equipe pequena que se defende e consegue um bom resultado ante uma equipe grande, mas não toleram quando uma equipe grande reconhece que é inferior a outra e se fecha defensivamente na busca de um resultado.
    Essa falta de humildade em reconhecer que o outro é superior, e se posicionar de modo soberbo adredemente, explica o trágico 7 a 1.
    Vi ontem muitas críticas ao Corinthians pelo desempenho frente ao Galo, certamente esses críticos queriam que o Timão, fosse com tudo para cima de um time, que Tite é qualquer analfabeto funcional sabe que é melhor que o seu.
    Pois é. Queriam um 7×1 de novo.? Ainda bem que Tite e o Corinthians sabem disso é os críticos não.

  • Helio Yawata

    Olá André,

    Em relação ao quarto-árbitro, coincidentemente estava comentando com meus amigos essa cena.
    A pose que ele fez ao não permitir que o técnico Osorio chegasse perto para conversar, deixou-me bem incomodado.
    E não foi uma vez só não, foram duas ou três vezes.

    Por outro lado, ele permitiu que o Milton Cruz o tocasse no ombro enquanto conversavam.

    Muito triste a cena.

  • raphael

    André, Boa Tarde!

    Quanto a cena do “não me toque”, reflete a nova e ridícula orientação dos árbitros não tolerarem reclamações e o cidadão que já se acha superior, com a nova medida, virou um DEUS SUPREMO, triste.

  • lm_rj

    Andre o inter acaba de sair da libertadores e todos do tigres estão de parabéns.
    Deixaram ótima impressão o jogo de hoje foi taticamente perfeito. Time frio, maduro, toque de bola excelente, exemplo de jogo coletivo. Resumo : time muito bem treinado.
    Aí eu chego onde queria Qdo comecei esta mensagem: Este técnico brasileiro do tigres Tuca Ferreti já está consagrado na minha opinião. Esse cara precisa ser entrevistado pelos nossos jornalistas da mídia brasileira.
    E quem sabe vir treinar um de nossos times o quanto antes.
    Precisamos de técnicos de competência e coragem como demonstra ter o sr Tuca Ferreti.
    Abs e parabéns pelo blog.

  • lm_rj

    Andre, Agora com a confirmação do retorno do meia Cicero, fora as já confirmadas contratações de Ronaldinho e Osvaldo, podemos afirmar que o Tricolor carioca foi o clube que melhor aproveitou a janela de contratações internacionais, que se encerrou ontem? Abrs e parabens pelo blog

  • José Henrique

    A transmissão dessa taça neurose, Libertadores a Copa do Brasil, ficam sob suspeita pra sempre.
    A primeira uma competição dirigida, onde dois clubes do mesmo país são impedidos de prosseguir na disputa, onde um clube que é derrotado na final por um clube mexicano, se garante no mundial de clubes ( caso que pode ocorrer nessa edição ) e a segunda, onde um clube eliminado vai para uma série B sul-americana, não deveriam nunca mais serem comprados por Tvs brasileiras.
    Estou torcendo muito mesmo para o Tigres levantar essa taça,(se deixarem) agora feliz mesmo ficaria se, o Corinthians, meu time, se classificasse para a próxima, e recusasse a participação.
    Seria a desclassificação dessa porcaria.
    Além do mais, nossas Tvs, estão conseguindo o inimaginável, fazer os torcedores comprarem mais camisas do Barcelona do que dos clubes do nosso país.
    Não se diga que o futebol brasileiro é medíocre, e isso justifica essa aberração, pois os estádios estão com públicos excelentes, apesar da grave crise econômica que passa o país.

  • Fernandu Itirapuã/SP

    Mágico e preciso com as palavras e os fatos reais! Parabéns! Que privilégio ler André! Fera demais.

  • Paulo Pinheiro

    Afinal alguém falou isso. Concordo em gênero, número e grau: esforço, na realidade, é premissa, e não qualidade.
    Lembro de um comentário sobre um jogo do Flamengo (infelizmente não lembro o comentarista): “Esse jogador até que é esforçado, mas eu conheço um monte de caras esforçados que não jogam no Flamengo”.

  • Marcelo Caruso

    Para mim esse campeonato brasileiro não tem um time que jogue um futebol digno dos tempos áureos, digo isso por conteúdo de partidas assistidas no decorrer da competição, esse futebol fraco, medíocre, sem emoção nenhuma. Tanto que temos hoje raras partidas que podemos dizer que o jogo valeu a pena. Hoje esse futebol retranqueiro, jogadores que passam a bola do meio de campo do adversário, chega na cabeça de área e consegue voltar ate o seu goleiro sem chutar ao gol, ou passam a bola sempre pro lado. Treino um time de garotos de 8 a 14 anos, procuro selecionar talentos, garotos bom de drible e que tem visão de jogo, tenho no time assim, jogo com 2 zagueiros e um volante, os laterais sempre liberados para jogar pra frente, 2 meias de talento com 3 atacantes um pela direita e outro pela esquerda, e um centrado, aviso sempre a eles que quando a bola passar do meio campo adversário ela tem que ser chutada ao gol. Por isso nos resta a dar ênfase e emoção, esse e o futebol medíocre que se vê aqui no Brasil, pois talentos não interessam, muito menos espetáculos, o povo gosta de ser enganado, podemos ver vide saúde, educação, segurança, etc. O povo se contenta apenas com vitória do seu time, seja como for ate de WO serve, só quero que meu time vença”, com certeza aí está o produto do pensamento de nossos torcedores e organizadores desse futebol que as entidades futebolísticas fazem. Por isso que pra mim não existe uma competição que começou, com espetáculos, jogos emocionantes, jogadores que levantam a massa e dão prazer de ver jogar, esse é o campeonato de uma competição que esta em andamento, esse é o campeonato que pra mim nem começou,” pois não tenho visto jogos dignos do futebol brasileiro, hora tempos atrás praticado, que volte grandes jogadores que fazem um verdadeiro espetáculo. POBRE BRASILEIRÃO, mas o que precisa de um esclarecimento ainda mais urgente é o Campeonato Brasileiro de futebol, nosso “melhor” produto. Sim um produto que a muito tempo esta sumido de nossos campos de futebol que tínhamos verdadeiros craques. Esse é o esquema de futebol que temos hoje aqui no Brasil, quando o craque aparece, manda logo para fora, pois o que importa é faturar alto, tanto dirigentes quantos empresários, por isso estamos na UTI. O futebol brasileiro tem que mudar, com esses técnicos retranqueiros não vai melhorar nunca, tem que se resgatar o futebol arte, faço uma aposta me de um time qualquer pra treinar que verão como se deve jogar um time de futebol, abraços.

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