COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

NEGLIGENTE

Sérgio Rangel, repórter da Folha de S. Paulo, revelou ontem à tarde que Marco Polo Del Nero não irá à reunião extraordinária da FIFA, na segunda-feira, em Zurique. A decisão do presidente da CBF já foi informada aos dirigentes da entidade envolvida em um escândalo de corrupção, graças ao trabalho da polícia federal dos Estados Unidos.

Del Nero explicou à FIFA que assuntos domésticos exigem sua presença no Brasil: a CPI do Futebol, cujo foco é exatamente a CBF, e a Medida Provisória que trata do financiamento das dívidas dos clubes com a União. Prova de que os tempos realmente mudaram. O hotel Baur Au Lac, refúgio da cartolagem internacional do futebol na cidade suíça, subitamente deixou de ser um destino sedutor para se transformar em local a ser evitado. Como se o imponente cinco estrelas, com vista para o lago e para os Alpes, fosse um albergue caracterizado pelo mau cheiro.

Os motivos alegados por Del Nero para ficar no Brasil não inspiram credibilidade. Ao contrário, deveriam estimulá-lo a entrar no avião e se manter distante, de preferência oferecendo um passeio pela Europa a cartolas nacionais cujo apoio ele preza. É praticamente uma tradição para presidentes da CBF sacar o passaporte e viajar para longe de assuntos desagradáveis, como são a CPI e a MP. Os chiantis e os risotos servidos pelos restaurantes próximos ao hotel sempre foram companhias fiéis dos donos do futebol.

Del Nero não vai a Zurique assim como não foi ao Chile para ver a Copa América. O cargo de presidente da CBF é tão dinâmico que elimina da agenda de quem o ocupa essas atividades esdrúxulas, como participar de decisões sobre o futuro do futebol e acompanhar a seleção nacional em uma competição oficial. A FIFA definirá como se dará a substituição de Joseph Blatter sem a presença de um representante do futebol brasileiro, o mesmo que abandonou a Seleção durante a infeliz passagem pelos estádios chilenos. Em níveis distintos, os dois últimos mandatários da CBF vivem com restrição de liberdade, mas a entidade deseja que você acredite que está se modernizando.

Lembre-se de que Del Nero deixou o último congresso da FIFA, no final de maio, logo após as prisões no Baur Au Lac. Avisou que o escândalo o obrigava a retornar ao Brasil para dar explicações. Quando o fez, negou textualmente que é um dos co-conspiradores numerados que aparecem no documento do Departamento de Justiça dos EUA, como receptores de suborno. Ao não viajar para o exterior para cumprir suas óbvias obrigações, o presidente da CBF se comporta tal e qual um fugitivo, e justifica as desconfianças que o acompanham. Somente uma sociedade que perdeu a capacidade de se indignar tolera tal nível de cinismo.

Além do comportamento contraditório e suspeito, que não se ignore a lamentável falta de solidariedade demonstrada por Marco Polo Del Nero. Em Zurique, entre reuniões e compras, ele certamente encontraria tempo para visitar José Maria Marin na prisão.

VOZ

A Coca-Cola solicitou à FIFA que forme uma comissão independente para liderar o processo de reforma da entidade. A empresa de refrigerantes, que patrocina a Copa do Mundo desde 1974, fez a mais clara intervenção desde que a corrupção na FIFA foi exposta. Já os patrocinadores da CBF permanecem em silêncio.

POESIA

Dizem que só os deuses têm direito a escolher como morrerão. Em dezesseis de julho, aniversário da conquista do Uruguai no Maracanã, Alcides Ghiggia fez sua escolha. Um ataque cardíaco enquanto via um jogo de futebol pela televisão, e Ghiggia se foi. O último sobrevivente do “Maracanazo” morreu no dia em que o nascimento de sua lenda completou sessenta e cinco anos. A estes episódios que desafiam a lógica costumamos dar o nome de coincidências. Mas evidentemente estamos equivocados.



  • Ricardo Riso

    Dois grandes acertos na sua crônica: “Somente uma sociedade que perdeu a capacidade de se indignar tolera tal nível de cinismo.”; e sobre o encantamento de Ghighia no dia 16 de julho traz componentes épicos a sua trajetória entre nós.

  • Matheus Brito

    Del Nero tomou umas aulas com o Maluf. Ele não sai do Brasil tão cedo. Vai ver agora ele arruma tempo para conhecer as praias do Nordeste, visitar Gramado, Campos do Jordão, enfim, conhecer o país ao qual estará preso sem previsão de soltura.

  • Seu parágrafo sobre o Ghiggia foi fantástico, poético, etc.
    Sempre boa leitura, parabéns André.

  • Anna

    O doce Ghiggia foi no dia do Maracanazzo. Tb adorei o parágrafo. Ironia do Destino. Grde abraço, Anna.

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