COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

YODA

Solicitação de licença para tratar de tênis, por algumas linhas, aqui. O que Roger Federer está fazendo nestes dias em Wimbledon é algo tão extraordinário que suplanta a dinâmica competitiva do esporte. É provável que alguém que jamais gostou de tênis tenha se enfeitiçado por esse jogo apenas por ter, sem intenção, se deparado com o suíço em ação na televisão, em sua campanha até mais uma final em Londres.

Federer não tem apenas vencido seus oponentes sem lhes dar chances. Não. A frase nem se aproxima de sugerir o nível de dominação, a forma como os controla sem exibir qualquer evidência de esforço ou desgaste. Uma coisa é dizer que há atletas que nos fazem crer que o esporte que praticam é fácil. Outra é testemunhar um mestre de seu ofício, um artista que nos apresenta uma casta elevada do jogo que julgamos conhecer. Federer é fluente em um idioma tão complicado que são poucos os que conseguem dialogar com ele.

Há tenistas que vencem de forma impiedosa e nos provocam a estranha sensação de torcer para que o jogo termine o quanto antes. Sentimos compaixão por quem é obrigado a absorver a punição diante das pessoas e das câmeras. Quase sempre é uma questão de diferenças técnicas ou de força bruta. O resultado é a mais pura ausência de competição. Federer criou uma terceira experiência: ele leciona. Estimula o adversário a oferecer seu melhor, questiona-o com golpes cada vez mais rigorosos, exige que se supere em um aprendizado, por repetição, de que há patamares acima. E termina por dispensá-lo, quando fica evidente que o diálogo se tornou impossível.

A compreensão do que aconteceu talvez seja difícil para seus oponentes, logo ao final do jogo. Com o passar do tempo, a impressão de que jogaram mal se converte em outra leitura, bem mais otimista: é a convicção de que saíram da quadra melhores do que quando entraram, mais bem informados a respeito de quem são. Todos os tenistas de elite são capazes de vencer jogos entre si, em qualquer semana do ano. Roger Federer é o único que os convence de que há coisas que eles não sabem. Perder para Federer é uma derrota apenas do ponto de vista factual.

O que é notável é o fato de este Federer – há tempos não mais um assassino serial na quadra, mas não menos admirável na pele de um Yoda das raquetes – estar às portas dos 34 anos, com quatro filhos para ver crescer e obrigado a lidar com todos os obstáculos que a idade impõe, até mesmo para os mais cuidadosos e privilegiados. Ele tem se provado um mestre, também, na arte de se conservar em um estado em que suas habilidades estão preservadas e à disposição com menos frequência, mas com o mesmo impacto. A possibilidade de estarmos diante de seu declínio deu lugar a exibições imperdíveis não pelo risco de se tornarem raras, mas justamente pela regularidade de sua grandeza.

É provável que a última oportunidade para levantar um troféu cobiçado tenha chegado. A sabedoria do tênis de Federer pode não ser suficiente para derrotar Novak Djokovic, este sim um vencedor insaciável dos dias atuais. Mas nada tem tanto significado quanto as lições de reinvenção oferecidas por um gênio do esporte.

LEMBRANÇA

Ninguém em sã consciência comemora um acontecimento infeliz. O que merece celebração é o que nos traz boas sensações. Saudar o 7 x 1 é prova de ignorância e mau gosto. Esquecê-lo ou fingir que não aconteceu é fazer o jogo dos responsáveis por ele, pela inexistência da Seleção Brasileira como time e pelos dramas estruturais do futebol no Brasil. O 7 x 1 deveria ter sido o marco zero de uma época caracterizada por práticas responsáveis de gestão, concepções avançadas de jogo e, por óbvio, novas pessoas. Um ano depois, a CBF prossegue com a arrogância das cinco estrelas e com a simulação de trabalho. Compreender um vexame é o único caminho para evitá-lo e, com o tempo, condená-lo definitivamente ao passado. Ignorá-lo ou diminui-lo são garantias de que ele permanecerá entre nós. Os defeitos que conduziram ao 7 x 1 são incrivelmente atuais.



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