COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

SUBTRAÇÃO

Time A: Bravo, Isla, Medel, Francisco Silva e Beausejour; Marcelo Díaz, Aránguiz, Vidal e Valdivia; Vargas e Alexis Sánchez.

Time B: Jefferson, Daniel Alves, Thiago Silva, Miranda e Filipe Luís; Fernandinho, Elias, Willian e Fred; Neymar e Roberto Firmino.

O time A é a seleção chilena, da forma que iniciou a final da Copa América, contra a Argentina. O time B é a escalação do Brasil para enfrentar a Colômbia, a última partida em que teve Neymar, seu único jogador inquestionável. O time A é o atual campeão do continente. O time B foi eliminado pelo Paraguai, quarto colocado. Pergunta: quais jogadores do time A teriam lugar no time B?

Vidal e Sánchez são os únicos nomes que não gerariam discussão. Alguém poderia dizer que prefere Bravo a Jefferson, uma escolha mais relacionada a gosto do que a distâncias técnicas. Valdivia fez uma Copa América elogiável, sem dúvida, mas daí a inseri-lo na Seleção Brasileira é um evidente exagero.

De modo que estamos falando sobre exemplos situados em extremos opostos no espectro do que deve se esperar de um time de futebol. O Chile de Jorge Sampaoli é maior do que a soma de suas peças, enquanto o Brasil de Dunga consegue se subtrair. O mesmo raciocínio vale para a Argentina de Tata Martino, incomparável em potencial individual porém dominada pelos anfitriões, muito mais organizados, na decisão.

Não se pode desconsiderar a diferença de idade entre os trabalhos de cada técnico: Sampaoli comanda o Chile desde dezembro de 2012, mais do que o dobro do período de Dunga (e Martino) em sua posição atual. Mas convém lembrar que a seleção chilena esteve a um palmo de eliminar o Brasil na Copa do Mundo, um ano atrás, um resultado que teria sido absolutamente justo e reflexo do que se viu no Mineirão na tarde em que o travessão e Julio César adiaram o desastre. À época, o Chile já era um produto coletivo superior.

O ponto aqui passa longe da miopia que separa o bom e o ruim com base apenas no resultado. Porque o Chile poderia ter perdido o título não fossem algumas decisões da arbitragem, um erro de finalização de Higuaín no final do tempo normal da decisão ou um desempenho tão fraco dos argentinos nas penalidades. Mesmo sem o troféu, os anfitriões teriam deixado uma impressão, em jogo, muito mais agradável e promissora do que o Brasil.

A indigência coletiva da Seleção Brasileira não encontra explicação na geração hoje disponível, nas dificuldades para reunir e moldar uma equipe formada por “estrangeiros”, ou nos apagões e viroses que adicionam infâmia ao que já é suficientemente indigno. O drama está no atrasado futebol dos míopes acima mencionado, que guia os caminhos do time que “tem de vencer sempre”. Não haveria problema algum em deixar de ganhar a Copa América (o que não falta na história da Seleção são títulos…) se fosse possível notar a concepção de uma equipe.

Nenhum conselho de notáveis será capaz de salvar a Seleção Brasileira se as pessoas e as ideias permanecerem as mesmas.

SUMIÇO

Não havia delegados da CONMEBOL em número suficiente para distribuir a premiação após a disputa do terceiro lugar da Copa América, entre Peru e Paraguai. Um dirigente da UEFA teve de fazer as honras. Joseph Blatter, um viajante sorridente, não foi ao Canadá entregar a taça da Copa do Mundo feminina. Empresas aéreas e de aluguel de jatinhos culpam o FBI pelo desaparecimento de cartolas.

CARPETE VELHO

Um dos vícios do futebol brasileiro é o gramado ruim. Efeito colateral da busca dos clubes por receita extra, decisão que transporta times para o final da fila de prioridades. Seja por causa de um show, uma festa ou um jogo para torcedores privilegiados, quando o campo de futebol sofre, ninguém pode reclamar de técnicos e jogadores. Agora até o Morumbi, tradicionalmente um gramado de bom nível, chama a atenção pelo mau estado.



  • Ricardo

    Caro André

    OFF-TOPIC – se me permite

    Com sua inteligência e capacidade, gostaria que oportunamente escrevesse sobre o momento da S.E.P.

    Arena, Executivo de Futebol, Treinador, elenco, torcida. E PN.

    Abraço

  • Fabio Hideki

    É isso que penso quando alguém fala que não existem mais brasileiros sendo protagonistas dos grandes clubes europeus. Que essa geração não é boa. Mad quantos países podem juntar jogadores melhores que o Brasil ?

  • Luiz

    André,

    Só uma dúvida: por quê as escalações dos dois time que iniciam a coluna tem apenas 10 jogadores cada?
    Não que isso altere a ideia central do texto (com a qual concordo)…

  • Matheus Brito

    Jornal “MARCA”: Sua ideia de futebol é realizável com craques ou só com “soldados”?

    JS: Não importa a qualidade do jogador. Precisamos do convencimento dos jogadores. Se não, é impossível. Devo persuadi-los. No Chile conseguimos uma entrega total de todos ao coletivo: dobrar o tempo de treinamento, muitas reuniões… Ser protagonista do jogo requer muita explicação.

    Marca: O quanto você pensou em como se defender de Messi?

    JS:A marcação tinha que ser feita no setor por onde ele entrava. Nós nos defendemos por zona. Dependia se ele vinha pela direita ou pela esquerda. A ideia era interceptá-lo antes que conduzisse a bola. Levou vantagem uma vez e quase marcou o gol aos 45 minutos do segundo tempo. Messi não permite que você cometa um só erro. Estou muito contente por tê-lo enfrentado sem jogadores especialistas na defesa, colocando volantes como zagueiros e com muita inteligência.

    Olha como isso é lindo de ler: “Estou muito contente por tê-lo enfrentado sem jogadores especialistas na defesa, colocando volantes como zagueiros e com muita inteligência.”

    Isso eu vi o Guardiola fazer diversas vezes, vi o Bielsa algumas vezes. O que ele perde em termos defensivos compensa em agilidade e saída de bola. Todo mundo critica o fato de a defesa Chilena ser baixa, mas quantos gols de cabeça eles levaram nos últimos três anos? Será que não dá pra ver que existe algo novo por aí? há algo de especial acontecendo no futebol e nós não estamos participando. O Brasil não está participando das mudanças no esporte em que nós dominamos o mundo por décadas.

    A resposta pra sua pergunta é simples: poucos nomes. Eu incluiria aí o Aranguiz, que é um volantaço pra lá de moderno. Mas sem propor o jogo, sem ideias novas, somente esperando o talento que quase não existe mais, defina as partidas, vamos ficar cada vez mais atrás. Podemos vencer em 2018? podemos sim, mas se isso acontecer fará tão mal ao futebol mundial quanto a Itália fez em 82.

    • Marcelinho

      Perfeito, Matheus.

      E isso já é feito há muito tempo lá fora. O calendário é horrível, os clubes estão falidos, não se preocupam com a base, etc.. tudo isso nós já sabemos e esperamos melhorias e mudanças.

      Mas um ponto crítico do nosso futebol são exatamente essa “falta de visão” dos técnicos aqui. Insistem que o zagueiro tem que ser alto e não saber jogar com o pé, o volante tem que ser um cão de guarda que não acerta um passe, e os meias podem passar o jogo todo dormindo no meio campo.

      Isso mudou em todo o resto do mundo menos aqui.

      Sou corintiano e te pergunto, o que faria Guardiola e Sampaoli com o Ralf? Um jogador que marca extraordinariamente e não acerta um passe, não pode atuar no meio campo. E com Renato Augusto? Por que não usá-lo mais recuado, já que tem um bom passe. Uma espécie de segundo volante, ao invés de meia. E poderia citar inúmeros exemplos..

      Nosso futebol está muito mal das pernas. Os problemas administrativos e a CBF todos nós sabemos.

      Mas a falta de qualidade dos treinadores aqui é para mim tão fundamental para a crise quanto todos esses outros problemas..

      Abraços

      • Matheus Brito

        Jogadores como o Ralph estão fadados a desaparecer. Ou aprende a passar ou vai ficar sem emprego. Isso pode ser treinado. Aposto minha casa como nos treinamentos dificilmente o Ralph treina passes. Com certeza como sabem que o forte dele é marcação treinam apenas a composição, antecipação, roubada de bola e assim que tomar a bola toque de lado pro meia.

  • ailton

    Se falam tanto em treinador da seleção brasileira, qual seria os requisitos para se treinar a seleção?
    Após a seleção de 82, qual foi a que jogou um futebol bonito?
    Se falam muito em Tite e Muricy, só que nenhum dos dois jogam bonito

  • Matheus Brito

    Excelente entrevista do Daniel Alves. Notoriamente ele sabe de coisas sobre a vontade do Guardiola de trabalhar com a Seleção Brasileira que poucos sabem.
    Achei apenas que ele deu uma derrapada quando disse que o Dunga melhorou seus conceitos de 2010 pra cá. Sinceramente, não vi nada de novo, ou de melhor até o momento.
    Claro que existem várias visões para um mesmo assunto, mas quando ele diz que esses jogadores da seleção ganham tudo em seus clubes, há de se levar em consideração o protagonismo deles nessas conquistas. Nunca deixamos de produzir bons jogadores, mas infelizmente deixamos de produzir protagonistas, pelo menos em boa quantidade.
    No mais, concordo com ele que os jogadores chegam na seleção e levam um choque de conceitos. Ficamos para trás e muito. Nossos melhores treinadores não tem chance alguma nos grandes centro da Europa. Não são sequer cogitados nos times pequenos desses centros.
    Recusamos Guardiola, possivelmente de graça em caso de fracasso. Nunca esquecerei disso.

    PS: ele deu uma forçada de barra legal ao colocar o Stegen entre os três melhores jogadores do mundo hein? kkkk

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