COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

SOCORRO AO JOGO

O fato de um drible de Neymar gerar mais indignação do que uma cafajestagem de Gonzalo Jara revela o suficiente sobre certa maneira de ver futebol. Ou de não ver. Critica-se – no caso da tentativa de carretilha do astro brasileiro em um jogo entre Barcelona e Athletic Bilbao – uma “demonstração de falta de respeito” com o adversário como se fosse um crime, justifica-se o uso de violência para “punir um firuleiro”, mas louva-se – no caso da mão boba de Jara contra Cavani, em Chile x Uruguai, seguida de vergonhosa simulação de agressão – “a esperteza” do chileno, que levou à expulsão de um importante jogador rival.

Afastadas as análises antropológicas do assédio sofrido por Cavani, e suas repercussões no universo machista do futebol, tenta-se concluir que humilhar um oponente com uma exibição de requinte técnico é ruim para o jogo. Mas fazer o mesmo com a combinação de um dedo na bunda e ludíbrio ao árbitro é uma estratégia elogiável do ponto de vista competitivo. Tudo por causa da existência de códigos de conduta em campo que são aplicados conforme o olhar e as convicções – se é que esse é um termo preciso – de cada um. Em resumo: aceita-se tudo em nome da vitória, menos um drible espetacular. Que miséria.

Vivemos em uma era em que os raros times que se dedicam à forma mais difícil de jogar futebol – manutenção da posse, superioridade técnica, jogo posicional e ataque elaborado – terminam por ser responsabilizados por tudo o que acontece no gramado. Como se os caminhos de um jogo de futebol dependessem apenas de quem demonstra iniciativa, ou como se fosse simples derrubar sistemas de marcação semelhantes a fortalezas em volta da grande área. Aqueles que tentam e não têm sucesso são criticados por “falta de objetividade”. Os que não tentam, não jogam, não se envergonham e conquistam um zero a zero são aplaudidos por “atuar de acordo com suas possibilidades”. Em nenhum outro esporte é tão fácil se fazer de vítima.

O mais triste em relação à manobra traiçoeira de Jara é que ela manchou uma atuação estupenda do Chile. Seu time encaixotou os uruguaios no campo de defesa desde o primeiro minuto, aproximou-se da inacreditável marca de 80% de posse de bola, teve em Valdivia um – surpreendente – gestor de jogo com clareza e decisões corretas, e caminhava para furar o bloqueio de um conjunto de especialistas defensivos. Uma vitória chilena alcançada sem trapaça seria mais uma prova de que equipes que se negam a jogar, de fato, pedem para perder. Mas Jara presenteou os resultadistas com um argumento valioso, pois nem mesmo um time que fica com a bola por apenas 20% do tempo merece ser derrotado por um embuste.

Chile x Uruguai foi um encontro de exemplos. De ataque, de defensivismo e de como os destinos de um jogo não podem ficar nas mãos de apenas uma pessoa. Há muito superados pela dinâmica do futebol, os olhos do árbitro são facilmente enganados por quem não se importa em vencer sem escrúpulos. O jogo não pode continuar tão desprotegido.

INVASÃO

Sérgio Corrêa da Silva, comandante da arbitragem brasileira, divulgou problemas pessoais como possíveis explicações para as atuações equivocadas de Sandro Meira Ricci. Um absurdo e uma covardia. Se o presidente da Comissão de Arbitragem entende que um árbitro não está em condições de fazer seu trabalho, seja qual for o motivo, que não o escale enquanto não se convencer do contrário. Desrespeitar a privacidade de uma pessoa de forma a tentar justificar seu desempenho é inaceitável. Mesmo porque, como o próprio Corrêa da Silva deixou claro, ele não tinha autorização de Sandro Meira Ricci para tocar no assunto.

TELONA

Inevitável: o escândalo na FIFA vai virar filme, com produção de Ben Affleck e Matt Damon e ênfase na vida de Chuck Blazer, o excêntrico cartola americano que trabalhou para o FBI. Certamente fará mais sucesso do que o filme encomendado por Joseph Blatter.



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