COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

VIDAL PASSOU A SE SENTIR TOTAL

Arturo Vidal estava ao lado de sua Ferrari recém-destruída, descontrolado pela realização do que tinha acontecido e pela implicação imediata do acidente em uma rodovia de acesso a Santiago: a estrela da Juventus e do Chile não conseguiria retornar à concentração de sua seleção no prazo estabelecido. O sargento Osvaldo Pezoa Collao, de 41 anos, notou o hálito característico de quem consumiu álcool e explicou a Vidal que teria de prendê-lo.

“Vocês são uns vendidos”, disse Vidal, logo após proferir uma expressão (“pacos culiaos”) usada para ofender policiais. “Sou Arturo Vidal, o jogador da seleção chilena”, continuou, antes de desferir um soco na altura do peito do sargento, que imediatamente solicitou ajuda pelo rádio. Vidal foi levado ao hospital para ser examinado e depois à delegacia onde permaneceu até a tarde do dia seguinte.

Os detalhes da interação entre um dos mais populares jogadores de futebol do Chile e os policiais que atenderam à ocorrência que ele provocou constam do relatório das autoridades, divulgado ontem por meios de comunicação do país. São informações que conferem outro contexto ao episódio, mesmo levando em conta a frase que teve maior destaque desde a última terça-feira: “Pode me prender, mas você vai cagar com todo o Chile”.

As reações de Vidal expuseram os conceitos invertidos que fazem parte do cotidiano dos famosos, reflexos diretos do que se chama de “cultura da celebridade”. Há quem pense que o mundo e as outras pessoas existem para escolher uma de apenas duas possibilidades: reverenciá-los ou deixá-los em paz. O problema é que esse tipo de personalidade também pretende determinar quando é a hora da reverência e a hora da privacidade. É precisamente neste momento que a realidade lhes apresenta um conflito com o qual não sabem lidar.

É cristalino que o sargento que prendeu Vidal estaria, de fato, “cagando com todo o Chile”, se o deixasse ir, em troca de uma camisa assinada e um par de ingressos para o próximo jogo da seleção. Mas este é um raciocínio aparentemente inatingível para alguém que, ao saber que seria detido por dirigir embriagado, acha que é uma boa ideia agredir o policial prestes a conduzi-lo à delegacia. Quando um ídolo e um cidadão que descumpre a lei são a mesma pessoa, a esperança do restante da sociedade é que os encarregados de aplicá-la saibam fazer a distinção. Além agir exemplarmente no local do acidente, os policiais chilenos não deixaram de relatar no boletim de ocorrência o comportamento que deve complicar a situação de Arturo Vidal na Justiça.

O que certamente não os impedirá de celebrar gols de Vidal nesta Copa América. Nesse caso, a mesma distinção entre ídolo e cidadão deve ser feita, só que no sentido oposto. Mas um pensamento irônico deve ter atravessado a mente do sargento Collao durante a tarde de quarta-feira passada, quando Vidal chorou diante das câmeras de televisão, pediu desculpas e disse que só poderia se redimir conquistando o título do torneio.

DEBATE

Jorge Sampaoli se viu em situação tão ou mais desconfortável que o sargento Collao. Para o técnico da seleção chilena, anfitriã da Copa América, a distinção é ainda mais difícil. Diante da decisão sobre o que fazer em relação a Vidal, Sampaoli entendeu que não havia motivo para cortá-lo de seu grupo. O episódio provoca um debate no país. É certo que as atitudes do jogador no momento da prisão não o ajudam nem entre os que são favoráveis à manutenção dele no time.

MARCO

Corajosa e necessária atitude da diretoria do Flamengo, manifestando-se publicamente, de forma oficial, sobre o projeto de lei da Responsabilidade Fiscal do Esporte. A posição do clube, a favor da manutenção das contrapartidas sem as quais a gestão dos clubes de futebol do Brasil permanecerá como está, é um marco na discussão sobre a recuperação do futebol no país.



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