RECAÍDA



Todos nós já vimos casos assim, em livros e filmes.

A maioria de nós já acompanhou, de perto ou de longe, o sofrimento de parentes e amigos.

Alguns de nós já sentiram na própria pele o que é ser um dependente.

É uma longa história de fraqueza, erros, arrependimentos e lágrimas, em que a esperança se encontra ao final de um caminho de sacrifícios.

É preciso ter coragem para trilhá-lo, mas antes de tudo é necessário ser humilde.

O primeiro passo para a recuperação é reconhecer a própria impotência diante de uma força irresistível. O segundo é aceitar ajuda. O terceiro é compreender que este é um pacto para a vida inteira, em que a queda está à espreita dos que se acreditam no controle da situação.

A Seleção Brasileira, como um alcoólatra que ainda não entendeu que precisa de tratamento, teve uma recaída ontem, em Santiago.

O período de sobriedade após o último episódio de descontrole e vergonha (Mineirão, 8/7/2014) foi efêmero e pouco significativo: dez vitórias em amistosos e uma em jogo oficial, contra o Peru, produto de um gol nos acréscimos. Mas pareceu ser suficiente para que um time doente se imaginasse novamente forte, respeitado, tal qual o bêbado que diz que bebe, e para de beber, quando quer.

O que se viu na derrota para a Colômbia é o reflexo em campo do comportamento delirante de quem diz que o 7 x 1 “foi um acidente”, que “ainda somos os pentacampeões”, que “voltamos a ser respeitados” e demais variações do nonsense repetido desde que o alcoólatra deu vexame em Belo Horizonte.

É exatamente o mesmo tipo de auto-engano cometido em loop por doentes que recusam as terapias que podem curá-los. Os intérpretes desse discurso de realidade paralela são os maiores responsáveis por uma equipe que continua inebriada pelos próprios defeitos.

O alcoólatra nunca assume a responsabilidade por tomar o primeiro gole. Os culpados são as injustiças da vida, as más companhias, a solidão. Ou as pequenas alegrias convertidas em grandes decepções. A Seleção Brasileira não assume a responsabilidade pela derrota. O culpado é o árbitro, “um complô”, a truculência do adversário.

Aí está o principal sintoma da doença.

Seria até aceitável reclamar de uma arbitragem permissiva se o Brasil fosse um time virtuoso, que não desce de seu pedestal técnico e se nega a práticas mundanas de contenção do adversário.

Ocorre que esse retrato é simplesmente fictício, e sua utilização desavergonhada beira a farsa.

O jogo contra a Colômbia teve 39 faltas. A Seleção Brasileira cometeu 20.

No encontro anterior entre as equipes, na Copa do Mundo, foi o Brasil quem estabeleceu o domínio autoritário no primeiro tempo, por intermédio de um violento rodízio de faltas sobre James Rodríguez. A falta de pulso do árbitro em um jogo em que foram marcadas 54 faltas (31 do time da casa) contribuiu para a lesão de Neymar ao final.

A partida de ontem não teve exageros, além de uma grosseria de Teo Gutiérrez contra Dani Alves, imediatamente retaliada por Fernandinho.

De modo que é preciso parar com essa conversa de que a Seleção Brasileira é a candidata mais bela e comportada de um concurso de miss, constantemente prejudicada por barangas que dormem com os jurados.

O futebol que o Brasil pratica há tempos é equivalente ao da grande maioria das seleções de bom nível. As ideias também. Marcação forte, transição rápida, opção por provocar o erro do adversário em detrimento do protagonismo. A questão é que enquanto este pacote é o máximo que muitas equipes podem alcançar, para a Seleção Brasileira tem sido uma escolha. É como se prefere jogar.

E quem opta por jogar assim assume os mesmos conceitos dos outros. Entende que ser faltoso é uma virtude, que é necessário se impor por intimidação (não confundir com imposição física, uma qualidade), que futebol bonito é coisa do passado e que jogar bem é ganhar.

Se esta é a sua visão, não reclame de quem a compartilha. Pois não é inteligente, ou até mesmo respeitável, jogar como (quase) todo mundo joga e querer ser tratado como alguém especial.

A Seleção Brasileira foi superada pela Colômbia em todos os ângulos do jogo: técnico, tático, físico e emocional. Não chega a ser um choque, porque, nesse ambiente nivelado, o trabalho de José Pekerman está adiante do de Dunga. Mas foi preocupante ver um time que se orgulha de sua transição não conseguir contragolpear quando não teve a bola, no primeiro tempo. E não conseguir jogar quando a teve, no segundo.

Está claro que os oponentes perceberam que anular Neymar automaticamente faz da Seleção Brasileira um time estéril. E que essa percepção provoca um desarranjo psicológico capaz de tirar o astro do Barcelona do sério e travar seus companheiros, uma pane que traz de volta os fantasmas da Copa do Mundo.

É obrigatório frisar que o time de Pekerman foi além desse protocolo, porque a atuação de Carlos Sánchez merece bem mais do que um registro. O meio-campista do Aston Villa foi um dínamo em campo, ocupando-se do trabalho pesado de marcação e, também, apresentando-se no ataque.

Cabe a pergunta: há um jogador como Sánchez na Seleção Brasileira?

As declarações após a derrota pretenderam negar os fatos, um expediente que assusta, mesmo que não tenha sido utilizado pela primeira vez. Já seria ruim o bastante se foram tentativas de desviar as atenções do real problema. Se refletiram as convicções que prevalecem no grupo, a inexistência da Seleção no sentido coletivo continuará a provocar noites como a de ontem.

No Mineirão, o doente terminou a noite em coma, largado na calçada todo sujo e sem documentos. Até hoje não sabe como chegou ao hospital.

Em Santiago não foi tão feio. Ele achou que podia tomar apenas um copo, perdeu o controle e quis arrumar confusão. Foi levado para casa xingando quem aparecia, reclamando que colocaram algo em sua bebida.

Ao acordar, hoje pela manhã, o doente olhou-se no espelho e se convenceu de que pode resolver tudo sozinho. Não pode. Outras recaídas estarão no caminho se o primeiro passo não for dado.

Mas é preciso ter coragem. E humildade.



  • Juliano

    Que texto absolutamente sensacional.

  • José Henrique

    Gostei do texto. E gosto muito do Alex comentando na ESPN. Muito coerente sensato, e principalmente realmente conhecedor de bola. Deu um show no Linha de Passe.

  • Marcelo Santos

    Concordo. Perfeita a alegoria.

  • Marcelinho

    Que texto. Covardia com o nível de jornalismo praticado por aqui. Essa é a verdade, André.

    André, dá pra responder a perguntar do seu texto com outra pergunta.

    E qual jogador brasileiro tem condições de fazer as funções exercidas pelo Sánchez?

    Abraços

  • lm_rj

    Andre, o que esperar de uma seleção que se baseia em um único jogador (de imensa habilidade, verdade, porém extremamente individualista e imaturo emocionalmente)? Jogador este que está a partir de hoje onde foi formalizada e aceita denuncia pelo judiciario espanhol, seriamente encrencado com acusações pesadas de fraude documental e sonegação de impostos, crimes com previsão de encarceramento pela lei espanhola, diga se de passagem.
    Pra não esquecer do jogo de ontem: Quadrado e James Rodrigues escolhem a camisa que quiserem nesse timeco do dunga.

  • Rafael

    Excelente analogia. Nós somos o “bebum” que não aceita o problema. Parabéns!!!

  • Fabio Hideki

    Se o 7×1 não foi suficiente, imagino que uma derrota para a Venezuela, e a desclassificação, não serão suficientes.

  • Edison

    ótima coluna, a parte que mais gostei foi a do “bebado sujo caido na calçada”. perfeita a analogia.

  • José Henrique

    E, é de espantar o que a Cbf vendeu e vende de camisa amarela. Cada camisa vendida é dinheiro do bolso do torcedor cidadão para o bolso sabe-se lá de quem.
    O povo também é um pouco culpado, ou talvez mais do que seria aceitável. Nas manifestações de rua, e nos estádios o que prolifera de camisas da CBF é uma grandeza.
    Caminhamos sempre na contramão.
    E, quando vemos que supermercados, bancos, e investidores particulares mandam a cada dia mais no futebol, e os clubes a cada dia mais fragilizados, dá pra desanimar. Quando será que os homens com poder de formar opiniões, vão acertar o foco do problema?

  • Juliano

    Acompanho todos e faço das palavras do meu xará lá em cima as minhas: sensacional! Mesmo!

    O discurso de Dunga/CBF (do bêbado), infelizmente se repete nas demais esferas: clubes e federações, base. Mataram o futebol brasileiro. Quem é a próxima revelação? A próxima esperança? Quem está despontando? Ninguém, não há ninguém, apenas jogadores médios, quando muito. Pior que isso: quem está tentando jogar diferente, quem é o técnico diferente, que faça o time jogar diferente? Não existe, porque todo o organismo não permite. E mesmo que, do dia pra noite, a se mude o comando de CBF, federações e clubes, que uma nova filosofia seja implantada na base, que tudo se resolvesse para o bem do futebol como num passe de mágica, demoraria pelo menos 20 anos para colher os frutos. E do jeito que está – e que não irá mudar tão cedo, mesmo com tantos motivos e evidências para tal – os únicos frutos a colher são os estragados. Vi, pela fartura de craques e não por competência das entidades supracitadas, o Brasil vencer em 94 e 2002. Meu filho não verá.

    E só talento não basta. É preciso orientação, educação, berço. Se o futebol do Neymar é esse assombro mesmo com tanto para tirar a sua concentração – mimos, regalias, festas, imaturidade, estrelismo, seu pai mafioso e a transação criminosa para o Barça, etc… – imagine onde ele poderia chegar sem todos estes problemas.

    AK, estamos assistindo uma morte anunciada. Não falta muito para que seja jogada a pá de cal.

    Abraço!

  • Romeu

    Caro André, adorei a comparação! É extremamente didática para entendermos o momento por que passa o futebol brasileiro e, consequentemente, a seleção nacional. Só tenho dúvidas quanto a “escolher” ou mesmo “preferir” jogar dessa maneira. Acredito que a limitação técnica da imensa maioria dos nossos jogadores praticamente não nos deixa outra alternativa. Não temos mais os superpoderes de outros tempos, nos tornamos mortais enfim, mas as 5 estrelas bordadas na camisa nos faz entrar em campo com pose de deuses do Olimpo. Quando finalmente, depois de 1, 2, 7 gols sofridos, tomamos a ducha gelada da realidade, perdemos até o que nos restava de dignidade, tal qual o bêbado. Em tempo: uma ideia que acaba de me ocorrer: não seria o caso de retirar as 5 estrelas do peito, como símbolo de humildade e de reconhecimento de que devemos reiniciar o futebol brasileiro do zero? Abraço.

    AK: Sobre a escolha por jogar dessa forma: não creio que a Colômbia seja superior ao Brasil, em termos individuais. Mas, por algum motivo, o resultado coletivo do encontro foi dramático. Isso tem a ver com conceitos e com trabalho. Um abraço.

    • Adriano

      Nao.

  • Gustavo

    André,

    Um jogo contra a Argentina tem tudo pra ser a Oktorberfest…

    Abç.

    Gustavo

  • Roberto Santos

    Parabéns pelo texto. Bem acima da média que encontramos em jornalismo esportivo ! Por falar em média, nosso técnico não passa de ano em nenhuma escola. Precisamos de um técnico de verdade, completo, que entenda de comando, e também de treinamentos técnicos e táticos .Enquanto não tivermos um assim , nada mudará. Att

  • Douglas Vitielli

    Acho que o 7×1 foi tão ruim, mas tão ruim que até esquecemos dos 3×0 na decisão do terceiro lugar sem que a Holanda fizesse questão do jogo. O futebol da seleção há tempos deita em berço esplêndido sonhando com conquistas passadas e não enxergando o que é hoje. Parece que, após perder em 82 e 86 quisemos copiar o que vinha de fora (única maneira até então de nos enfrentar) e esquecemos que o que fazíamos era o motivo de eles atuarem assim. Nos nivelamos às Grécias da vida mas não aceitamos isto. Enquanto as categorias de base dos times nacionais não voltarem a privilegiar a técnica em detrimento da força nunca voltaremos ao patamar que tínhamos.

  • Marcel de Souza

    Que belíssimo texto, parabéns!

  • Inácio Novaes

    André, muito bom o texto, parabéns. O que me irrita é ver jogadores e o “técnico” Dunga insistirem em dizer que tá tudo bem. Não admitir o problema é jogar a poeira pra baixo do tapete, não resolve nada.

  • Caio lineu

    Absolutamente brilhante, André!

    Mais uma vez, meu parabéns!

  • Gustavo Farias

    Analogia totalmente correta André,
    Enquanto não houver uma comoção dos jogadores, comissão técnica e diretoria, o futebol apresentado pela nossa seleção será esse: Burocrático, previsível e comum. Se queremos ser diferenciados e voltar a apresentar espetáculos no passado, precisamos tomar atitudes condizentes com nossas ideias e não opostas ao que pensamos.

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