COLUNA DOMINICAL 



(publicada ontem, no Lance!)

LAVA

O rastro de corrupção desvendado pelas autoridades americanas se aproxima perigosamente do gramado. A sujeira que vaza dos gabinetes, dos documentos e das conversas telefônicas grampeadas ainda vai dragar nomes para este escândalo, quadro garantido pelas delações premiadas dos que já estão implicados. A reboque do aumento da lista, o jogo propriamente dito não escapará dos maus tratos de quem jamais pensou nele, apenas nas próprias contas bancárias.

Descobrimos anteontem que a FIFA precificou a frustração de um país que teve a chance de disputar uma Copa do Mundo roubada, literalmente, na mão grande. A Associação de Futebol da Irlanda revelou que recebeu cinco milhões de euros para não criar um caso por causa da jogada do gol da França nas eliminatórias europeias em 2009, em que Thierry Henry deu um tapa na bola. Os franceses foram à África do Sul no ano seguinte e a Irlanda teve seu silêncio comprado, em um caso que exemplifica o caráter público do futebol sem que seja necessário desenhá-lo para quem teima em não compreender.

Já sabíamos quando custava um voto do Comitê Executivo da FIFA na eleição para presidente da entidade e no processo de escolha da sede da Copa do Mundo. Conhecíamos também os valores de propinas para dirigentes nas negociações de exploração e transmissão de competições. Eis que agora as pessoas que se importam com o futebol na Irlanda sabem quanto vale o que sentiram em uma noite trágica em novembro de 2009, e durante um Mundial inteiro ao qual deveriam ter ido. Quem já viu a torcida da seleção irlandesa no estádio, exibindo tudo o que existe de bom no futebol, tem a medida da crueldade da qual foi vítima. O modo mafioso de operar explica também porque a arbitragem eletrônica ainda não é utilizada, mesmo que a tecnologia necessária esteja, faz tempo, à disposição.

Em outro tema, é importante não esquecer que a estrutura política que levou a Justiça dos Estados Unidos a tratar a FIFA como uma organização criminosa encontra-se replicada em quase todos os países onde o futebol é um negócio rentável. O Brasil se distingue pela existência das federações, cartórios que negociam acima (eleição do presidente da CBF) e abaixo (campeonatos estaduais), como sempre fizeram os hóspedes do Baur Au Lac. O controle de cartolas regionais sempre foi a base de sustentação do Dr. Ricarrrrrrrdo na confederação, expediente que Marin/Del Nero mantém acionado. Em tempos de crise, mesmo que a hora de trocar os anéis pelos dedos seja inevitável, os donos do futebol brasileiro pretendem encontrar soluções a portas fechadas.

É cômico que ideias como a limitação de mandatos nas entidades esportivas e a criação de uma liga de clubes – assuntos que causavam chiliques até outro dia – tenham sido ventiladas despretensiosamente pelos facilitadores de Marco Polo Del Nero nos últimos dias. Ao que parece, tudo está sobre a mesa para tentar salvar aparências e influências. Os clubes são tratados como crianças mimadas com insolúveis problemas de relacionamento, uma caracterização não muito distante da realidade.

CRÉDITO

Todas as informações que saem de dentro do São Paulo a respeito de Juan Carlos Osório são positivas. É preciso saber filtrar o otimismo embutido nas opiniões de quem torce, é claro, para que o trabalho do treinador colombiano seja bem sucedido. Mas os comentários sobre novos métodos na forma de conduzir o time já são suficientes para aplaudir a contratação de um técnico estrangeiro e lhe dar crédito. Que a torcida e a direção do São Paulo façam o mesmo. Como se destacou aqui quando se falava na possibilidade de o clube trazer Alejandro Sabella, garantir suporte a quem se propõe a mudar o cenário não é uma questão de paciência, mas de convicção. As transformações nunca são simples e seus agentes sempre enfrentam oposição, muitas vezes disfarçada de apoio. O São Paulo não escolheu Osório para que ele seja mais do mesmo.



  • José Henrique

    Se as investigações não avançarem sobre o dinheiro no futebol da Inglaterra, infelizmente seremos obrigados a acreditar na “seletividade”.
    Quanto a delação premiada, interessaria a nós brasileiros talvez Marin, e conhecer as relações históricas(década)com o poder na Commenbol, e as decisões de campeonatos “ajeitadas” com mudanças de mando de campo em finais, etc.

    • Matheus Brito

      Se avançarem sobre o futebol inglês podemos ter uma nova Guerra Fria.

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