COLUNA DA TERÇA 



(publicada ontem, no Lance!)

AINDA É TEMPO

Desde a quarta-feira em que senhores feudais do futebol mundial receberam o tratamento dado a criminosos internacionais, o silêncio de certos constrangidos tem sido tão marcante quanto a voz de quem sempre acompanhou o andar de cima da bola com obrigatório tom crítico. Serviçais de cartolas cumprem suas ordens e, enquanto torcem para que a tempestade passe logo (vã esperança, de acordo com as leis suíças e as declarações de autoridades americanas), se esforçam para encontrar outros temas em dias dominados pela relevância do que se deu no Baur au Lac.

Mas há também quem, por cinismo, desinformação, ou ambos, insista em questionar a prisão de um político corrupto do futebol brasileiro – um claro aviso aos demais – por causa do envolvimento dos Estados Unidos em uma ação em outro país. Como se, em um ato imperialista despreocupado com as leis locais, comandos encapuzados tivessem invadido o luxuoso hotel suíço durante a noite e sequestrado pessoas inocentes, levando-as para Guantânamo. Como se José Maria Marin, figura que consegue reunir em sua história de vida tudo o que existe de abjeto na política e no esporte, estivesse hoje em uma cela como vítima de uma injustiça.

Argumenta-se com a velha ladainha de que a FIFA e a CBF são empresas privadas e com a semântica da corrupção. Neste contexto míope, indaga-se quais teriam sido os crimes cometidos pelos que estão detidos em Zurique e pelos réus confessos, indiciados e condenados, com ou sem acordos assinados com a Justiça americana. Os crimes estão descritos no documento divulgado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos cujo acesso é público e a leitura é absoluta obrigação de quem se propõe a comentar o caso. Furtar-se a fazê-lo por amizade, gratidão ou pura desfaçatez, é incorrer em estelionato da profissão. Melhor não dizer nada e tentar dormir.

Os Estados Unidos não só estavam autorizados pelo governo da Suíça para executar a operação, como tiveram a colaboração da polícia de Zurique, autora das prisões após seus agentes se identificarem na recepção do hotel e pedirem aos funcionários os números dos quartos dos procurados. Nenhuma arma foi exibida. O relatório da investigação é claro ao estabelecer o caráter público do futebol e das entidades que o administram. A procuradora-geral dos EUA, Loretta Lynch, explicou pessoalmente a razão das prisões em uma entrevista coletiva assistida no mundo inteiro.

Se há algo a lamentar no episódio é apenas o fato de autoridades estrangeiras terem cumprido uma missão que era de cada país em que as pessoas presas atuavam. Ao longo dos anos de Ricardo Teixeira na CBF, não faltaram motivos ou oportunidades. O modo de operar dos chefes do futebol mundial recebeu um golpe violento na última quarta-feira, mas os usos e costumes dos manda-chuvas do futebol brasileiro só sofrerão algo semelhante quando um deles – ou mais – for investigado, acusado, indiciado e preso pela Justiça do nosso país. Ainda é tempo.

PERGUNTAS

Diante do que sabemos agora sobre os esquemas usados por José Maria Marin (e pelo menos mais dois cartolas do alto escalão da CBF, é bom lembrar sempre) para enriquecer com o futebol, como fica o debate sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte? Quem ainda pode se posicionar contra a necessidade de responsabilização pessoal de dirigentes de entidades esportivas? A confederação e os clubes seguirão refratários às drásticas alterações de governança propostas na Medida Provisória do Futebol? O que falta acontecer para que se conclua que a corrompida estrutura do futebol brasileiro precisa ser higienizada?

MAIS PERGUNTAS

Os clubes assistirão quietos ao desenrolar da crise na CBF? Nem mesmo as cifras divulgadas pela investigação estimularão qualquer tipo de movimento em que estejam juntos?

AFIRMAÇÃO

Em breve, a CBF receberá más notícias em relação a seus patrocinadores.



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