COLUNA DOMINICAL 



(publicada ontem, no Lance!)

UM MARCO

O relatório do Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre a investigação na FIFA é, para nenhuma surpresa, impecavelmente detalhado. A leitura atenta de um trecho do longo documento (http://www.justice.gov/opa/file/450211/download) explica por que, nas primeiras horas da última quarta-feira, José Maria Marin saiu de um hotel cinco estrelas em Zurique direto para uma cela individual de uma penitenciária nos arredores da cidade suíça.

As informações mais interessantes – até o momento – para o ambiente do futebol brasileiro referem-se ao esquema de propina em torno da realização da Copa do Brasil, que geraria a Marin e outros dois dirigentes brasileiros pagamentos anuais de 2 milhões de dólares entre 2012 e 2022. Esses dois cartolas não estão nomeados no relatório, mas tratados como conspiradores numerados e descritos conforme suas atividades em entidades esportivas. Ambos são, ou eram à época dos fatos relatados, membros da CBF, da CONMEBOL e da FIFA.

Só o caso da Copa do Brasil (o mesmo conspirador embolsou valores maiores negociando a Copa América) já é suficiente para dispensar as tentativas fúteis da CBF de se dissociar do escândalo, seja por intermédio de cômicas notas oficiais ou de entrevistas inverossímeis como a concedida ontem por Marco Polo Del Nero, na ex-sede José Maria Marin. Alegar que a gestão atual da CBF não tem nenhuma relação com os atos de Marin é uma rota que leva o escapismo a níveis insultantes. Del Nero não era apenas o vice-presidente de Marin, mas uma onipresença durante a gestão do dirigente corrupto. Para distanciá-lo das negociatas hoje comprovadas é necessário acreditar que o atual presidente era uma figura decorativa e desprovida de sentidos. Tente.

Ademais, as propinas divididas entre os três cartolas se prolongam para bem depois da saída de Marin da presidência, o que invalida a postura preocupada “apenas com o presente e com o futuro” propalada por Del Nero ou por quem carrega sua mala. É inadmissível que o presidente da CBF não se importe com o fato de haver “colegas” recebendo milhões de dólares por fora, e por mais sete anos, pela realização da Copa do Brasil. E é assustador que Del Nero não se preocupe em fazer mais do que negar a suspeita, por um simples encaixe de descrição, de que um desses cartolas é ele.

Del Nero afirma que não tem “nada a ver com isso” e que se empenhará em provar a lisura da entidade que comanda, mas não elabora como pretende fazê-lo. É do interesse dele identificar os dois dirigentes brasileiros que deveriam – ou deverão – estar sob custódia da Justiça americana. Mesmo porque esses nomes virão à tona cedo ou tarde. As descrições do relatório da investigação indicam que os promotores sabem perfeitamente quem também participou do esquema na Copa do Brasil. A constituição de mais provas contra essas pessoas é um dos motivos pelos quais Marin está preso. Como as conversas entre o FBI e o ex-presidente da CBF prometem ser longas e elucidativas, Marco Polo Del Nero poderia nos conceder a gentileza de não nos fazer esperar.

NOVO JOGO

Imagine o barulho de trituradores de papel trabalhando ininterruptamente em escritórios espalhados pelo mundo do futebol, do marketing, da comunicação em todos os continentes. Calcule a quantidade de arquivos apagados da memória de computadores, laptops destruídos, chips de telefones celulares trocados. Pense nas viagens de emergência em busca da sensação de segurança, nas conversas em código com sócios, nas promessas de honorários quadruplicados em encontros com advogados, no abuso de comprimidos para dormir. Avalie a preocupação sobre o que foi descoberto e o que ainda será. A máfia do futebol e suas ramificações internacionais estão enfrentando dias perturbadores. As redes de cobertura política e jurídica que sempre protegeram os donos do jogo em suas regiões de atuação estão diante de um novo, surpreendente e aterrorizante adversário.



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