CAMISA 12 



(publicada ontem, no Lance!)

F(utebol) B(em) I(nvestigado)

Imagine-se um cartolão do futebol sul-americano, que sempre tratou o jogo como propriedade particular. Algo como a sua própria máquina de imprimir dólares. Você está hospedado em um hotel cinco estrelas suíço, onde os funcionários o tratam como um chefe de estado. O cheiro e os sons do poder alimentam a sensação de que será sempre assim, pois, afinal, sempre foi.

Até que no raiar de uma manhã de quarta-feira, ao olhar para o criado-mudo para checar que horas são, você se dá conta de que o barulho que o despertou é alguém batendo na porta do quarto. Quem ousa incomodar tão cedo um dos donos do futebol? Irritado, você resmunga alguma coisa. A resposta é suficiente para acordá-lo de vez: é a polícia, trazendo um dia que você jamais imaginou que viveria.

O telefone do quarto toca. É a funcionária da recepção, a mesma que diariamente elogia o penteado de sua mulher. Dessa vez a mensagem tem outro tom: “senhor, estou ligando para dizer que precisamos que abra a porta, ou teremos de derrubá-la”. E assim, sem aviso, você se percebe na cena final de filmes sobre mafiosos, aquela que representa o encerramento de um modo de viver, quando só resta perguntar: “posso me vestir?”.

Os educados policiais suíços explicam o que está acontecendo. Trabalham em cooperação com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, em uma operação coordenada pelo FBI. Há provas, muitas provas contra você, e um mandado de prisão. Seus advogados não podem ajudá-lo agora. Seus amigos não são mais seus amigos. Seu estilo de vida de ordens, excessos e gargalhadas sofreu uma abrupta interrupção. Você terá de ir com eles.

Um carro no subsolo, uma saída discreta, um lençol para evitar a imprensa. São os únicos favores que o estafe que sempre o mimou com delicadas surpresas pode oferecer agora. Eles o querem longe o quanto antes, evitam o contato visual. Você se sente como um fantasma. Em certo aspecto, é no que você se transformou.

AÇÃO

A Polícia Federal esteve ontem à noite nas sedes da Klefer e da CBF, no Rio de Janeiro, com mandados de busca e apreensão de documentos. O envolvimento de dirigentes e empresários brasileiros em crimes descritos no relatório do Departamento de Justiça dos EUA é tão escancarado que as nossas autoridades não podem deixar de agir. Que seja apenas o começo.

COMÉDIA

As notas oficiais divulgadas pela CBF são tão bizarras que sugerem que a comunicação da entidade foi sequestrada por um humorista. A confederação afastou José Maria Marin depois que a FIFA o baniu, e quer se distanciar do cartola preso como se ele vivesse em um passado distante. Seria interessante que alguém no edifício Marin lesse o relatório da investigação.



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