COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

BEDÉIS

Discussões com árbitros são comuns em jogos de tênis. Discordâncias em relação às marcações do sujeito que ocupa a cadeira costumam girar em torno de problemas oftalmológicos ou déficit de atenção. O tenista sabe que não ganhará o ponto no grito independentemente da consistência de seus argumentos, mas insiste na conversa para aliviar o stress, condicionar as próximas decisões ou apenas irritar aquele que o fez perder a paciência. Nesse último caso, nove entre dez tenistas recorrem a uma lembrança de quem é quem na quadra. Variações da frase “ninguém aqui pagou ingresso para ver você” são campeãs de audiência.

Árbitros brasileiros de futebol têm merecido ouvir repreensão semelhante, especialmente aqueles ainda seduzidos pelo aspecto militar, digamos, do fato de ser a “autoridade máxima em campo”. Poucos espetáculos são mais atrasados do que um árbitro que se comporta como bedel, ainda que alguns tenham alcançado à perfeição os trejeitos, as expressões faciais e as atitudes dos responsáveis pela manutenção da disciplina nos corredores de escolas rígidas. Não por acaso, bedéis foram superados pelo tempo, assim como instituições educacionais que se espelham em quartéis.

A conduta autoritária, que pretende incutir medo, sobrevive no modo de operar de certos apitadores, agora com a orientação específica de repelir com veemência qualquer abordagem mais exaltada de jogadores e técnicos. A chamada “reclamação ostensiva” deve ser reprimida sem economia de energia, de modo a deixar absolutamente claro quem manda naquele quadrado. Como se as regras disciplinares do esporte não fossem conhecidas por todos, como se um árbitro tivesse de fazer cara feia para ser respeitado, como se impedir que sua autoridade seja desafiada – ou que essa impressão seja disseminada – fosse mais importante do que uma atuação que proteja o jogo.

Como já se destacou neste espaço, a pressão sobre a arbitragem é um dos piores vícios do futebol no Brasil. O propalado desejo de que um trio tenha uma boa jornada quase nunca atravessa a linha do gramado. O que se vê é o contrário, em atitudes que evidenciam a intenção de desequilibrar árbitros e assistentes. Não se discute a quantidade de problemas que um apitador tem de administrar durante um jogo, motivo pelo qual a utilização da arbitragem eletrônica é urgente. É um equívoco, no entanto, estimulá-los a atuar como sargentos em comédias de baixo orçamento.

O árbitro enamorado pelo “controle” do jogo ignora que o objetivo deve ser o anonimato. O maior indicativo de uma atuação competente é a quantidade de pessoas que se lembram dele após a partida. E nada pode ser melhor para um apitador do que a fama de discreto. O italiano Pierluigi Collina, o melhor de sua geração e modelo de conduta sóbria, dirigia jogos sorrindo. Jamais foi visto vociferando em campo. Héber Roberto Lopes – que com Collina tem em comum apenas a cabeça raspada – praticamente excomungou o zagueiro tricolor Gum por um pênalti reclamado no jogo contra o Corinthians. Deu medo. Ninguém paga ingresso para ver isso.



  • Ricardo

    A própria entidade administradora os educa, treina e cobra pra isso. Os clubes, subservientes, nada fazem a respeito. E não farão.

  • Rafael Travassos

    André, saindo do assunto, o que tens a dizer sobre Stephen Curry? Eu, com 40 anos, vi Jordan no auge e Johnson jogando muito bem. A sua conduta nos treinos é invejável, um profissionalismo eu um ‘toque’ pela perfeição absurdos. Sei que é cedo, mas eu já o coloco como um dos melhores que já vi jogar.
    Abs.
    Rafael

  • Rodrigo – CPQ

    Ak, o Paulo Calçade fez um contraponto interessante ontem, na ESPN. Se parar pra pensar, alguma atitude precisava ser tomada: os juízes são xingados sem dó nem piedade por jogadores, técnicos, gandulas, dirigentes e por aí vai. Caso essa postura seja levada em frente, e os tribunais mantenham as punições, imagino que a pressão extracampo irá diminuir. Se isso realmente acontecer, aí sim poderá haver uma exigência de que os árbitros sejam mais “tranquilos” em suas atuações. Do jeito que tá, é complicado. Eles recebem xingamentos o jogo inteiro. Quando acaba, o técnico que perdeu vai lá, com dedo em riste e xinga de tudo quanto é nome. Não estou defendendo a classe, é apenas uma constatação baseada no que o Paulo Calçade comentou ontem. Enfim, havendo respeito por parte de jogadores, técnicos e dirigentes, deve-se cobrar firmemente a mesma postura dos juízes. []s

  • Adriano

    “a atuar como sargentos em comédias de baixo orçamento”
    Kkkkkk genial

    • Nilton

      Este Brasileirão esta parecendo uma comédia/drama (dependendo do time que você esta torcendo, o gol perdido por Guerreiro ainda faz os palmeirenses rirem e os Alvinegros chorarem), mais de alto orçamento.

  • Joao CWB

    Os bedéis do futebol mundial estão começando a cair.

    Abraço.

  • Ricardo

    Importante, importante mesmo, é que José Maria Marin e outros dirigentes da FIFA foram presos pelas autoridades suíças na manhã desta quarta-feira em Zurique. Jeffrey Webb, Eduardo Li, Julio Rocha, Costas Takkas, Eugenio Figueiredo e Rafael Esquivel completam o time.

    • José Henrique

      Quem é esse que foi preso? É aquele ex governador, conselheiro e ex ponta direita do São Paulo Futebol Clube?

      • Ricardo

        Esqueceu de acrescentar à sua brilhante descrição que se trata do mesmo que serviu o regime militar e contribuiu muito no assassinato de Vladimir Herzog.

        Certas pessoas têm necessidade de mostrar o quanto são ridículas em comentários que não agregam nada, apenas semeiam ódio clubístico.

        • Juliano

          Ricardo, brilhante como sempre. Passando só pra mandar meu “like” e dizer que compartilho do mesmo pensamento que o seu.

          Abraço!

        • José Henrique

          Não o fiz porque como “meus comentários são brilhantes”, não quis revelar minha ignorância em história de fatos relevantes na história da democracia no país.
          Pesquisei no google agora para te responder. Obrigado pela lembrança.
          Só não me chame de coxinha por gentileza.

      • José Henrique

        Os amigos não pegaram a ficha no chão ainda. Eu não sou jornalista para ser imparcial. Eu sou torcedor, e muito parcial por sinal. Já está cheio de “imparcial” por aí.
        Por exemplo, se fosse um corinthiano, vocês acham que a manchete seria diferente, tipo:
        “Ex-corinthiano dirigente da CBF, é preso pelo FBI na Suiça”. ???
        Não quero dizer com isso, que o André, faria isso, ele nem pensaria em utilizar-se de um jornalismo reativo, porém ingênuos vocês não são, para saberem o que atrai retorno para a mídia não é?
        Meu comentário foi uma ironia ao comportamento da mídia que se especializou nisso para ganhar alguns pontos e, nesse caso escandaloso, escabroso de corrupção que envergonha o país e o futebol, não tenha usado o comportamento que fazem quando se trata do Corinthians.
        Ou é blindagem, ou é verdadeiro aquele dito que “no corinthians um espirro é tuberculose”.
        Podem replicar a vontade que sou ignorante e que tenho mania de perseguição.
        Estarão certos. Tenho.

        • Felipe Lima

          Filho, a Terra gira em torno do Sol, não é o Sol que gira em torno de um ponto específico na cidade de São Paulo, que você pelo jeito acredita que seja o eixo de tudo!
          Sai do Absolutismo! A Renascença é legal, acredite!

        • Ricardo

          Você precisa muito ler isso, se já leu, releia… vai ser importante relembrar.

          http://blogs.lancenet.com.br/andrekfouri/2009/08/30/coluna-dominical-36/

        • Juliano

          “midia”, “mimimi”, “anti anti”, “mimimi”… repeat…
          ZZZZzzzZZZZzzzzzzZZZzZZzzZZZzzzzzzzz

          Os colegas já disseram tudo. Sem mais, meritíssimo.
          PS: Um viva pra IUSPT!

          • José Henrique

            E eu reforço.”Ex São Paulino, dirigente da Cbf é preso pelo FBI na Suíça, por receber propina”.
            Eu posso! E estou mentindo ?

  • Lippi

    Cara, uma coisa que eu nunca entendi é pq temos um árbitro e dois assistentes para um campo de futebol com 22 jogadores.. explico:

    NBA: 10 jogadores, 3 árbitros na quadra com cerca de 430m2
    NHL: 22 jogadores, 4 árbitros no gelo com cerca de 1500m2
    NFL: 22 jogadores, 7 árbitros no campo com cerca de 5300m2
    Futebol: 22 jogadores, 1 árbitro no campo com cerca de 7300m2

    Faz sentido?

    (ok, óbvio que, colocar mais árbitros RUINS não resolve o problema)

    • Rodrigo – CPQ

      Lippi, sabe que eu me peguei pensando a mesma coisa por esses dias? Se formos falar de tênis então, quantos juízes de linha participam de uma partida? Achei perfeita sua colocação. []s

      • Juliano

        Senhores, não podemos nos reduzir apenas ao tamanho do campo de jogo de cada esporte. Cada um tem suas particularidades, sua dinâmica. A comparação com o tênis é cruel, basta ver o tamanho da bola e sua velocidade. Além de que, uma bola dentro ou uma bola fora podem determinar um ponto, no futebol não é beeeem assim, o sistema de pontuação é diferente. Vamos com calma

        No futebol é 1 árbitro, mais 2 auxiliares e o 4º árbitro. Experiencias foram feitas em alguns estaduais no passado com 2 árbitros e não funcionou. Como também não funcionou a experiência dos auxiliares nas linhas de fundo próximo às traves.

        Penso que o que o mais urgente na arbitragem do futebol seria o emprego de recursos eletrônicos para lances capitais.

        Abraço!!

        • Lippi

          Caro Juliano, também concordo que poderia ser usado algum tipo de recurso eletrônico como forma de auxílio (apesar de não conseguir saber exatamente como fazer isso – o futebol, ao contrário de outros esportes, não tem “paradas” a todo momento, o que pode estragar totalmente a dinâmica do jogo -, a não ser para o caso da linha do gol, onde me parece ser bem simples a solução).

          Meu ponto é exatamente o mesmo que vc disse: temos, além do árbitro, um 4o árbitro (que não serve para nada, sendo basicamente um mesário) e dois assistentes com pouquíssimas funções e autonomia. Os dois árbitros em campo e os assistentes atrás dos gols me parecem ótimas ideias, se fossem tratados como os árbitros da NBA. Se eles marcassem algo, está marcado. Não precisam do “aval” do árbitro principal, pois também são árbitros com essa autonomia.

          Abraço!

        • Rodrigo – CPQ

          Juliano, entendi seu comentário. Mas acho que ficou meio óbvio que cada esporte tem sua particularidade. Coisas que acho um descalabro (misturando Brasil e o resto do mundo):
          – o Brasil não usar a tecnologia que a FIFA deixou implantada aqui, para eliminar dúvidas se a bola entrou ou não no gol;
          – o árbitro não deveria, de maneira nenhuma, ser o responsável por controlar o tempo do jogo. Esse controle deveria ser feito por alguém de fora do campo;
          – colocaram os árbitros atrás do gol aqui no Brasil, e deixaram os caras do mesmo lado dos bandeiras na linha de fundo. Um dos lados era coberto por dois árbitros e o outro por nenhum;
          – por que não deram continuidade na regra adotada na Copa de 2010, onde o jogador que impedia uma cobrança rápida de falta recebia cartão amarelo?

          Enfim, pra finalizar: não dá pra descer tanto a lenha nos árbitros sendo que os jogadores simulam contusões o jogo inteiro, quase quebram a perna do adversário e levanta reclamando que não fez nada e por aí vai. Acho sim que os jogadores têm uma enorme parcela de culpa nas arbitragens ruins aqui no Brasil. []s

          • Juliano

            Lippi e Rodrigo, concordamos mais que discordamos.

            Quanto ao “aval” do apitador principal, realmente é complicado. Haveria uma certa ‘competição’ de poder dentro das 4 linhas, haveriam problemas relacionados aos egos de cada um, não sei se iria funcionar, talvez a ‘autonomia’ de cada pudesse criar um problema adicional no sistema de hoje. A arbitragem ser do jeito que é, é cultural e é mundial. Com relação à comparação com o basquete da NBA, onde teoricamente os 3 árbitros possuem o mesmo nível de poder na condução do jogo, lembro sempre do que diz Wlamir Marques (dentre outros): ter 3 (na FIBA são 2) é só pra ter mais um para errar. O número de árbitros não garante que toda a arbitragem cometa menos erros. Nesta temporada a NBA acertou em cheio com a revisão de jogadas no replay. Sim, é complicado fazer isso num jogo de 45 minutos sem interrupção, concordo, mas alguém (uma comissão) deve pensar em como solucionar isso.

            Concordo também que o árbitro está sobrecarregado de funções durante uma partida com 22 jogadores, treinadores aos berros à margem do campo, alguns repórteres de campo passando informações do replay para o banco de reservas, torcida, e assim vai. Ainda que há algum tempo existe comunicação com seus assistentes, antigamente era tudo na base do gestual.

            O fato da tecnologia do gol eletrônico já implantada e desenvolvida não ser utilizada realmente é um absurdo. Deveria ser “lei” em competições oficiais, não importa o país, não importa a divisão. As federações que banquem, e elas têm condições pra isso. Imagino que essa deveria ser uma determinação vinda de cima – FIFA.

            E tu finalizaste muito bem Rodrigo: não deve ser fácil conduzir uma partida com 22 jogadores onde provavelmente 90% deles estão pensando em, além de jogar bola, tirar vantagem da arbitragem induzindo árbitros a erros e etc. Infelizmente imagino que nos gramados brasileiros é onde se encontra esse tipo de jogador em maior número. Novamente, é algo cultural. Que bom se, desde as escolinhas e categorias de base, os jogadores fossem educados apenas a jogar futebol e, se em algum momento tentassem enganar a arbitragem, fossem reeducados por seus treinadores. Mas sabemos que não é assim, possivelmente seja algo ensinado, senão, incentivado, no mínimo.

            Abraços!

            • José Henrique

              Parabéns. Como você escreve bem! Com sua erudição deveria se tornar jornalista.
              Você é o cara no blog do André.
              O que seria de nós leitores se fôssemos privados da sua soberana presença aqui, pautando e moderando o blog, e orientando a nos leitores sobre o que é certo, ou o que é errado?
              Cara! Você escreve maravilhosamente bem! Parabéns!
              E além dessas qualidades é modesto.

              • Juliano

                José Sapiente, não se trata de escrever bem ou mal, não se trata de pautar, moderar ou orientar quem quer que seja sobre certo e errado. Cada um posta sua opinião conforme achar relevante e é assim que deve ser. Concordar ou discordar de cada um, é democrático. Talvez você tenha vindo fazer chacota pois leu uma discussão salutar, que é algo impossível de ser realizado contigo devido à sua pobreza de espírito, pra dizer o mínimo.

                Eu apenas penso que, no seu caso específico, manias de perseguição doentias com argumentos dos mais esdrúxulos não devem ser encorajadas a proliferar. Não é saudável pra ninguém, nem mesmo pra você.

                Agora sai do meu colo por favor.

  • Klaus

    Estou curioso sobre sua coluna de amanhã, André. Está acontecendo de tudo hoje.

    Entre elas, além do escândalo cebeéfeano, a demissão do gerente executivo do SPFC. Resgatei um trecho da sua coluna de novembro/13. E concluo que Aidar estava, efetivamente, em período de campanha à época. Os planos não deram muito certo, após 1,5 ano, aparentemente.

    Dizia sua coluna:
    “Carlos Miguel Aidar entende que a forma
    como o São Paulo foi administrado nos últimos anos impede a prática de gestões modernas. Ele está em contato com a FGV e com o Instituto Aquila para transformar o clube internamente e implantar seu estilo de comandar. Por coerência com o que fez – em 1987, ano da criação do Clube dos Treze e da Copa União – e pensa, promete tentar retirar a ação na Justiça em que o São Paulo briga pela Taça das Bolinhas. Um claro exemplo de como o clube pode ser representado de maneira mais sensata e menos ruidosa.

    Aidar tem boa impressão do trabalho do gerente executivo Gustavo Vieira de Oliveira, é favorável a que o São Paulo dê total liberdade para Rogério Ceni decidir seu futuro, e conta com Muricy Ramalho no banco de reservas. “Já disse ao Muricy que, no dia seguinte à eleição, ele receberá um contrato com a mesma duração da minha gestão”, revela. Três anos. Ou seis? Ele sorri, provavelmente pensando nos benefícios de uma reeleição. Carlos Miguel tem a história, o verniz e as ideias.”

    Um abraço!

    AK: Essa coluna foi fruto de uma conversa pessoal que tive com ele. É verdadeiramente inacreditável como as coisas se desenrolaram. Um abraço.

    • Ricardo

      Inacreditável talvez pra nós, pra ele não acho que tenha sido tão inacreditável assim. Palavras de dirigentes de futebol e brasileiros não costumam carregar alguma credibilidade. Suas atitudes desde a posse, representaram o clube de muitas maneiras, exceto de forma mais sensata e menos ruidosa.

  • Paulo Pinheiro

    André, você há de lembrar aquele Figueirense 2 x 2 Flamengo em que o Héber distribuiu 6 cartões amarelos ao visitante e NENHUM ao mandante (e o Figueirense chegou a parar contra-ataques puxando pela camisa, pra falar só de um descalabro). A maioria dos cartões foi justamente por reclamação dos flamenguistas e o Ronaldinho Gaúcho chegou a relatar ao Luxemburgo que foi diretamente ameaçado de expulsão pelo árbitro (não lembro do R10 ter feito isso em qualquer outro clube em sua carreira).

    E aí, por puro acaso, no ano seguinte ele começou a apitar na Federação Catarinense…

    Tem algo MUITO mais podre no reino da Dinamarca quando um árbitro age dessa maneira…

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