COLUNA DA TERÇA 



(publicada ontem, no Lance!)

GALINHA DOURADA

O trecho mais interessante da excelente reportagem do jornalista Jamil Chade (publicada na edição de sábado de “O Estado de S. Paulo”) sobre a negociação dos amistosos da Seleção Brasileira não é o que expõe as minúcias dos contratos milionários. É o que revela em que tipo de ambiente a camisa mais famosa do futebol mundial tem seu destino traçado e alugado, sempre levando em conta, acima de qualquer outro aspecto, os valores e as comissões.

Chade nos contou sobre uma reunião na sede da Federação Paulista de Futebol, no início de maio de 2012, na qual Marco Polo Del Nero mostrou ao empresário Marcel Figer uma cópia traduzida do contrato sigiloso entre a CBF e a ISE, detentora dos direitos sobre os amistosos da Seleção. Figer havia solicitado a gentileza a fim de elaborar uma proposta em nome da Kentaro, empresa interessada em assumir a comercialização dos jogos. A reportagem informa que Figer “aproveitou um momento em que Del Nero se ausentou para fotografar cada uma das páginas, no intuito de encaminhá-las à Kentaro”. Pelo que se percebe, a confidencialidade dos acordos da CBF com seus parceiros – algo absolutamente normal, registre-se -, evocada sempre que se pede transparência em relação aos negócios envolvendo a Seleção Brasileira, não serve para situações em que outras empresas se apresentam acenando com mais dólares.

Como se sabe, não faltam patrocinadores à CBF. A galinha dos gols de ouro é extremamente lucrativa para a confederação e para as marcas que a ela se associam, entre as quais estão algumas das empresas mais conhecidas do Brasil. Mas a cena descrita por Jamil Chade na sede da FPF desnuda um modo de agir que, ainda que não surpreenda a ninguém tendo em vista os atores mencionados, deve ao menos incomodar quem tem de lidar com os donos da Seleção Brasileira de futebol. Confidencialidade que só se aplica a um lado não sugere uma relação honesta.

A questão principal não é quanto a CBF, as empresas associadas, os empresários e os intermediários lucram com as apresentações da Seleção pelo mundo. Nem mesmo as cláusulas que estabelecem que alterações nas convocações precisam ser submetidas ao consentimento dos organizadores. O que se discute é a quem pertence o time que representa o futebol brasileiro, e qual é o propósito de sua existência. O leitor que entende que a Seleção é um produto de uma empresa privada cujo objetivo é fazer shows internacionais por cachês cada vez mais valiosos não deve se preocupar, pois é nisso que a CBF se empenha. Já quem pensa que a camisa amarela deve ter uma relação íntima com o torcedor brasileiro e honrar as qualidades que um dia a caracterizaram certamente se alarma ao perceber no que a Seleção se transformou. Nesse caso, o “como” é igualmente inquietante.

Na tentativa de responder ao conteúdo da matéria do “Estadão”, a CBF se esforçou mais em atentar contra a credibilidade de seu autor do que em defender a forma essencialmente mercantil com que administra o time que simboliza o futebol do país. Uma postura patética, mas coerente com as práticas expostas na reportagem.

FANTASIA

A punição ao Boca Juniors é algo que só se compreende no mundo da CONMEBOL, entidade que não conhece limites na capacidade de causar danos ao futebol. Argumenta-se com o ineditismo de um clube eliminado da Copa Libertadores por um problema relativo à segurança, como se casos passados não merecessem tal medida. La Bombonera não ter sido proibida de receber jogos internacionais enquanto o Boca não apresentar planos para impedir o que aconteceu na semana passada é uma irresponsabilidade que, em essência, autoriza a violência. Como fazê-lo (se é que alguém oferece essa questão seriamente)? Evitar que a mais violenta organizada do time ocupe uma área em que se pode encostar no túnel do vestiário visitante já é um começo. O Boca Juniors tem responsabilidade no episódio, pelo qual recebeu uma pena formal.



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