COLUNA DOMINICAL 



(publicada ontem, no Lance!)

BOZOS

O futebol sul-americano exibiu todas as suas doenças na noite de quinta-feira, quando deveria mostrar ao mundo um de seus encontros mais tradicionais. Boca Juniors e River Plate não chegaram ao segundo tempo na Bombonera, em mais um exemplo da capacidade de contaminação de uma sociedade corrompida, como tão bem descreveu o jornalista argentino Leandro Fernández em sua conta no Twitter: “Não, não é ‘um idiota’ que entrou com gás. É um clube cúmplice. É a polícia que se presta. É um sistema arruinado”.

As palavras aplicam-se ao continente e aumentam em gravidade conforme a importância do futebol em cada país (o que não significa, aos que sofrem de dramas de interpretação, que tais barbaridades só aconteçam nesta parte do globo. Esta coluna se ocupou recentemente de distúrbios ocorridos no futebol europeu, com espanhóis e holandeses), conjuntura da qual o Brasil não escapa. Enquanto o espetáculo de selvageria e descontrole atingia níveis calamitosos em Buenos Aires, cretinos nacionais irrecuperáveis infestavam as redes antissociais com saudações ao que julgam – em uma demonstração de esforço neurológico – ser “o verdadeiro futebol”.

A distorção do exercício de torcer, a incompreensão do significado de rivalidade e a glorificação da intolerância conduziram o futebol a um buraco de excremento no qual um certo tipo de miserável se sente à vontade. Não se trata do bandido organizado que vai ao estádio para matar ou morrer, minoria que representa o extremo. Não é o excluído, o que vive à margem. É o ignorante que tem acesso, tem escolhas e opta por ser um imbecil. É o tolo que acha que formula conceitos e pontos de vista sob os quais um ataque de gás de pimenta (há quem diga que também se usou ácido) a jogadores adversários é algo que “faz parte” do futebol. É o abençoado pela inclusão digital que supõe que “chuuupaaaa! kkkkkkkkkk” é uma forma de comunicação.

Essas figuras não são produtos das nossas carências, mas agentes delas. Alimentam o lodo que permite que os políticos do esporte e as “autoridades” sigam distribuindo cinismo e negligência. Em uma afronta à capacidade de constrangimento, o secretário de segurança da Argentina, Sergio Berni, declarou que a organização do clássico no estádio do Boca Juniors “foi um êxito”. Além da violência contra os jogadores do River Plate no túnel que leva ao gramado, um drone decolou de dentro da Bombonera com uma provocação ao time visitante. Políticos vivem em outra dimensão.

Em muitos casos, atletas também. O comportamento dos jogadores do Boca Juniors durante o período de mais de uma hora que se levou para suspender o jogo foi triste. Alguns chegaram a ensaiar um processo de aquecimento, enquanto colegas de profissão lidavam com as consequências do gás de pimenta. Ainda pior: ao perceber os jogadores do River Plate ilhados no gramado, não ocorreu a nenhum xeneize acompanhá-los na saída, o que obviamente evitaria agressões. E quando não se imaginava que o nível de companheirismo pudesse baixar, o goleiro Orión liderou uma saudação à torcida do Boca, na noite em que um jogo foi interrompido por abuso do público.

Acontece de tudo no quintal da Conmebol, uma entidade estacionada no tempo, o que há de mais próximo de uma republiqueta latino-americana em que canastrões acima do peso e desprovidos de senso de ridículo agem como ditadores. Não é coincidência: a Copa Libertadores é feita à essa imagem e semelhança. Na Argentina fala-se em eliminação do Boca Juniors desta edição da Libertadores, suspensão da próxima e proibição de jogos na Bombonera em competições internacionais por dois anos. Qualquer punição aquém dessa será a vitória da vergonha e dos incapazes de pensar.



MaisRecentes

Cognição



Continue Lendo

Sete dias



Continue Lendo

Em voo



Continue Lendo