PEQUENAS EMPRESAS, GRANDES NEGÓCIOS



 

Na vitória por 6 x 0 sobre o Getafe, há duas semanas, o trio de atacantes do Barcelona quebrou a marca dos 100 gols na temporada. O encontro do Campeonato Espanhol foi uma clínica de jogadas plásticas que deu a impressão de ter sido o resultado de uma aposta entre jogadores que sabiam que venceriam e sabiam que venceriam por goleada. Por diversão, decidiram que só construiriam gols belos.

À exceção do primeiro, de pênalti (Messi, de cavadinha), todos os outros foram frutos de jogadas coletivas dignas de aplausos.

Mas algo além da quantidade e das características dos gols marcados naquela tarde no Camp Nou chamou a atenção. Como se também tivessem combinado a trama no vestiário, os jogadores catalães apresentaram uma interessante sequência de assistências, com gentilezas feitas e retribuídas. Um carrossel em que o autor de cada gol estava obrigado a oferecer o seguinte:

1-0: pênalti em Suárez, gol de Messi

2-0: passe de Messi, gol de Suárez

3-0: passe de Suárez, gol de Neymar

4-0: passe de Neymar, gol de Xavi

5-0: passe de Xavi, gol de Suárez

6-0: passe de Suárez, gol de Messi

Xavi “se intrometeu” na festa do que se convencionou chamar de “trio MSN”, o tridente ofensivo que deixou o Barcelona em condições de conquistar três títulos nesta temporada.

Ontem, em Munique, os dois gols do time na comemorada derrota para o Bayern nasceram da combinação Messi-Suárez-Neymar. Eles já somam 114 em todas as competições (o trio mais prolífico da história do futebol espanhol é Ronaldo-Higuaín-Benzema: 118 gols pelo Real Madrid, na temporada 2011/12).

Quando três jogadores abocanham tamanha fatia do bolo ofensivo de uma equipe, é fácil ignorar certas sutilezas do jogo que são tão importantes quanto a frequência do balançar da rede. Mas o sorriso de Luis Suárez é evidente demais.

Reveja a comemoração dos dois gols de Neymar na Allianz Arena. Suárez, que passou para ambos, parece ser o mais feliz.

Em seu nível mais alto, o futebol profissional transformou jogadores em instituições. São verdadeiras empresas, com marca, sede, funcionários, orçamento e planejamento de negócios e marketing. Somado à ambição natural de um atleta, e, quase sempre, seu ego, esse “ambiente corporativo” já impediu muitas equipes de alcançar o sucesso que a capacidade individual de suas peças sugeria.

Um exemplo conhecido: a relutância de Messi em aceitar atacantes que ocupassem sua faixa de campo e/ou quisessem uma porção das oportunidades, como se deu com Zlatan Ibrahimovic e David Villa.

No Barcelona de hoje, no entanto, parece cristalino o bom relacionamento entre as empresas Messi, Neymar e Suárez. Uma é cliente da outra.

Claro que certas declarações elogiosas em entrevistas coletivas carregam o aspecto artificial da exaltação da boa convivência, assim como, especialmente na relação Neymar-Messi, houve momentos em que a vontade do brasileiro de servir a Messi saltou aos olhos. É curioso que Messi seja o maior assistente de Neymar no time.

Mas o que se vê em campo nesta temporada é natural, fluido e, acima de tudo, extremamente produtivo.

A simbiose entre três “atacantes-alfa” tem sido impecável, sem conflitos territoriais de qualquer espécie, como predadores que entenderam que, se caçarem juntos, conseguirão abater presas maiores.

O que se observa é um Messi mais articulador (ele é de longe o melhor passador), um Neymar mais finalizador e um Suárez capaz de assumir papéis distintos conforme as situações: cruel e impiedoso como o Parque dos Príncipes testemunhou, gentil e altruísta como vimos nesta terça-feira.

O gigantesco dilema para os adversários é que o tridente está em constante troca de posições e funções, como mostra o fluxo de assistências e gols de cada um. O fato de Lionel Messi ser um gênio do futebol – em plena forma após um ano problemático – acrescenta níveis desesperadores à tarefa de conter o Barcelona.

A genuína alegria de Suárez deve causar calafrios.



  • Gabriel Gobeth

    Excelente, André.
    A sintonia fina do trio, no futebol de egos inflados e espaçosos de hoje, realmente surpreende.
    Um abraço.

  • Edison

    é fácil compreender a alegria do Suarez, depois de anos sofrendo no Liverpool, agora ele está podendo demonstrar todo seu futebol ao lado do melhor do mundo.

  • Matheus Brito

    Há tempos não escrevia aqui. O Tempo é escasso agora. Excelente análise do Trio MSN. Nunca os tinha comparado à empresas. Bem interessante isso.
    Impressionante a capacidade Messi se reinventar, e o quanto ele foi solidário mudando de função em prol do time. Realmente isso é algo que ele não aceitaria em outras épocas, mas aidade vai chegando e com ela o ser humano amadurece. Ele sabia que a bola já não chegara em sua posição com outrora, ficar ali seria assistir CR7 abocanhar títulos de melhor do mundo um após o outro. Esse ano me parece barbada Messi ao fim do ano, a menos que fatos novos surjam.
    Uma coisa interessante AK é que ainda encontro, escuto e leio pessoas duvidando que Neymar possa fazer sucesso na Europa. Pessoas assim não entenderam ainda que ele já está fazendo sucesso. O Talento vai vencer sempre se a cabeça estiver boa. O Neymar do Barça tem dois monstros para dividir a responsabilidade, fora os Iniestas e Xavis da vida. Isso parece tê-lo deixado ainda mais a vontade. Jogadores desse quilate não se contentam só com gols e vitórias, eles querem fazer o show. Para isso ele está na liga certa, no time certo e com os companheiros certos. Esse trio não se contenta em vencer, eles querem o show e o glamour que somente grandes atuações e plásticas jogadas trarão. Cada dia me sinto mais privilegiado pois não vi os monstros sagrados do passado, no máximo vi de Maradona pra cá e já perto de seu declínio devido às drogas. É um privilégio ver três jogadores como esse trio querendo fazer o futebol bonito ficar lindo. Que venham mais gols e jogadas e assistências, eles não se cansam de fazer e eu não canso de assistir.

MaisRecentes

A vida anda rápido



Continue Lendo

Renovado



Continue Lendo

Troféu



Continue Lendo