COLUNA DOMINICAL 



(publicada ontem, no Lance!)

CORAGEM

Um jogo da Liga dos Campeões da Uefa nos relembrou, no meio da semana, qual é o mais valioso ingrediente para quem deseja vencer no futebol. Não foi o encontro entre Barcelona e Bayern – uma exibição de técnica, talento e magia que ficará na memória de quem assistiu -, mas a vitória da Juventus sobre o Real Madrid. E não estamos falando de algo que possa ser desenhado em pranchetas ou trabalhado em exercícios de repetição.

Pode-se vencer de diferentes formas, com sistemas distintos e até maneiras opostas de enxergar o futebol. Todas elas, exceto o antijogo e a violência, são respeitáveis, principalmente porque a oferta de capacidade humana não é uniforme. Mas é impossível vencer sem coragem. A atuação da Juventus no jogo de ida das semifinais do torneio europeu foi uma aula de bravura e firmeza, brindadas pelo resultado que as recompensou, mas independente do placar para ter valor.

O técnico Massimiliano Allegri certamente seria absolvido pela maioria se recomendasse a seu time uma postura oportunista, mesmo em seu estádio. A teoria escolheu a Juventus como o time menos capaz entre os quatro que ainda sonham com o título, uma categorização que se compreende ainda que seja frequentemente desmentida pelo jogo. Ademais, ser aquela de quem se espera menos é uma posição confortável para muitas equipes. De modo que se Allegri estacionasse um ônibus alvinegro na vizinhança da própria área e entregasse o destino ao humor da sorte, poderia vestir a máscara do pragmatismo e se livrar da execração. Os covardes por convicção até o aplaudiriam pelo “planejamento inteligente”.

Ele fez o oposto. A Juventus jogou com orgulho e ousadia, entrega e concentração. E acima de tudo, com coragem. Coragem para praticamente dividir a popriedade da bola (48 a 52%) e superar o Real Madrid no indicador mais honesto das intenções de um time de futebol: o número de finalizações no alvo (7 a 3). O resultado final (2 x 1) não foi produto de uma ironia deste jogo ou de uma versão irreconhecível do adversário. O tetracampeão italiano se propôs a tomar as rédeas do encontro, uma ideia que provoca urticária em tantos treinadores apaixonados pelo empate.

Além da vitória, a postura conduziu a Juventus a uma supreendente interpretação do futebol de posse, materializada no primeiro gol (https://www.youtube.com/watch?v=8_QAQdNowf4). Foram vinte e sete passes – um recorde nesta edição da Champions – até o toque de Morata para a rede, uma construção que exemplifica o conceito de circulação da bola para induzir ao erro. O golpe final veio após Pirlo virar o jogo para o lado direito, onde Lichtsteiner e Marchisio combinaram para acionar Tévez no espaço entre Varane e Marcelo.

Allegri e a Juventus estarão diante de uma provação ainda mais perigosa no jogo de volta, na próxima quarta-feira. O empate lhes serve, benefício que já levou muitos times a se arrepender da falta de ambição. Será um erro confundir o Real Madrid com o Mônaco e tentar suportar a tempestade. A sorte protege os audazes.

COMEÇA HOJE

Para os cinco times do país que disputam a Copa Libertadores (mesmo levando em conta que dois deles serão eliminados na semana que vem), o início do Campeonato Brasileiro representa o dilema das prioridades. O mata-mata do torneio continental exige força máxima, e o Brasileirão não é benevolente como os estaduais. Escolhas serão feitas nesta e nas próximas rodadas: quanto mais longe um time caminhar na Libertadores, menos atenção dará ao campeonato nacional. O calendário prossegue punindo quem teve bom desempenho no ano anterior, desprestigiando a competição mais importante do país. Mas como a Copa América e a janela europeia de contratações prometem mexer na balança de forças ao longo do caminho, as aparências atuais certamente nos enganarão no futuro. O Campeonato Brasileiro é uma corrida maluca que dura sete meses.



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