PARANORMAL



A foto(*) acima é uma das mais belas já feitas de Lionel Messi.

Você não vê o campo, porque não é necessário. Você não vê seu rosto, pelo mesmo motivo.

O que você vê é o impacto da relação entre a enormidade da atenção que ele gera e seu tamanho discreto. Um contraste que oferece a medida certa de um futebolista imensurável.

O pequeno Lionel é o gigante Messi. A montanha de gente no Camp Nou somos nós (exceto, claro, os infelizes).

No instante em que Messi marcou o segundo gol do Barcelona contra o Bayern, espectadores ao redor do mundo reagiram de maneiras semelhantes. É quase impossível descrever sensações, mas, recorrendo à simplificação, as reações variaram entre a bestificação e um mero sorriso. A primeira, de quem não é capaz de crer naquilo que Messi faz. O último, de quem se acostumou à sua paranormalidade.

É fútil constatar que Messi tem habilidades que constrangem aqueles que dividem com ele os gramados deste planeta. É óbvio notar que o argentino opera com capacidades físicas e motoras que foram criadas apenas para ele. Mas é assustador verificar que – assim como se dá com outros gênios produzidos pela espécie humana – Messi trabalha com um nível superior de percepção.

Ele sabe de coisas que ninguém mais sabe. Provavelmente não se trata de um saber cognitivo, mas sensorial.

Enquanto nos perguntávamos, após o primeiro gol, o que aconteceria com um jogo de futebol até aquele momento marcado pelo equilíbrio, Messi já conhecia a resposta. Ele percebeu que os alemães perderam o ar, detectou o medo em seus olhos, e apontou (reveja o lance) o espaço, pedindo um passe a Ivan Rakitic.

Ele também sabia que a orientação universal para defensores que se encontram na miserável situação de um contra um diante dele é “faça com que se mova para a direita”, cujo subproduto inconsciente é “espere um drible para a esquerda”. Foi o que se passou com Jerôme Boateng.

Quando Messi moveu o eixo de seu corpo para o lado que o zagueiro alemão estava condicionado a defender, a reação automática foi acompanhá-lo. Quando o gênio puxou a bola para o pé direito, as leis da física, as limitações do corpo humano e um ataque de pânico conspiraram para que Boateng sofresse uma pane.

Shut down. Restart. Safe mode.

A queda, tal qual uma árvore serrada nos primeiros palmos do tronco, representa o conjunto de diferenças entre Lionel Messi e seus contemporâneos.

Mas o drible, por mais devastador, seria apenas matéria-prima para diversão online se a sequência não obedecesse ao que se espera de Messi nesse tipo de lance. O fato de o goleiro a ser vencido se chamar Manuel Neuer eleva o feito e revela, novamente, o quanto Messi está à frente da concorrência.

Talvez ele tenha visto Neuer se abrir para os lados, como no gol que negou a Luis Suárez no primeiro tempo, antecipando um chute rasteiro ou à meia altura. Talvez ele saiba que um goleiro inteligente como Neuer não espera que o pé direito de Messi seja tão ameaçador quanto o esquerdo. Ou talvez a capacidade finalizadora de Messi transforme todos os goleiros em figuras sem nome, destinadas a decorar fotografias de seus gols.

Lionel Messi converteu um 0 x 0, resultado de tudo o que é possível fazer para contê-lo, em um 3 x 0 que encapsula tudo o que só é possível a ele. É por isso que, enquanto jogadores desta era são comparados a Messi, Messi é comparado aos gênios de todas as eras.

(*) – Infelizmente não sei quem é o autor da imagem, cujos direitos não tenho a intenção de desrespeitar. Eu a vi no twitter, postada por um jornalista argentino com quem já entrei em contato para obter informações, e a favoritei no ato. Talvez a publicação nos leve a quem merece o crédito por um retrato espetacular.



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