ESPELHO MEU



Por uma noite, o futebol nos proporcionou um fenômeno que costumava frequentar filmes de ficção científica: o vilão que tinha a capacidade de se transformar nas pessoas para se fazer passar por elas.

O resultado foi o aparecimento de dois times desconhecidos no Morumbi, se levarmos em conta o que ambos haviam mostrado até a noite de ontem: o São Paulo (2 x 0: Luis Fabiano e Michel Bastos) vibrante e aguerrido, o Corinthians flácido e indolente. Um foi o que o outro era.

O evento da expulsão de Emerson Sheik é um microcosmo do que aconteceu com os rivais, e o fato de Rafael Toloi estar envolvido não é uma simples coincidência. Foi o zagueiro são-paulino que, no clássico com o Palmeiras, deixou o campo bem cedo por não resistir à tentação de revidar uma provocação de Dudu. No Morumbi, quem provocou foi Toloi, quem viu o vermelho foi Sheik.

Certamente haverá quem diga que Sandro Meira Ricci exagerou, e, mesmo que o tenha feito, seu erro não supera o do atacante corintiano, que optou por correr o risco de ser expulso antes da metade do primeiro tempo. Uma imprudência que não condiz com a postura serena que o Corinthians tinha de aplicar a um jogo em que o adversário era quem deveria estar exaltado.

Mas se deu o oposto. Compenetrado e agressivo, o São Paulo levou a partida a ser disputada no campo do rival e teve pelo menos duas ocasiões antes de se ver presenteado com a vantagem numérica. O time que não vencia clássicos operava na temperatura certa, sem perder a concentração.

Do outro lado, o Corinthians se defendia como se estivesse resignado a apenas limitar danos por toda a noite, distante da personalidade reativa que recebeu elogios merecidos até agora. O time que não perdia jogos – e não perdia na casa do rival há anos – parecia estar com a cabeça em outro lugar, torcendo para que o encontro terminasse logo.

Os lances dos gols refletiram a inversão de posturas. Luis Fabiano não perdoou uma brecha que se abriu para finalizar dentro da área. Michel Bastos aumentou com um chute preciso da meia-lua. A defesa do Corinthians pecou por desatenção nos dois momentos. Virtudes e defeitos trocaram de lado.

Na noite em que tinha tudo a perder, o São Paulo disputou uma decisão e encontrou o que procurava desde o início do ano. A lamentar, apenas o destempero de Luis Fabiano.

Na noite em que não tinha nada a perder, o Corinthians ficou sem dois jogadores para, pelo menos, o primeiro jogo das oitavas de final (Mendoza, registre-se, por tremendo erro de julgamento da arbitragem). Mais grave: o time de Tite pareceu ter esquecido o caráter competitivo que o identificou na temporada. 

Talvez seja ingenuidade imaginar que, em uma situação tão desequilibrada em termos de necessidade de resultado, ambos os times em campo exibam a mesma atitude. O São Paulo lutava para alcançar o que o Corinthians já tinha assegurado. Mas o fato é que a incapacidade de se mobilizar para a ocasião fez com que o Corinthians encerrasse a fase de grupos – apesar de ter feito mais pontos e enfrentar um adversário teoricamente menos perigoso – como a equipe em busca do melhor momento.

O São Paulo, ao contrário, experimenta a saborosa sensação de ter construído um modelo.

Um foi o que o outro era. Terá sido apenas por uma noite?



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