COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

PREDADOR

O prenúncio de uma noite inesquecível para David Luiz se deu aos quarenta e dois minutos do primeiro tempo no Parque dos Príncipes. Luis Suárez foi lançado por Jordi Alba na região da ponta esquerda, com um desses passes exageradamente compridos que a maioria dos atacantes do mundo dispensaria. O zagueiro brasileiro do PSG fez a cobertura em diagonal e chegou antes, dominando a bola com o pé direito, em direção à linha lateral. Suárez percebeu a oportunidade e atacou.

A cena remeteu aos documentários sobre grandes felinos que recheiam a programação dos canais dedicados ao mundo animal. Predador e presa, no violento jogo da sobrevivência. Suárez deu o bote na bola com seu pé esquerdo, uma fração de tempo antes que David Luiz a tocasse novamente. O choque derrubou o zagueiro no gramado, permitindo a Suárez entrar na área com a bola dominada. Se outros jogadores do Barcelona tivessem acompanhado o lance com o mesmo nível de interesse do camisa nove, o segundo gol dos visitantes poderia ter acontecido ainda antes do intervalo.

Interesse é provavelmente um termo mal empregado. Com Luis Suárez, é mais uma questão de necessidade. Uma parte de seu jogo revela ações instintivas, o comportamento de um jogador que não faz o que quer, mas o que precisa fazer. Essa é a programação que corre em seu sangue uruguaio, que se assume menos privilegiado, mas jamais inferior. Que não concebe chegar depois, duvidar de um passe impreciso ou não disputar uma bola na lateral do campo. Que mantém o futebol de rua, o tipo de jogo que pertence a uma época em que não havia nada além de sonhos, intacto e prestes a ser acionado a qualquer momento. 

Ao arrancar a bola do controle de David Luiz, Suárez mostrou um nível de impiedade que o distancia de todos os outros atacantes. É quase como se ele precisasse se colocar em situações totalmente desfavoráveis, para incendiar seu sentido de competição e transformar tudo em uma prova de entrega da qual ele emergirá vencedor. É o que o alimenta e o encanta. Wayne Rooney e Diego Costa têm algo desse espírito de bravura. Carlos Tevez, também. Mas nenhum deles pratica um futebol que pode ser classificado de brutal, um adjetivo que descreve Luis Suárez perfeitamente.

Mas há algo mais. É interessante perceber que Suárez também consegue ser um futebolista fino, capaz de momentos próprios de jogadores tecnicamente superiores a ele. O gol da vitória do Barcelona no último clássico contra o Real Madrid é um exemplo. O controle suave para receber o lançamento de Daniel Alves, e, ao mesmo tempo, tirar a bola do alcance de seu marcador e preparar o chute de pé direito é um recurso raro. Ou a finalização alta e no ângulo para marcar o segundo gol em Paris na quarta-feira, quando um toque qualquer em direção ao canto esquerdo faria o trabalho. Assusta pensar que um atacante que gera medo genuíno em seus adversários também sabe atravessar uma loja de cristais fazendo embaixadinhas.

As canetas em David Luiz? Instinto, necessidade, sobrevivência. 

FINAIS

Nos principais campeonatos estaduais do Brasil, ninguém será campeão entre hoje e amanhã. Mas o fim de semana está repleto de decisões e situações em que eliminar um rival vale tanto quanto o que está em jogo, ou até mais. Pensar que os times estão jogando desde janeiro para chegar a esse momento, em que as circunstâncias dos confrontos superam a importância esportiva dos torneios, é suficiente para concluir que os estaduais precisam ser remodelados.

MUNDOS

É chocante desligar a televisão após um jogo da Liga dos Campeões da UEFA e, ao voltar, encontrar uma partida de Copa Libertadores da América no estádio em que Danubio e São Paulo se enfrentaram. É só um exemplo entre tantos que doem nos olhos. A distância não precisava ser tão grande.

SEQUÊNCIA

Terminou o mandato de José Maria Del Nero na CBF. Começou o de Marco Polo Marin.



  • Charles

    Não concordo que todos os problemas sejam apenas os estaduais, federações, cbf.
    Compartilho dessa pulbicação:
    http://www.lanceactivo.com.br/affonsomattos/2015/04/18/cbf-e-federacoes-regionais-eles-sao-os-culpados/

  • Paulo Pinheiro

    Ansioso pelo post sobre o Vasco x Flamengo deste fim de semana, André, rsrs. Se for na média de 3 posts por erro de arbitragem (pra gente não “relativizar” o erro do árbitro), vai uns 9.

  • Joao CWB

    UCL é o futebol do mundo capitalista e desenvolvido.

    Já a Libertadores, reflexo da mentalidade latino americana bolivariana. Puro atraso.

    Abraço meu caro.

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