COLUNA DOMINICAL 



(publicada ontem, no Lance!)

NÃO PISE NAS FLORES

Durante uma entrevista excêntrica que levantou dúvidas sobre a seriedade de suas palavras, Carlos Miguel Aidar transmitiu uma boa notícia à torcida do São Paulo. Questionado sobre o perfil do técnico que substituirá Muricy Ramalho, o dirigente falou sobre “conhecimento científico”. A declaração sugere que o clube procura um método de trabalho, não apenas um nome para dirigir o time. Não deixa de ser uma mudança de conduta em meio ao carrossel de treinadores que gira incessantemente, acertando aqui e errando ali, conforme circunstâncias cujas explicações compra quem quer.

Se a ideia é mesmo fazer algo diferente, Alejandro Sabella representa um caminho que os outros candidatos ventilados não alcançam. A questão é saber que nível de investimento conceitual o São Paulo está disposto a fazer, especialmente em um momento em que a escolha do próximo técnico não pode ser um passo em falso ou uma experiência efêmera. O futuro será decidido nos próximos dias e é preciso ter coragem não só para escolher, mas também para sustentar a escolha. De nada adiantará contratar Sabella para cogitar sua demissão na primeira série de derrotas, ou na primeira rusga com jogadores refratários ao seu regime, ou no primeiro ano sem títulos.

Marcelo Bielsa – um mestre do ofício, para o qual o futebol brasileiro adoraria estar preparado – costuma dizer que “aquele que cruza o jardim evitando o ângulo de noventa graus chega antes, mas pisa nas flores”. A opção por alguém que pretende fazer o jardim florescer deve estar comprometida com o respeito pelo processo e pelo tempo que ele demanda. Se o objetivo for chegar antes, não é necessário olhar tão longe ou fazer um gesto pretensamente inovador. Basta manter o carrossel em movimento. Os cavalos continuarão subindo e descendo, na coreografia que hipnotiza quem não tem ideais.

Houve um tempo em que o São Paulo parecia ser o único clube brasileiro em que um treinador estrangeiro teria condições de, efetivamente, trabalhar. Não apenas no aspecto esportivo, medido pelo sucesso, mas no sentido de abrir o campo para um outro tipo de visão de futebol. A combinação de estrutura e capacidade administrativa do clube do Morumbi ofereceria as ferramentas e o tratamento adequados. Hoje, por óbvio, essa sensação é tão distante quanto Buenos Aires, motivo que explica o fato de um acerto com Sabella não ser uma garantia. Aidar precisaria ser convencido por seu pessoal de que trazer o argentino é a coisa certa. Se não for por visão, que seja por necessidade.

Alejandro Sabella é o técnico que levou o Estudiantes de la Plata ao título da Copa Libertadores em 2009, vencendo o Cruzeiro, de virada, no Mineirão. No vestiário, pediu aos jogadores “que olhassem para o céu. Eles veriam uma enorme camisa do Estudiantes, encontrariam os ex-campeões, estariam na sala de suas casas. Pedi que saltassem e se agarrassem às estrelas, que levassem a camisa. E disse que essa camisa iria a todas as partes do mundo. Era a camisa deles”.

PARA APLAUDIR

A propaganda continua sendo a alma do negócio e novas formas de aparecer surgem a cada dia. Mas por algum motivo que talvez nunca seja explicado, a marca que está na camisa do Palmeiras achou boa ideia patrocinar os árbitros do torneio do qual o Palmeiras participa, e justamente no momento decisivo. Deixando de lado o que os regulamentos dizem a respeito desse tipo de coisa, provavelmente se trata da “ação de marketing” mais inconveniente dos últimos tempos. Primeiro por envolver o Palmeiras em uma dor de cabeça que o clube não precisa ter, depois por colocar os árbitros dos jogos do Palmeiras sob maior pressão e menor tolerância, e depois por associar a marca a uma situação pouco transparente. A responsabilidade é da Federação Paulista de Futebol, claro, que deveria se preocupar com a imagem de seu campeonato.



  • hilson breckenfeld filho

    Aidar não é correto vide copa união 1987 ; o caso da federação é similar a de outras federações criadas para apoiar o governo federal – … arena vai mal um clube … – enraizada na estrutura futebol

    • Rodrigo J.

      O que que tem Copa União de 87?

  • Paulo Pinheiro

    Perguntar não ofende… não vão haver 3 posts da coluna dedicados só ao erro do árbitro em Corinthians x Ponte Preta da semifinal do Paulistão este ano, como teve com o erro do assistente do árbitro de Flamengo x Vasco da final do Estadual do RJ ano passado?…

    AK: Levarei na brincadeira. Você já fez tentativas menos constrangedoras do que essa.

    • José Henrique

      O erro do árbitro que você se refere seria aquele penalti sobre o Felipe? Ou a não expulsão do jogador da ponte que deu uma tesoura voadora no Uendel, e outra no ScheiK?

  • Klaus

    Concordo! Há tempos o futebol brasileiro precisa de um choque cultural, mas sem que os treinadores estrangeiros sejam tidos como para-raios.

    Quanto a Alejandro, sabellá se vai dar certo – torço para que dê!

    Um abraço!

  • Marcelo Santos

    Ótimo texto. Enquanto isso, a MLS, liga de um país com tradição bem menor no futebol, faz um excelente trabalho de valorização e divulgação de seu produto, atraindo atenção, dinheiro e talvez no futuro próximo os melhores jogadores, e não somente craques em final de carreira.

MaisRecentes

Vá estudar



Continue Lendo

Dilema



Continue Lendo

No banco



Continue Lendo