CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

CIRURGIA

É perturbador perceber que o aspecto mais importante em todo o processo da saída de Muricy Ramalho do São Paulo foi manipulado, como se houvesse razões aceitáveis para negligenciar a saúde de uma pessoa. Pior ainda, o problema pessoal do técnico foi utilizado com interesses que em nenhum momento levaram em conta seu bem estar, em mais um episódio da vida real que dá razão a Frank Underwood: “o caminho para o poder é pavimentado por hipocrisia e vítimas, mas nunca por remorso”.

Desnecessário dizer que alguém que enfrenta um problema de saúde não consegue, por mais dedicado que seja, lidar com o trabalho da maneira devida. No caso de um líder de pessoas, responsável por seu desempenho, as dificuldades são mais numerosas e mais graves. Os que estão abaixo dele o enxergam com complacência, os que estão acima, com compaixão. Mesmo sem intenção, e mesmo que lhe tenham afeição e respeito. Imagine os que não têm. Tais olhares erodem sua posição e o enfraquecem ainda mais. 

No caso de Muricy, os resultados do São Paulo trabalharam para piorar o quadro, tanto o dele quanto o de sua avaliação. Era nítido o abatimento após jogos ruins, retrato que levava à relação imediata com a atuação do time e criava dúvidas a respeito de sua capacidade para reerguê-lo. Muricy passou a ser causa e efeito, alvo fácil no meio de uma batalha política em que não haverá vencedores, rosto que simbolizava um time deprimido e um clube dividido. Até quando ele suportaria?

O golpe final veio depois da derrota para o San Lorenzo, quando se falou em “preservar Muricy”, como se o São Paulo carregasse um técnico incapaz e, em nome de seu passado, o mantivesse no cargo por caridade. Faltou apenas os jogadores dizerem que jogariam por ele”, da forma como se lembra alguém que não está mais por perto. Um treinador conduzido ao máximo grau de fragilização.

Muricy será operado e ficará bem, felizmente. O clube que ele deixou também precisa de cirurgia.

MICRO-ONDAS

Muricy vinha dizendo a pessoas próximas que, pela primeira vez na carreira, tinha perdido a vontade de ir trabalhar. Calcule o que isso diz a respeito do ambiente no São Paulo, transformado a ponto de repelir um técnico que sempre se orgulhou de sua relação com o clube. Já seria suficientemente abominável se ele não estivesse doente.

CIDADÃO

Um clube do tamanho do Flamengo precisa ser e dar exemplo. A mudança no estatuto que submete os dirigentes do Rubro-negro a regras de responsabilidade fiscal é uma valiosa contribuição da gestão atual ao futebol brasileiro, e coloca o Flamengo do lado certo de uma luta importantíssima. Que a decisão tomada na noite de terça-feira seja seguida por outros clubes.



  • Teobaldo

    Prezado AK, não tenho a exata percepção dos vestiários ou dos bastidores do São Paulo, exceto o que é publicado nas mídias. Em relação ao Muricy, acho que cabe outra frase de Frank Underwood (grande Kevin Spacy – não sei se as palavras são exatamente essas): “Há dois tipos de dor: a dor que nos torna mais fortes e a dor inútil, aquela que é reduzida a um sofrimento”. Nesse contexto, Muricy X São Paulo, não consigo entender um simples fato: porque o treinador, maior sabedor de sua doença, simplesmente não saiu? Entendo que ele expôs a uma autoflagelação totalmente desnecessária. Estaria ele pensando em “ser demitido” ao invés de “se demitir”, preocupado com uma possível multa contratual? Com esse enfoque seria ele, Muricy, o maior responsável pelo quadro instalado, a despeito do posicionamento do clube, que não deve ser relativizado. Um abraço!

  • Rodrigo J.

    Dura a vida do Muricy. Pelo menos a torcida entende que ele não era o único culpado e não o queimou.

    Apesar disso, o próprio Muricy vinha falando que não sabia mais o que fazer.

    Continuar apostando no Ganso sem colocar atacantes e meias rápidos ao seu lado foi seu erro. No ano passado Kaká ou puxava o contra ataque ou puxava a marcação e ajudava o Ganso, sempre em velocidade, criando opções e espaços pro Ganso jogar.

    Sozinho, e sem atacante velozes para fazer enfiadas de bola e lançamentos, o Ganso se perde e cai naquele ritmo de mil toques para o lado e para trás, até que milagrosamente alguém crie um espaço.

    Sem colocar ninguém em campo capaz de dar um drible e causar perigo pro outro time, Muricy era um do principais causadores do problema, fora a péssima fase do time inteiro.

    O Milton Cruz já deu sinal de ter percebido o problema da falta de velocidade e movimentação, vamos ver se ele mantém um time mais veloz amanhã, e se o Ganso subirá de rendimento tendo jogadores para lançar.

  • Anna

    Perfeito, André. Espero que Muricy opere, se recupere e volte logo ao futebol, mais forte. Bom final de semana a todos, Anna.

  • RENATO77

    Perfeito.
    Posso estar enganado, mas é o primeiro artigo que leio que aborda esse aspecto da saída de MR do SPFC. E concordo totalmente com esta análise.
    Incrível como, de modo geral, a imprensa não questiona o que o tricolor coloca como “versão oficial”, seja lá do que for. Se o clube emite uma nota, ela é aceita como verdade absoluta sem questionamentos. É natural que todo clube cuide de sua imagem, e o SPFC faz isso como ninguém, desde sempre. Mas seria natural também, o papel questionador do jornalismo…

    Gosto do trabalho do Muricy, embora entenda que seja sobrevalorizado pela critica.
    Como outros treinadores top de linha, MR cuida MUITO BEM da condução de sua carreira. E tem sido milimetricamente precisa em suas decisões, o que não desvaloriza suas qualidades como treinador propriamente dito…isso é indiscutível. Mas MR é um profissional como os outros(top).
    Seus passos sempre foram muito bem direcionados, passar pelo Sancaetano na época em que ele passou é uma amostra. Sua ida ao Flunimed($). O “não ” à CBF. Assim como sua ida para o SFC(de Neymar, Ganso & Cia). Tudo muito bem estudado.
    Isso é qualidade e não defeito. Só acho que são aspectos considerados “não nobres” desses profissionais e, no caso de MR, pouco abordados pela mídia.
    Já com Luxa…com o profexô é sempre destacado o aspecto das escolhas profissionais tendo em vista o que lhe espera, se tem esperança de título, ele vai. Isso em Luxa é mercenarismo. O tal “pôjeto” tratado com sarcasmo pela imprensa. Em MR não é nada, porque parece que não existe…que ele toma decisões profissionais “por amor”.
    Bem, só queria dizer que são dois grandes treinadores, os melhores de suas épocas. Não discutindo aspectos pessoais, “extra campo”, ambos mereceriam respeito e tratamento igual.
    Abraço.

    • José Henrique

      Grande colocação. Todos sabem que pelas críticas que sofre, sistemática e repetidamente, a Luxemburgo bastaria vir para o Spfc, para inibi-las da noite para o dia. Isso é mais do que fato.

MaisRecentes

Gato



Continue Lendo

A vida anda rápido



Continue Lendo

Renovado



Continue Lendo