COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

8 x 0

A tarde de 28 de junho de 2014 não ficou na história da Seleção Brasileira apenas por uma dramática vitória nos pênaltis sobre o Chile. E nem só por uma bola no travessão, no último minuto da prorrogação, que por pouco não encerrou a Copa do Mundo para os donos da festa. Essas são as lembranças mais sensíveis daquele jogo no Mineirão, talvez as mais marcantes, mas não as mais importantes.

A principal impressão deixada pelo empate em 1 x 1 com os chilenos foi o aviso de que a Seleção não tinha futebol para vencer a Copa em casa, comprovada dez dias depois, no mesmo estádio, de forma vexatória e inesquecível. No segundo tempo do jogo contra os chilenos, o Brasil foi controlado por um adversário tecnicamente inferior e psicologicamente incapaz de se impor. Ficou a assustadora sensação de ter escapado da eliminação, o que teria sido trágico àquela altura mas não tão desvastador quanto o que se deu diante da Alemanha.

Para o Chile, o efeito deveria ter sido o oposto. O Mundial deles acabou naquele sábado, mas a atuação contra o Brasil foi mais do que suficiente para enterrar dúvidas técnicas e bloqueios mentais. Uma seleção formada por jogadores valorizados internacionalmente tinha, enfim, se convertido em um time capaz de competir com qualquer adversário. Mas o primeiro encontro com a Seleção Brasileira desde os pênaltis em Belo Horizonte exibiu antigos traumas e ideias ultrapassadas.

Foi decepcionante ver a seleção chilena executar uma agressiva “operação Neymar” nos primeiros minutos do jogo em Londres. O rodízio de marcação logo passou a um revezamento de faltas mais grosseiras, cujo auge foi alcançado aos 22 minutos, quando Gary Medel se utilizou da panturrilha direita do astro brasileiro para se levantar. Provocação desnecessária, especialmente em um amistoso. Interpretação equivocada do que a Federação Chilena chamou de “la revancha”. O time de Jorge Sampaoli, de potencial coletivo tão interessante, preferiu ser violento como em outras épocas, sinal de que o jogo tomava um caminho desagradável.

Por volta da meia hora, a ola anunciou o desinteresse do público pelo que se fazia em campo no Emirates Stadium. Não seria justo pedir entrosamento e bom jogo ao Brasil, por causa das seis alterações em relação ao time que venceu – e bem – a França três dias antes. Mas a atitude bélica dos chilenos não contribuía. Nada mais tenso aconteceu depois do pisão de Medel em Neymar, o que não garantiu a melhora do produto transmitido em vários países. O único momento mais agudo em todo o primeiro tempo foi um drible de Jefferson em Alexis Sánchez, na pequena área brasileira.

O Chile de Sampaoli apareceu de fato no estádio do Arsenal no segundo tempo, com mais associação e mais controle. Ficou evidente o confronto de propostas e a estratégia da Seleção Brasileira de conter com faltas táticas as evoluções do adversário. O Brasil parou o jogo trinta e duas vezes, um exagero até para quem vê virtude nesse tipo de expediente. Quando Robinho virou a bola para Danilo no lado direito da defesa, aos 27 minutos, a melhor característica do time de Dunga decidiu o amistoso.

A corrida em diagonal de Roberto Firmino se inciou na linha do meio-campo. Na intermediária, ele apontou onde queria receber a bola. O passe de Danilo foi perfeito, assim como o corte no goleiro e a finalização – sem olhar – do jogador do Hoffenheim, que parece ter assegurado sua camisa amarela. O Brasil pós 7 x 1 é fatal no ataque ao espaço, com uma capacidade de transição que faz a bola atravessar o campo em um piscar de olhos. É moderno, eficiente, venceu oito jogos seguidos e certamente satisfaz aqueles que só se importam com placares finais.



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