COLUNA DOMINICAL 



(publicada ontem, no Lance!)

CHANCHADA

A explicação de André Valentim, procurador do TJD-RJ, para suspender Vanderlei Luxemburgo precisa ser exposta ao ridículo que merece. Não se pode tolerar que um raciocínio tão catastrófico caia em esquecimento por falta de repercussão, pois só dessa maneira o futebol tem alguma chance, um dia, de se livrar desse tipo de dano.

Vejamos o que declarou o nobre: “Luxemburgo não é dirigente, nem assessor do Flamengo. Ele é o treinador e não tem que se meter nisso. Estamos passando por uma fase complicada pela violência das torcidas e ele diz para darem porrada na federação? Fiz a denúncia e ele será julgado”. A razão de aspas tão preciosas foi a reclamação do técnico do Flamengo em relação ao limite – imposto pela Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro – de escalação de jogadores de categorias de base em partidas do Campeonato Carioca. “Tem que dar porrada na federação”, disse Luxemburgo.

Deixemos aspectos interpretativos para mais tarde, e nos concentremos na primeira parte do disparate. Alguns questionamentos: quem disse a Valentim que ele está em posição de determinar quais são as pessoas que podem ou não podem falar em nome de um clube? Por que raios ele se julga no direito de escolher quais temas devem ser objeto das declarações de um técnico? Em que local no tempo e no espaço vivem os participantes da comédia que se encena nos tribunais esportivos? Despreparo e prepotência formam uma combinação explosiva.

Mais grave é a distorção da mensagem para justificar a “denúncia”. Não é necessário ser perspicaz para compreender o contexto em que a expressão “dar porrada” foi utilizada. Crítica, não agressão. Qualquer pessoa inclinada a acreditar que o treinador fez um chamado público aos bárbaros organizados para demolir o prédio da FERJ se surpreenderá com o resultado de uma encefalografia. Luxemburgo talvez mereça uma observação por ter sido, digamos, gráfico em sua contestação. Mas a denúncia comprova que interpretar o idioma pode ser um desafio dramático até mesmo para quem se considera intelectualmente privilegiado.

Mais grave ainda, se é que é possível, é a constatação de que tudo se resume a um teatro de baixo nível. A frase de Luxemburgo foi usada de maneira oportunista para permitir um ataque da FERJ no conflito com o Flamengo. Que o movimento se baseie na incompreensão proposital do que o técnico disse apenas revela a ausência de vergonha. Sugerir que o treinador não pode se pronunciar a respeito do regulamento do campeonato estadual funciona como figurante nessa peça barata, que leva a degradação do futebol carioca a um novo patamar. Não que fosse diferente em outras partes, se a situação se apresentasse. Cartolas e tribunais não melhoram conforme o CEP.

O ato final da chanchada se dará quando Luxemburgo for julgado. Será o epílogo de um episódio que exemplifica a equiparação, em credibilidade, dos nossos TJDs às atrações televisivas de luta livre. Encenações que escondem interesses, em um roteiro inacreditável. A diferença é que os tribunais pretendem ser levados a sério.

EXCESSO DE PESO

O jogo contra o San Lorenzo já é suficientemente complicado para carregar um peso extra de pressão. Condicionar a sequência de Muricy Ramalho ao resultado na Argentina joga contra os objetivos do São Paulo, pois relaciona situações que deveriam estar separadas. A avaliação sobre o trabalho de um técnico deve ser feita ao término da temporada, justamente para evitar que o elenco tenha de lidar com essa questão, ou, como já vimos, precipite a troca de comando. Isso não significa insistir em erros, mas estabelecer um ambiente em que um jogo não pode encerrar um trabalho. É uma medida que mantém jogadores, comissão técnica e dirigentes concentrados em suas áreas de atuação, sem a perspectiva de desvios de rota enquanto o time disputa competições. E sem permitir que atletas tenham de salvar o emprego de seu técnico.



  • Ivan Alves

    Perfeito, em forma e conteúdo. Fico me perguntando se algum deles chega de fato a acreditar no próprio nonsense…

  • Teobaldo

    “… a denúncia comprova que interpretar o idioma pode ser um desafio dramático até mesmo para quem se considera intelectualmente privilegiado…” A comparação da atuação dos tribunais esportivos com um espetáculo de luta livre, onde tudo é cuidadosamente encenado, é perfeita. Será que alguém ainda acredita neles?

  • José Henrique

    Temos lido matérias que informam que a federação, com suas taxas, tem arrecadado mais que os clubes. Então, por essa lógica, se alguém ler, e exclamar:”isso é um assalto”, vai ser processado. Quanto ao Murici, acredito que o problema deve ser financeiro. O salário é alto, precisa ser reduzido, mas as partes evitam o assunto. Ou alguém acredita que mesmo com sucesso, uma renovação com as mesmas bases atuais vão ser mantidas?

  • Renato Rasiko

    André, eu poderia dizer que esses caras da federação não merecem nem comentários, mas, como vou comentar assim mesmo…

    Tenho lido declarações dos próprios jogadores dizendo que o futebol tá ficando chato. E tá. Muito chato. Especialmente pros mais velhos como eu que presenciaram a nata do futebol brasileiro (pra ficar só por aqui) com grandes times, grandes jogos e públicos que hoje devem parecer inacreditáveis pra quem não viu o Maracanã com um mínimo de 100 mil pessoas nos clássicos REGIONAIS.

    O que nós torcedores perguntamos é: até quando teremos que aturar essa monumental falácia que são a cbf e as federações que fazem de tudo pra empobrecer o espetáculo e nos irritar?

    O que impede, de fato, que os clubes criem uma liga independente e deem uma banana pra esses caras que só fazem lambança em proveito próprio, ou seja, corrupção?

    Abraço

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