COLUNA DOMINICAL 



(publicada ontem, no Lance!)

ABUSO DE PODER

As imagens dos dribles de Lionel Messi viajaram o mundo virtual nos últimos dias, desde que o melhor jogador do planeta (por favor, não percamos tempo discutindo esse tema, ok?) fez a bola passar pelo vão das pernas de três adversários do Manchester City, na quarta-feira passada. Uma das vítimas foi Fernandinho, dispensado durante uma dessas arrancadas da esquerda para o meio que Messi registrou no cartório do futebol. Outra foi Milner, convidado a se retirar do gramado em um lance no campo de defesa do Barcelona. A terceira foi Demichelis, na origem de um contragolpe.

Eles não foram os únicos. Os mais atentos lembrarão que Messi deu o mesmo tratamento a David Silva quando os times se encontraram em Manchester, no final de fevereiro. O jogo estava no início, o Barcelona já vencia por 1 x 0, o City ainda marcava alto. Após uma bola recuperada na frente da própria área, Messi tratou de organizar o setor. Silva tentou pressioná-lo e foi fintado como quem ouve: “saia”. Repetindo: estamos falando de David Silva, um jogador capaz de passar a bola pelo buraco de uma agulha. O problema é que Messi aplica canetas em sereias.

Caneta, rolinho, ovinho… caño ou túnel em Espanhol, nutmeg em Inglês. Termos que identificam o assédio moral em um jogo de futebol. Entre as várias formas de evitar um marcador e conservar a bola, essa é a única que envia uma mensagem adicional aos adversários, ao público, aos companheiros e, claro, principalmente ao pobre coitado que acabou de ser lembrado da hierarquia presente: você não merece estar no mesmo gramado que eu. A simples anotação mental de que é necessário fechar as pernas já é suficiente para tirar um jogador da partida por alguns minutos.

O exemplo serve para aterrorizar os que testemunharam a cena e se imaginaram sofrendo o mesmo abuso. Na jogada do gol do Barcelona no Camp Nou, o horror de ser humilhado ficou evidente na maneira como Kolarov apenas observou Messi durante todo o movimento. Desde o domínio, quando o defensor sérvio se colocou mais à direita, para forçar Messi na direção da linha lateral. Messi fez a bola passar por baixo da própria pernaKolarov teve de se ajustar e imediatamente decidiu que era prudente não se aproximar tanto. O que permitiu que o gênio levasse a bola ao ataque, parasse, ajeitasse para o pé esquerdo e criasse o gol para Rakitic foi uma perturbação que todos conhecemos: o medo.

Para quem acredita que esse tipo de coisa não existe no nível mais alto do futebol, a presença de Pep Guardiola ao estádio funciona como esclarecimento. O técnico que elevou Messi à sua melhor versão não deveria se impressionar com um drible no campo de defesa. Mas a reação de Guardiola à caneta em Milner não deixa dúvidas: olhos arregalados pelo espanto e mãos cobrindo o rosto, como quem não crê no que viu. O atual técnico do Bayern sabe que um drible como esse é uma declaração.

Não falta a Lionel Messi a capacidade para distribuir rolinhos em todos os jogos, sejam quais forem os adversários. O fato de não fazê-lo sempre revela que sua mente genial entende que é uma maldade reservada para certas ocasiões e oponentes. E a ausência de firulas indica a intenção não de provocar risos, mas estabelecer castas que alguns insistem em questionar. O que é um equívoco quase tão grande quanto deixar as pernas afastadas diante dele.



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