COLUNA DOMINICAL 



(publicada ontem, no Lance!)

APARÊNCIAS

O São Paulo divulgou uma nota à imprensa na manhã de ontem, cuja tradução desmente suas poucas linhas. E não, não estamos falando da expressão em Latim (“interna corporis”) que conclui a mensagem, recurso desnecessário em um comunicado que pretende esclarecer e, ao final, faz exatamente o oposto.

Deixemos de lado o refinamento do texto e tratemos de seu objetivo, pois é aí que as coisas se complicam e as posturas de um comando desencontrado se chocam com a realidade da qual é impossível escapar. Vir a público, por escrito, para garantir que o emprego de Muricy Ramalho está seguro até seria compreensível – e útil – se o próprio técnico não tivesse manifestado sua preocupação. Mas já seria mau sinal. A partir do momento em que uma entrevista coletiva abre a janela para um ambiente conturbado, as palavras oficiais perdem o valor.

Porque a nota nada mais consegue do que admitir os problemas internos, confirmar as análises feitas por jornalistas que têm informações e, com o carimbo presidencial, dividir com o torcedor (não o torcedor de dirigente, pois este não tem capacidade neurológica para compreender) o fato de que a posição de Muricy é frágil. E não só porque o time não tem o desempenho que deveria. Se no passado recente o CT estava protegido do que acontecia nos corredores do Morumbi para que não fosse atingido pelos estilhaços de uma guerra política, hoje os morteiros do estádio estão direcionados ao local de trabalho do time.A mudança de conjuntura faz pouca diferença dentro do departamento de futebol, pois, ali, fala-se a mesma língua (obviamente não é Latim).

A possibilidade de demissão de Muricy Ramalho não é uma questão de “informações, entrevistas, notícias e interpretações distorcidas e contraditórias”, como diz a nota emitida pelo São Paulo. É um movimento considerado e discutido pelo presidente Carlos Miguel Aidar, em diferentes ocasiões e com diferentes interlocutores, desde o início do segundo semestre do ano passado, quando as dificuldades financeiras do clube levaram Aidar a qualificar o treinador como “muito caro”. Os motivos dançam conforme a música, mas a ideia permanece, apesar das visitas ao CT e das frases em papel timbrado. Das formas de lidar com boatos, a mais segura de todas é não criá-los. Depois, não alimentá-los. O presidente do São Paulo cometeu ambos os equívocos, e agora aciona o controle de danos enviando um recado público a seu próprio técnico.

trecho mais sincero do comunicado divulgado ontem é o final: “Que cessem, pois e definitivamente, especulações de desentendimentos, dúvidas, controvérsias e mesmo de eventuais divergências”. O curioso é que se trata de um pedido vindo da origem do problema, e de quem tem à mão todas as ferramentas para silenciá-lo. No círculo que mais importa, a mensagem do presidente foi lida com um meio sorriso e um balançar de cabeça, o que é pior do que reprovação. É quase deboche. Se você tem a necessidade de dizer a todos que nunca traiu sua mulher, é porque já traiu. Se não traiu, não precisa divulgar a própria fidelidade.

CALORIAS

A boa forma de Cássio, evidente neste início de temporada, tem um componente extracampo. Desde o período de férias, Tite conversa com seu goleiro sobre a importância da alimentação correta. O sofrimento pela privação – Cássio é o que se chama de “bom garfo” – é recompensado pela maior mobilidade, especialmente nos movimentos laterais. O goleiro já percebeu a diferença, algo fundamental para entender a insistência de Tite como mais do que formalidade.

PRESIDENTE

Para ler com bom humor: a exemplo do que já se fez em algum momento por todos os times de futebol, parece claro que o Santos optou pela autogestão do vestiário. A realidade financeira contribuiu para apontar a solução momentânea, em que a diretoria permitiu que o grupo de jogadores extrapolasse seu campo de atuação. Neste cenário, Robinho tem justificado os valores que recebe, sejam quais forem.



  • Gustavo

    André,

    Seu xará português é a sombra ao Muricy. Pode esperar.

    Abraço.

  • José Henrique

    A leitura que um torcedor de outro time, como eu, faz dessa questão, é que as dificuldades financeiras estão gerando stress entre as pessoas. Atraso de direitos de imagem, salários altos do treinador estão incomodando gestores.
    É evidente que o astronômico salario do Murici, está produzindo desconforto entre as partes.

  • Rafael Wuthrich

    André, uma só dúvida: o que você considera “autogestão de vestiário”?

    AK: Não te parece óbvio? Quando quem comanda são os jogadores.

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