COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

SAQUEADORAS

Luiz Eduardo Baptista deu uma valiosa entrevista à ESPN Brasil, na noite de quinta-feira. O ex-vice-presidente de marketing do Flamengo tratou de vários temas, na maioria ligados à conjuntura econômica do futebol brasileiro, do ponto de vista de quem está familiarizado com os contrastes entre o ambiente empresarial e o mundo no qual os clubes tentam sobreviver. Um olhar didático, produto de experiência, não apenas de opinião.

Diversas colunas poderiam ser escritas com base nas informações oferecidas por Bap (o apelido só aparece aqui porque Baptista o utiliza publicamente) no que diz respeito às características dos programas de sócio-torcedor dos nossos clubes, às dificuldades impostas pela relação entre o custo operacional dos estádios e a precificação de ingressos, ou aos obstáculos que a situação política dos clubes de massa impõem a quem pretende administrá-los com conceitos e práticas verdadeiramente profissionais. 

Esta se aterá à estrutura que vigora em nosso futebol desde sempre, em que organismos supérfluos como as federações estaduais se alimentam dos clubes ao lucrar com a exploração do produto que pertence, de fato, a eles. Pois foi neste campo que Baptista deu as declarações mais importantes, expondo o modelo que classificou como “falido”. Eis a principal: “Quando você tem uma federação que saqueia os clubes, evidentemente é muito difícil você lidar com isso”, disse ele, referindo-se especificamente à Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro, com a qual o Flamengo não tem um relacionamento produtivo já há algum tempo.

A frase de Bap evoca as taxas abusivas cobradas pela FERJ para que os clubes participem do campeonato estadual, assunto conhecido e objeto de numerosas reportagens. Ele usou como exemplo o resultado financeiro do Flamengo no estadual do ano passado, que o clube conquistou: um milhão de reais. Se não tivesse sido campeão, o prejuízo teria ficado em torno de oitocentos mil. Os valores de 2015 são ainda mais assustadores: o Flamengo pode perder entre um e dois milhões de reais ao jogar o campeonato carioca, mesmo que dispute o título.O “charmoso” estadual do Rio, que talvez ainda mereça o adjetivo exclusivamente por causa dos times grandes, toma deles quatro meses do calendário e os recompensa – quando o faz – com cerca de 6% da receita líquida de toda a temporada.  Enquanto isso, a FERJ sonha com uma nova sede. “O objetivo das federações, especialmente da carioca – que eu conheço um pouco mais – não é de melhorar o ambiente do futebol”, disse Baptista.

É preciso fazer a ressalva de que, enquanto foi parte do atual comando do Flamengo, as manifestações de Bap não se aproximaram do conteúdo crítico que ele exibiu na conversa com a ESPN Brasil. Compreende-se que, hoje, fora do clube, seja menos complicado externar opiniões. O que não diminui a gravidade da situação, um dos aspectos que atrasam a evolução do futebol no país, entre outros motivos, por causa da incapacidade dos clubes de agir como seres adultos pensantes.



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