COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

VOTEM!

Um momento especial se repete. Os sacerdotes do futebol estão reunidos novamente, turbinados por litros de chá e remédios para dor nas costas. Um encontro recheado de emoção, pois a idade avançada mantém em dúvida permanente a participação de cada um. Acessos de tosse prejudicam as conversas, cada ida ao banheiro demora uma eternidade, tubos de oxigênio são mantidos na sala ao lado. Este é o cenário, neste sábado, na Irlanda do Norte, na centésima-vigésima-nona reunião anual do International Football Association Board (IFAB).

Falando sério, a descrição acima nada tem a ver com a realidade. A assembleia dos responsáveis pelas regras do futebol (imagens estão disponíveis no site da FIFA) não é um encontro de velhinhos a caminho do centésimo aniversário, em que as conversas são restritas a ex-mulheres e marcas de biscoitos. De fato, a sessão se assemelha a qualquer reunião corporativa formal: uma sala elegante, senhores de terno, laptops, papéis. A caracterização, digamos, geriátrica, se dá por bom humor, e, principalmente, pela extrema lentidão no processo de tomada de decisões sobre o jogo que todos amamos. O que não significa que nada de importante seja resolvido, claro.

Várias questões estão em debate nas conversas de hoje em um hotel em Belfast, as primeiras desde que o IFAB constituiu dois conselhos consultivos formados por “especialistas internacionais” que dão suporte ao debate. Alguns tópicos da lista: a possibilidade de uma quarta substituição durante a prorrogação; a situação de “tripla punição”em que um jogador que comete um pênalti é expulso e suspenso; um esclarecimento sobre o que é mão na bola e bola na mão; e… – som do rufar de tambores – O USO DO RECURSO DE VÍDEO PARA AUXILIAR A ARBITRAGEM.

Os últimos dois assuntos serão discutidos sem a obrigação de uma decisão definitiva, mas diante do tamanho do avanço que a utilização do replay representa(e da resistência dos tradicionalistas enamorados pelo charme do erro humano” em um esporte cuja dinâmica, há muito, ultrapassou a capacidade dos que têm a tarefa de mediá-lo), apenas o fato de o tema chegar à sala do IFAB já é uma vitória para quem deseja ver partidas e campeonatos decididos pelos jogadores. Entre eles estão o presidente da FIFA, Joseph Blatter, e as associações de futebol de países como a Inglaterra, Estados Unidos, Holanda e Itália. Espera-se que o uso do vídeo, com um monitor à disposição de um assistente que se comunica com o árbitro, seja aprovado para testes. Amém.

Um dos últimos redutos dos advogados do atraso é a falibilidade do recurso do replay, sugerida por lances inconclusivos que vez por outra teimam em desafiar até as câmeras. Um argumento pueril. Você deixa de viajar de avião porque um acidente pode acontecer? Optaria por não se submeter a uma cirurgia importante por causa do risco envolvido em todas elas? Não usa telefone celular porque o sinal falha? Rejeitar progressos evidentes em nome de suas eventuais imperfeições é, para usar uma expressão carinhosa, um sinal de falta de inteligência.

ATUALIZAÇÃO – O IFAB resolveu neste sábado que o auxílio eletrônico à arbitragem continuará em discussão. Não foram autorizados testes em competições oficiais.

PAPAI NOEL

A insanidade de uma Copa do Mundo realizada nos dois últimos meses do ano foi a notícia tragicômica da semana. O fato de ser a conclusão final de um grupo de estudos que descobriu que faz muito calor no Catar em junho e julho apenas aumenta o potencial do episódio. Menos mal que Blatter afastou a ideia de uma final um dia antes do Natal (ele quer o jogo decisivo até, no máximo, 18 de dezembro), talvez porque esteja encarregado de distribuir os presentes na festa de sua família. Mas alivia pouco. A Copa de 2022 é uma dessas histórias que começaram mal e, pelo jeito, terminarão mal. 

CARMA

Não deveria fazer diferença alguma, mas que satisfação pela eliminação do Feyenoord da Liga Europa. Uma semana após o vandalismo no centro de Roma, “torcedores” do clube holandês deram um espetáculo de preconceito no jogo de volta. Gervinho, alvo dos imbecis, fez o segundo gol italiano.



  • Anna

    Não consigo entender nao ter chip na bola no Carioca e não ter auxílio da Tv no desafio de alguns lances. Negar a tecnologia é negar a evolução do futebol. Grande abraço e boa semana, Anna.

  • Rodrigo – CPQ

    Sobre o mundial no Catar, acho difícil não ocorrer no final do ano. Mas certamente a briga vai ser boa entre UEFA e FIFA… quem perder sairá muuuuuuito enfraquecido (sim, enfraquecido fica o futebol em si, mas isso não conta muito pra eles, né?). []s

    AK: Como está escrito, a UEFA é favorável à ideia. Um abraço.

  • lm_rj

    Andre, qto a “novidade” da torcida mista no sul: no maracana historicamente em todos os classicos entre clubes do rj la disputados SEMPRE existiram setores onde as torcidas adversarias se misturaram e assistiram aos jogos juntas. um exemplo deste espaco era a historica geral do maraca, Onde vascainos , rubro negros, tricolores e alvinegros sempre conviveram.
    pode ser novidade no sul, no rj isso é mais velho que o corcovado.
    abrs e parabens pelo blog.

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