SHOW SURPRESA



O primeiro tempo de Manchester City x Barcelona foi um suplício para quem gosta de futebol feio (o que, sempre é preciso lembrar, é pior do que não gostar de futebol).

As impressões digitais do grande Barcelona de Guardiola surgiram no gramado do Etihad Stadium, certamente uma surpresa, pois acreditava-se que, por diversas circunstâncias, tal maneira de jogar estava presa no passado.

Mas eis que o “Barcelona dos atacantes” se apoderou da bola e do jogo, com Messi atuando como um 10 legítimo na organização de movimentos. Preciso, bom passador e ameaçador como sempre foi.

O recuo cronológico do time catalão foi como uma apresentação brilhante de uma banda de sucesso que se imaginava aposentada, ou dissolvida. Você entra em um bar sem esperar nada especial e ali está ela, no palco. A pouca expectativa é substituída pela escolha de músicas que lhe fazem bem aos ouvidos e recuperam memórias. O som ainda empolga, a presença e o carisma ainda garantem a conexão com o público.

De repente, você se sente privilegiado por ter ido àquele bar, naquela noite, e assistir a um show que pensava não existir mais. Comenta com a pessoa ao lado, um desconhecido, sobre a sorte que os contemplou. E ele responde com a maior verdade de todas: é preciso seguir os grandes, pois nunca se sabe quando eles resolverão reaparecer.

O velho Barcelona se fez presente em Manchester, sim, mas não sem a ajuda de quem menos se poderia esperar: o Manchester City. 

É compreensível que o técnico de uma equipe multimilionária sinta-se estimulado a dar as cartas em seu estádio. E sendo esse técnico o chileno Manuel Pellegrini, um “treinador do sim”, entende-se a intenção de debater a posse com o Barcelona e, efetivamente, jogar. Provou-se um erro, mais pela forma do que pelo conceito, mas entende-se.

A questão é que há um motivo pelo qual os times que enfrentam o Barcelona escolhem uma de duas formas de atuar: 1) recuar até a própria área, protegê-la com muitos jogadores e ver o que acontece; e 2) defesa compacta, pressão sobre a bola em setores pré-definidos do campo e contra-ataque.

Pellegrini quis inaugurar uma terceira maneira, com marcação adiantada e aposta na capacidade técnica de seu time para fazer com o Barcelona o que o Barcelona costuma(va) fazer com os oponentes. O resultado foi trágico para o time inglês, que novamente se vê diante da porta de saída da Liga dos Campeões.

A pior imagem possível para um técnico que enfrenta o Barcelona é ver os meias adversários navegando com liberdade pela faixa central do campo. Foi o que Pellegrini observou durante praticamente todo o primeiro tempo, com um agravante: a bola chegou sem problemas até a área do City com assustadora frequência. 

Dois gols em meia hora (Suárez, terror do ingleses), várias ocasiões depois, sofrimento máximo no Etihad.

O cenário do segundo tempo foi mais compatível com o que o jogo deveria mostrar, com um bonito gol de Aguero (toque mágico de David Silva) e pressão dos ingleses até a expulsão de Clichy pelo segundo cartão amarelo. Mas não se pode dizer que a vitória dos visitantes esteve ameaçada. 

Messi ainda perdeu um pênalti nos acréscimos (perdeu também o gol de cabeça no rebote de Hart), que, se convertido, construiria um placar mais de acordo com o que se deu em campo, e muito provavelmente decidiria o confronto.

A derrota por 2 x 1 mantém o pulso do Manchester City, ainda que fraco. Mas pelo que sofreu, não é exagero dizer que o resultado foi bom. Ademais, no Camp Nou, não restará outra opção a Pellegrini a não ser marcar muito. Porque a questão não é quantos gols o City conseguirá fazer, mas quantos gols conseguirá evitar.

Não há como garantir que aquela banda surgirá novamente no palco. Talvez os 45 minutos em Manchester tenham sido um evento cósmico. Mas é justamente por isso que é preciso ver.

A não ser, claro, que você goste de futebol feio.



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