COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

BÁRBAROS

As imagens sugeriram uma invasão selvagem em pleno Século XXI. O centro de Roma, região do planeta que deveria ser protegida por todos os seus habitantes, transformado em um gigante banheiro biológico após dias de uso despreocupado. Seria um pouco menos alarmante se fosse apenas sujeira, um rastro de lixo capaz de converter cartões postais (se eles ainda existissem) em aterros sanitários. Mas foi muito pior: a horda que assaltou a Cidade Eterna também usou violência e provocou destruição.

A “Gazzetta dello Sport” os chamou de bárbaros. Outros meios europeus preferiram “hooligans”, termo consagrado pelos ingleses. De modo geral, eles pertenciam a essa excrescência à qual por lá se dá o nome de “ultras”, patamar de imbecilidade que nossos piores “torcedores organizados” ainda – ênfase no ainda – não alcançaram. Muitos se enquadravam na descrição padrão do neonazista que pode ser encontrado em várias partes do mundo: cabeça raspada, roupas de couro, botas militares. Babavam raiva. Eram holandeses, torcedores do Feyenoord.

Chegaram à Itália aos milhares, por causa do jogo de anteontem contra a Roma, pela Liga Europa. A enorme maioria não tinha ingresso e decidiu passar o tempo vandalizando a cidade. Terminaram por conseguir um feito, desses que enchem mentes perturbadas de orgulho: ao barbarizar a mundialmente admirada Piazza di Spagna, causaram danos que talvez não possam ser recuperados à Fontana della Barcaccia, monumento de quase quatrocentos anos de história. A fonte, restaurada no ano passado, sobreviveu a duas Guerras Mundiais, mas não aos ultras do Feyenoord em 2015.

O futebol está no pano de fundo de barbaridades como essa por ser o ambiente em que tantas carências se reúnem. Razões sócio-econômicas ajudam a explicar o problema, seja em sociedades atrasadas ou em locais onde a civilização parece ter caminhado mais adiante, como a Holanda. Hooligans laranjas têm vasto currículo de boletins de ocorrência pelo continente. Os do Feyenoord, em particular, protagonizaram um espetáculo semelhante nove anos atrás, antes de um jogo em Nancy, episódio que resultou na eliminação do clube holandês da Copa da Uefa. A punição talvez tenha mantido dormentes por algum tempo os planos de selvagerias, mas não impediu os fatos ocorridos na capital italiana nesta semana.

É cada vez mais urgente a atuação da Justiça contra criminosos fantasiados de torcedores, especialmente no que diz respeito ao trabalho de inteligência que permite a construção de acusações consistentes. Um exemplo desse tipo de investigação se deu recentemente na Espanha, sob o nome de Operação Aríete. A coleta de provas sobre atividades ilícitas que nada tinham a ver com o futebol levou à prisão de três “ultras” do Real Madrid, fechando, de fato, uma das mais violentas facções de torcedores do clube. Os três já tinham sido proibidos de frequentar o estádio Santiago Bernabéu, primeiro passo para proteger o futebol de quem o utiliza como disfarce.

TÁTICO

Um último comentário sobre o clássico paulista da Libertadores: entre tantas boas atuações individuais no Corinthians, não se pode deixar de registrar a partida de Renato Augusto. Além de oferecer técnica e neurônios, Renato também é capaz de ser um jogador tático. Seu grande problema sempre foi de confiabilidade no aspecto físico, por causa da repetição de lesões. Em campo com regularidade, como tem sido o caso, ele é valioso.

NOVO?

E eis que o português Luis Figo, cara nova da política do futebol, apresenta-se como candidato à presidência da FIFA com a velha proposta de aumentar o número de participantes da Copa do Mundo. Ele cogita até quarenta e oito países, obviamente como forma de conseguir apoio. A estratégia não é apenas antiga. Foi o expediente adotado por Michel Platini na UEFA e, bem antes, por João Havelange. Digamos que não pega bem.



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