A FALTA E O JOGO



Foi Rogério Ceni, símbolo, rosto e voz do escudo tricolor, quem melhor analisou o erro de arbitragem no início da jogada do segundo gol do Corinthians (2 x 0 no São Paulo: Elias e Jádson).

Em uma entrevista longa e sóbria na zona mista de Itaquera, o capitão são-paulino chamou a atenção para o principal problema da falta não marcada de Emerson Sheik em Bruno: a discrepância de critérios.

“Era uma falta fácil de marcar”, disse Rogério, em uma frase que carrega um pouco mais do que seu óbvio sentido.

Não era fácil apenas porque o empurrão por trás foi claro, mas, e principalmente, porque Ricardo Marques Ribeiro parou o jogo em lances semelhantes desde os primeiros movimentos do clássico.

O trabalho de arbitragem é uma conversa entre o homem de meias pretas e os jogadores. Um árbitro fala com seu apito, com suas expressões, com seus gestos e propriamente com palavras. Mas uma das maneiras mais eficientes de estabelecer essa comunicação é com as decisões que toma. São elas que evidenciam que tipo de mediação uma partida terá.

A identificação de faltas é o aspecto mais importante no “estilo” de um apitador. Por intermédio do que considera ou não uma infração, o árbitro informa aos jogadores até onde podem ir nas disputas de bola. Quanto mais consistente for o uso do critério escolhido, mais franca será a “conversa” em campo, e menos espaço haverá para incompreensões e reclamações.

A maior falha de Ricardo Marques Ribeiro não foi deixar de apitar a falta em Bruno, mas ter permitido o nascer de uma jogada de gol em um lance que ele havia caracterizado como falta até então.

Isto dito, quero voltar à entrevista de Rogério para salientar uma outra opinião com a qual concordo. Ceni foi exato quando disse que o São Paulo não pode reclamar por ter perdido um jogo em que o goleiro adversário foi um observador. O fato de alguém como ele, que possui uma notável capacidade de falar sobre uma partida – da qual participou – logo após seu término, não lembrar se seu time havia chutado uma vez sequer ao gol diz muito sobre o que o São Paulo não fez no clássico.

O número e o tipo de ocasiões criadas pelo Corinthians demonstram um encontro claramente desequilibrado a seu favor, lembrando – como também salientou o capitão são-paulino – que o jogo estava 1 x 0 quando o apito cometeu um erro importante.

A falha comprometeu a chance de uma reação do São Paulo? É uma pergunta válida e a resposta é sim. Outra pergunta que cabe: que chance era essa até o momento do segundo gol?

Como escrevo em minha coluna no Lance! desta quinta-feira, o Corinthians é hoje um time que tem uma ideia mais clara do que pretende e de como aplicá-la. A jogada do primeiro gol é um exemplo cristalino da diferença de estágio em relação ao São Paulo.

Está tudo ali: movimento ofensivo desde o campo de defesa; rápida circulação da bola (nada é mais importante) para se organizar e desorganizar o oponente; Danilo como armadilha para atrair um defensor e criar o espaço para o aparecimento de um homem de trás, Elias, servido pelo passe de Jádson.

Tite mencionou essa construção na terça-feira e os jogadores do São Paulo lembraram dela após o jogo. Um time executou o que se propôs, o outro não.

O defeito de critério de Ricardo Marques Ribeiro tem pouquíssimo a ver com isso.



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