COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

CINZAS

A queima dos ramos abençoados trará as cinzas da quarta-feira e a lembrança do dever da conversão. Molhadas pela água benta, as cinzas representam a fragilidade da vida, a mortalidade. Do pó ao pó, destino de todos. Para os que creem, o dia do calendário gregoriano que marca o início da Quaresma deve ser dedicado ao jejum e ao sacrifício.

Quando os sinos centenários do Mosteiro de São Bento informarem a cidade de que são dez horas da noite, um outro tipo de religião anunciará a chegada de uma quarta-feira diferente de todas as que a antecederam no calendário futebolístico. Para os fiéis corintianos e os devotos de São Paulo, o primeiro encontro entre seus clubes pela Copa Libertadores também poderia ser caracterizado pela necessidade de reflexão.

Há dez dias, mais um espetáculo de intolerância e violência aconteceu na estação Carrão do metrô paulistano. Enquanto aguardavam o trem que os levaria na direção Corinthians-Itaquera, dezenas de torcedores corintianos viram são-paulinos em uma composição que viajava no sentido oposto. Os quatro “inimigos” que iam a um jogo do São Paulo no Pacaembu foram espancados por alguns dos quarenta e quatro justiceiros que entraram no vagão para agredi-los. Um exemplo a mais, apenas, igual a tantos outros, independentemente dos envolvidos.

A guerra entre os que vestem camisas de determinadas cores e não aceitam a existência de outras é alimentada pelos planos de vingança, sejam eles emboscadas de contornos medievais ou confrontos modernos, agendados pela internet. Seu combustível é um ódio artificial, produzido por aspectos que transcendem o esporte e revelam até onde pode chegar a estupidez. Uma briga é motivo para outra, uma morte justifica outra, olho por olho, do pó ao pó. A fragilidade da vida, pensamento cristão na quarta-feira de cinzas, adquire um significado mundano e repugnante graças ao comportamento animalesco de cretinos fantasiados de torcedores.

O jogo desta quarta impõe um problema de segurança dos mais sérios: o retorno da torcida visitante que for à Arena Corinthians. O período em que ficará retida no estádio após o jogo, enquanto a maioria de corintianos deixa o local, certamente superará o horário de funcionamento dos serviços de metrô e trens. Caso não se encontre uma solução, as ruas e avenidas da região receberão cerca de dois mil são-paulinos. É impossível escoltar todos eles e, consequentemente, inimaginável que tal cenário seja considerado.

Não podemos apenas celebrar o encontro inédito de dois campeões mundiais em um jogo de Libertadores, ou lembrar despreocupadamente que a temporada promete nos trazer várias repetições deste clássico. A nobreza do enfrentamento esportivo não consegue se afastar do acirramento da rivalidade e de suas consequências violentas, quase sempre distantes dos estádios. Que o futebol prevaleça e a data comum aos calendários seja só uma coincidência.

ROTA

A lógica – que o futebol respeita na grande maioria das ocasiões – é que ambos os clubes brasileiros se classifiquem no grupo 2. A dificuldade da chave foi calculada com certo exagero, à época do sorteio, pela presença do atual campeão do continente e pela possibilidade de classificação do Corinthians. O San Lorenzo deve ser tratado com o merecido respeito, mas não visto como um time superior. E o uruguaio Danúbio é, com distância, a quarta força. Em uma projeção natural, é considerável a probabilidade de um novo cruzamento após a fase de grupos, o que seria verdadeiramente épico.

PROVA

Após a crise entre Luis Enrique e Messi, o Barcelona “dos atacantes” coleciona vitórias em sequência e se comporta como um time. Neymar contribui com sua formidável qualidade para o trio sul-americano capaz de assustar qualquer adversário, mas o teste verdadeiro se verá na Liga dos Campeões.



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