COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

MUMIFICAÇÃO

O confronto de vândalos mais bem documentado da história do futebol brasileiro não será punido da maneira devida por falta de evidências. A frase anterior se encaixaria perfeitamente em um texto satírico, ou como tema de um desses stand-ups que convencem as pessoas a rir das próprias tragédias. Que fique claro: a história, de fato, é trágica. Menos para os miseráveis que se apropriaram do futebol e fizeram dele o ambiente nefasto que conhecemos. Dos gabinetes às arquibancadas, passando pelas redações e pelas redes antissociais.

Você se lembra do que aconteceu na última rodada do Campeonato Brasileiro de 2013, na Arena Joinville, durante o jogo entre Atlético Paranaense e Vasco. Criminosos disfarçados de torcedores produziram um espetáculo grotesco de violência que não provocou mortes por razões inexplicáveis. A guerra foi mostrada ao vivo pela televisão, em todos os seus requintes cruéis, com fartura de detalhes. Se fosse necessário, haveria condições para exibir a “câmera do falecimento” ou gráficos com a potência do impacto de um pé de mesa – com o prego – no crânio de um ser humano.

Quatorze dos trinta e um participantes da barbárie foram absolvidos das acusações de formação de quadrilha e dano ao patrimônio público, por solicitação do Ministério Público de Santa Catarina. Não há provas contra eles, acredite. Mas não perca a esperança: ainda responderão por promover tumulto e praticar ou incitar violência. Se houver “provas”, claro. Os absolvidos concordaram em não frequentar estádios de futebol por dois anos, promessa que certamente cumprirão com fervor religioso.

A parte mais engraçada do episódio é que um dos premiados é um torcedor do Vasco – que não terá o prazer de ver seu nome divulgado aqui – que foi preso no final do ano passado, no Maracanã, por não ter cumprido a determinação da Justiça de se apresentar a uma delegacia nos dias de jogos do clube. Testemunhamos a redefinição do esculacho, mas devemos, de alguma forma, crer que existe gente séria trabalhando para enfrentar o problema com inteligência. Apenas não sabemos quem são ou onde se reúnem. Pois os que estão aí, tomando decisões e sugerindo medidas de efeito placebo, nada mais fazem do que promover a vitória de quem pretende extinguir o futebol.

A simples consideração de torcida única no clássico entre Palmeiras e Corinthians foi o ato mais recente dessa campanha destrutiva. Independentemente do motivo. O Ministério Público de São Paulo – por intermédio do promotor Paulo Sérgio Castilho – se disse “farto do comportamento” dos torcedores organizados, mas curiosamente tentou emplacar a decisão de não lidar mais com eles ao recomendar a proibição do acesso de todos os corintianos ao Allianz Parque. Como não haveria violência no estádio, se houvesse em qualquer outro lugar seria um “caso isolado”, a versão futebolística do coração que não sente o que os olhos não enxergam. E seguimos.

Não tardará e alguém ainda tentará nos convencer de que o futebol no Brasil está como o monge mumificado encontrado na Mongólia, no mês passado. Não morreu, apenas se encontra em um profundíssimo estado de meditação, ao alcance de muito poucos.

ESPELHO

A questão do clássico paulista deste domingo só foi resolvida no início da noite de ontem. Entre acusações e ameaças, articulações e bravatas, sobravam perguntas não respondidas a poucas horas de um jogo entre dois dos principais clubes do país. Sempre tivemos os jogadores, a paixão e o interesse do público. Hoje temos os estádios. Jamais tivemos as cabeças para organizar nossos campeonatos de forma minimamente decente. Além de um reflexo da sociedade, o futebol brasileiro é o retrato de seus dirigentes.

FORÇA

Aplauso eterno a Douglas, goleiro do Capivariano, que raspou o cabelo em apoio ao atacante Silas, recentemente diagnosticado com leucemia. Não é preciso conhecer uma pessoa capaz desse tipo de gesto para identificar seu caráter. Coragem e toda sorte do mundo a Silas nos meses de tratamento, uma provação pela qual ninguém deveria ter de passar.



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