COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

DIA DAS BRUXAS

A troca de comando no ministério do Esporte obriga a repetição do tema. Não apenas pela óbvia importância, mas também pelos adereços oferecidos pelo antigo e atual dono da pasta durante evento para a transferência da posse, realizado ontem. Vindos da galáxia longínqua que habitam, Aldo Rebelo e George Hilton surgiram em Brasília dipostos a chocar. É a única explicação plausível para o espetáculo de aspas constrangedoras.

Rebelo abriu os trabalhos, logo após externar sua confiança no sucessor: “O Brasil é hoje um grande protagonista do esporte no mundo”. É preciso tirar o chapéu para um político capaz de tamanho surrealismo, pois uma frase como essa é suficiente para exterminar a credibilidade do que quer que se diga depois. Sabemos, porém, que o ministro da Ciência e Tecnologia nunca se furtou a se distanciar da realidade.

Em debates mais acalorados sobre a organização da Copa do Mundo no Brasil, Aldo Rebelo se especializou em uma espécie de “escapismo patriótico” que tentava dirigir a conversa para assuntos como a construção de Brasíla ou o preconceito das elites do sudeste do país contra o desenvolvimento de outras regiões. As perguntas eram sobre elefantes albinos, mas isso não vinha ao caso. De modo que ouvi-lo saudar o protagonismo brasileiro no esporte mundial não é algo assim tão dramático. É apenas mais uma inverdade conveniente, jogada aos ventos para confundir e iludir.

Protagonistas no esporte são os países que podem se considerar potências neste campo, nações onde a prática esportiva foi massificada por políticas governamentais como instrumento educacional. Ser escolhido como anfitrião de edições da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos – única leitura possível para a declaração de Rebelo – não confere protagonismo, ou mesmo respeito, a nenhuma bandeira. Significa apenas mais uma escala na viagem dos negócios que compõem a indústria do esporte e do entretenimento, sempre em busca de novas oportunidades. Os processos de seleção para tais sedes são conhecidos em detalhes, bastando lembrar que, em 2022, haverá uma Copa no Catar.

Mas a estrela da cerimônia não era Rebelo, claro. E podemos afirmar sem medo de cometer uma injustiça que George Hilton elevou-se à ocasião. Em um discurso de cerca de quarenta minutos, repleto de embelezadores como “vou dar atenção especial ao esporte social, de inclusão, educacional e comunitário”, o deputado mineiro – e pastor – testou a fé dos presentes ao fazer uma confissão: “posso não entender profundamente de esporte, mas entendo de gente”. Leia de novo e pense em uma preciosidade como essa dita por um ministro da Saúde. Ou da Fazenda.

George Hilton considera-se vítima de perseguição por causa da tempestade de críticas com a qual sua nomeação foi recebida. Até os interlocutores do governo na organização dos Jogos Olímpicos de 2016 manifestaram-se preocupados, pela proximidade do evento. A reprovação mais dura veio em nota dos Atletas pelo Brasil, que se revelaram envergonhados com a escolha da presidente Dilma Rousseff.

As objeções são tão simbólicas quanto a mensagem de apoio de Aldo Rebelo, o político que propôs a conversão da data de 31 de outubro no Dia Nacional do Saci-Pererê, para combater o estrangeirismo do Halloween. Ontem, em Brasília, a dupla brincou de “doces ou travessuras” com o esporte brasileiro.



  • José Henrique

    Feliz 2015 André. E obrigado por ceder esse espaço para nossa participação.
    Imperdível também a coluna De Prima.

  • Christian Suelzle

    Mais uma coluna sensacional, que destrincha o “modus operandi” da política nacional, que a cada dia mais e mais consegue nos envergonhar.

    Parabéns, AK!

  • José Henrique

    Dia das bruxas. Importação de gente que se diz “diferenciada”. Até que o dia do Saci, seria uma boa.

  • Rodrigo – CPQ

    AK, não sou formado em faculdade nenhuma, mas tenho experiência na área comercial de TI, além de conhecimentos intermediários na área técnica. Gosto de esportes, principalmente futebol, basquete, vôlei e automobilismo. Entendo bem da grande maioria dos outros esportes. Isso me credenciaria para uma vaga de editor-chefe na ESPN ou no Lance? Eu passaria na primeira seleção de currículos?

  • Matheus Brito

    Nossa senhora, quase não termino a leitura. Cheguei no “posso não entender de esporte a fundo…”tive uma crise de riso que doeu a barriga.
    Voltando ao dia das bruxas, sinceramente, não esperava nada diferente. Alguém com perfil técnico é pedir demais pra essa gente. alguém que conheça as estruturas do esporte, suas demandas e o que precisa ser feito. Nosso esporte irá crescer quando olharmos para ele de forma educativa. A prática de esporte de forma massiva como meio de inclusão social e de complemento educacional ajudarão a formar cidadãos e por tabela ajudarão os talentos esportivos a aparecerem. Lógico que esses talentos precisarão de estrutura para a prática em alto nível, o que requer investimento e olhar clínico. Mas aí o cidadão entra no jogo dizendo que não conhece a bola, como diz o Trajano, parei!

  • Bruno

    Nao poderia ser mais perfeito!! Dedo exatamente na ferida.. Mas aqui os desmandos ou mandos, sao considerados normais, pela causa…
    Ridiculo…

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