COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

ESCALAÇÃO EQUIVOCADA

“Obviamente o novo ministro não tem qualquer afinidade com a área, nem conhecimento de sua complexidade. É lamentável o critério que levou a essa escolha para um cargo de importância estratégica”.

O comentário acima nada tem a ver com esporte. São aspas do físico Paulo Artaxo, professor da USP e membro da Academia Brasileira de Ciências, sobre a nomeação de Aldo Rebelo para o Ministério da Ciência e Tecnologia. Em conversa com a Folha de S. Paulo, o professor demonstrou preocupação pelo fato de Rebelo, como deputado, ter defendido posições contrárias aos interesses da comunidade científica do país.

Certamente não lhes serve de consolo, mas os cientistas brasileiros não estão sozinhos. A apreensão com os caminhos indicados pelo ministério recentemente anunciado pela presidente Dilma Rousseff aflige outras “comunidades”. As razões são as mesmas: ausência de afinidade e conhecimento, critérios lamentáveis. A pasta do esporte, entregue a um deputado obscuro, conseguiu o feito de baixar de nível no ano entre a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos no Brasil.

Quando Rebelo assumiu, em 2011, suas relações com o ambiente esportivo de certa forma o recomendavam. Ele presidiu a Comissão Parlamentar de Inquérito que investigou a Confederação Brasileira de Futebol no início dos anos 2000. Como ministro, tentou transformar o debate em torno da organização da Copa do Mundo em questão de amor pela pátria e defendeu os mamutes brancos erguidos com dinheiro de impostos em lugares onde não existe futebol para ocupá-los. Apesar da convivência afável com a cartolagem, o jurássico comando atual da CBF tem o ex-ministro do Esporte como uma pessoa de raciocínio lento.

Seu substituto será George Hilton, deputado federal pelo PRB de Minas Gerais, desconhecido nacionalmente. Ou talvez não, como se pôde perceber no noticiário durante as Festas Natalinas. Hilton gerou manchetes em 2005, quando foi flagrado pela Polícia Federal no Aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte, com 600 mil reais acomodados em onze caixas de papelão. Explicou que se tratava de dinheiro doado por fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus, onde ele atuava como pastor. A PF o deixou ir, mas o episódio culminou com sua exclusão do PFL, o equivalente a alguém ser expulso do manicômio por ser louco demais.

Como se o antecedente na Pampulha não bastasse, o Correio Braziliense revelou ontem que George Hilton não informou à Justiça Eleitoral que é proprietário, em sociedade com sua mulher, de uma empresa de transportes cobrada por uma dívida com a Fazenda Nacional. Um juiz federal de Minas Gerais já recomendou duas vezes a penhora dos bens do casal. A notícia obriga perguntar de que maneira o novo ministro se posicionará sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, que trata do perdão a clubes que – assim como a empresa do casal Hilton – devem dinheiro à União.

A mesma questão está imposta à presidente Dilma Rousseff, que, além de ter nomeado um (ou vários) ministro inadequado, terá de decidir o que fazer com a Medida Provisória que salva dirigentes esportivos irresponsáveis ao perdoá-los sem exigir contrapartidas. A presidente conhece bem a opinião dos atletas sobre o tema. A exemplo do que se dá no âmbito científico, Dilma parece pender para o lado de quem defende posições contrárias aos interesses da comunidade esportiva brasileira.



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